Blog do Mel - Entre e acomode-se


06/04/2008


Água em todos os sentidos

 

Açude castanhão com duas comportas abertas no dia 2 de abril

 

O ser humano tem uma relação obviamente intrínseca com a água. E nenhuma abundância é tão próxima quanto a chuva. O inverno – na verdade, verão chuvoso – que permeia o Ceará é o grande protagonista deste ano, enquanto não houver, ou quase isso, sol brilhando. O açude Castanhão está muito cheio. Sangrará? Arrombará? Já pensou o tanto de água invadindo cidades? Quando chove, e o céu esbraveja, é trovão. Outra enchente a la anos 80? Já disseram que quando a terra treme é um enorme dragão no subsolo tentando acordar. Para muitos, o Castanhão é só um monte de água. Para outros – falo dos mais puros sertanejos – é o que de mais vivo a natureza pode criar.

 

 

 

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Garoto puxa barco no sítio Ilha, em Limoeiro (texto e foto: Melquíades Júnior)

 

A figura do nordestino sertanejo da zona rural é vista, pelos óculos do preconceito, como aquele sujeito analfabeto, pai ou mãe de muitos filhos, filho ou filha de pai nenhum, castigado pela ‘misère’ e, portanto, desprovido de maiores razões. Ele pode ser tudo isso, até desprovido de algum tipo de razão (a da tal ciência), mas nunca um ignorante. Existe algo maior que fé ou razão. E que pode explicar o universo que constitui a relação do sertanejo com água.

 

 

 

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Barragem do Castanhão

 

Caro leitor, cara leitora, nada tão comum quanto a água nas bandas daí, e nas minhas bandas também, já que sempre tive água na torneira – embora minha mãe não possa dizer o mesmo de sua juventude. Mas “água muita”, para quem está acostumado a vê-la tão pouco, é motivo catalisador para o imaginário popular, que, qual nossa imaginação, felicita e amedronta. O sertanejo se permite imaginar o Castanhão, por exemplo, como um ser que de outro mundo passa para este e, em delírios prosopopéicos pode se comparar a um monstro, que, recentemente, acaba de acordar. Todos querem que fique feliz e tranqüilo, nunca com raiva.

 

 

 

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Barragem das Pedrinhas inundada pelas águas do Jaguaribe

 

Fé e Razão encontram seus limites aquém da imaginação, esta reveladora de transcedentalidade. As verdades dos homens “de fé” e dos homens “de ciência” nem sempre cabem na realidade de quem consegue entender e dar diferentes significados ao que nos rodeia. E a imaginação (nem verdade nem mentira, mas equação do pensamento próprio) é o poder que une o sertanejo com medo de os rios, enfurecidos, descontarem suas mágoas-águas em nossas cabeças, fazendo vilão um todo cuja parte é o melhor que há, a Machado de Assis, capaz de ver “olhos de ressaca” de mar em sua Capitu, ou o cientista que não viu, mas jura em um “big bang”.

 

***

 

Água é a letra do poema, refrão da canção, insumo biológico, grito de guerra, grito de paz, matéria-prima da fé, da razão, ferramenta catalisadora da imaginação. Água é só isso e isso tudo.

 

Água de passagem pela comporta do Castanhão (Texto e fotos: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 10h29
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