Antes de Arnete a calçada parecia não ter tanta importância. Só uma extensão disfarçada da rua que um dia teve seu momento de glória no sapateado de Gene Kelly, no filme “Cantando na Chuva”. No mais, sempre seria só uma calçada. Com uma pequena rampa de cimento, o homem coloca a moto para dentro de casa, ou o carro na garagem. O garajal com o pé de nim logo em frente dia sim outro não é regado. A calçada fica também toda molhada, “pra ver se esfria o tempo”, enquanto sobe o mormaço que ilude e lembra chuva.
Da calçada segue-se para o calçamento, cheio de catabilhos. Arnete só sai de casa com dificuldade, e com alguém para lhe dar empurrãozinho. Nunca pensou que uma anomalia neurológica fosse lhe tirar o direito de andar. As pernas perderam a força. Foram substituídas pela cadeira de rodas. Mas Arnete roda o mundo.
As calçadas foram barradas, cinco, seis estacas de ferro e cimento, ou de cano PVC. “Pras bicicleta não passar por cima”. E agora? Arnete desce, pula feito pipoca no calçamento cheio de pontas de pedras. Passa carro, passa moto, passa bicicleta, que só precisa aproveitar o fim das barreiras para subir na primeira calçada desimpedida. Arnete, que só tinha o meio da rua, estava decidida a dar um fim.
“Calçada é de pedestre e cadeirante”, esbravejou. Por sua história de vida e testemunho dos desafios de uma pessoa com necessidades especiais, ganhou um programa de rádio, para consolo dos ouvintes necessitados aos domingos de palavras de ânimo. Mas Arnete sabe que existem os dias de vacilo, de fazer exatamente o contrário das mensagens que profere. Mas os dias de tristeza são minoria, só para garantir que não será hipócrita para dizer que o mundo será melhor em uma cadeira de rodas, principalmente com tantas calçadas impedidas. No fundo, ela entende que é mais feliz agora, porque, mais que os não-cadeirantes, conhece o gosto da vitória diária: viver.
A campanha foi parar nas ruas, daí para os jornais, daí para a casa e a consciência de muitos cidadãos saudáveis - até mesmo os que barraram as calçadas. Num gesto singelo, um a um foram tirando as barreiras, obedecendo a Lei da Acessibilidade, só conhecida depois de Arnete, que vê a mudança feliz e com lágrimas nos olhos. “Ela só quer exercer o direito de ir e vir”, esclarece um pedestre.
Enquanto “Seu Vianez”, o eletricista que vira pedreiro voluntário, retira os obstáculos da calçada, Arnete vence o calor de Limoeiro com sorvete de flocos com brigadeiro. Sabe que quando terminar sentirá a delícia que é andar desimpedida de uma ponta a outra da calçada, e outra e uma e mais outra, que é só uma calçada.




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