Blog do Mel - Entre e acomode-se


08/03/2008


No Dia Internacional da Mulher

Dona Maria da Conceição e seu Valderi. Mãe e esposa, mulher guerreira e sofredora que conheci no Dia Internacional da Mulher (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 Declaro, para os devidos fins, que Maria da Conceição Gomes, 49, mãe de dois filhos, casada, moradora do Sítio Espinho, em Limoeiro do Norte, é uma mulher guerreira e, como todas do seu gênero, de uma força que surpreende o mais forte dos homens. Ela não é muito diferente de muitas mulheres que conheço. A diferença foi conhecer sua história em pleno dia da mulher.

 

Foi abandonada pelo marido quando o filho mais novo, hoje com 20 anos, ainda estava de braço. Sozinha por quase dez anos, arrumou outro homem da sua vida. Com José Valderi Rodrigues, que hoje tem 41 anos, reavivou a esperança de uma companhia que lhe cuide bem até a velhice.

 

“Valderi é um homem tão bom” - ela me testemunha, sobre o homem, natural de Pereiro (também no Ceará), regresso da vida “que não deu muito certo” na São Paulo dos anos 80. Os dois moram numa casinha tão pobre quanto indigna. Hoje os filhos estão casados. O mais velho – tem 25 anos - já lhe deu um neto. Tirando alguns favores que fazem à mãe, só ganham mesmo para tirar o próprio sustento. “Meu mais velho sabe lê e tem carteira de motorista, podia ter um emprego melhor” – carrega sacos pesados.

 

Maria da Conceição recebeu meus dois parabéns: pelo dia internacional da mulher e porque “daqui a dois dias completo 50 anos”. “Mas tô tão cansada”, completa. De fato, meu espanto foi ela dizer que mal tem essa idade, tamanha é a cara de velhice e sofrimento.

 

Agricultora “desde nascença”, foi também essa a profissão de Valderi, não é mais. Há três anos contratado para trabalhar numa empresa produtora de banana na Chapada do Apodi, em Limoeiro, hoje o maior pólo agrícola do Ceará, o “homem bom” não durou um mês na plantação, onde era encarregado de espalhar veneno agrotóxico para evitar problemas às bananeiras e, claro, ao empresário. Nas primeiras duas semanas sem Equipamento de Proteção Individual (EPI), foi de chinela, calção e camiseta que se armou o homem.

 

Bastou poucos dias para o veneno ferir um dedo do pé, depois o pé, daí à canela foram só mais alguns dias para o esposo de Maria da Conceição perder metade da perna direita. O que sobrou do membro é um sofrimento cotidiano. Inflamada e cada vez mais desgastando-se, o resto de perna causa gritos de dor ao homem.

 

Sem poder trabalhar, Valderi é cuidado pela esposa, que precisa limpar diariamente os ferimentos. Dizer que estão no aperreio é pouco: o homem não conseguiu se aposentar, ela não tem emprego. Com exceção de um temporário auxílio doença, sobrevivem do que recebem das pessoas. Mês passado, pagou R$ 50 de aluguel, R$ 70 da luz (para o próprio espanto) e “fiquemos sem comer. Já não vendem mais fiado, porque não confiam que a gente vá pagar, num temos trabalho mesmo”, lamenta Maria, que para hospital consultar ou emissora de rádio pedir esmola coloca o marido na garupa da bicicleta e sai empurrando por mais de dez quilômetros. Ele para ela, e ela para ele, que, embora a tenha por esposa, não encontra melhor palavra para chamá-la do que de “mãe”. 

 

 

 

 

E outras mulheres...

Mulheres da Via Campesina protestaram na entrada da Fazenda Delmonte, em Quixeré, no Dia Internacional da Mulher.

 

 

 

 

Caras, bocas e sonhos...

A mulher estuda, casa, tem filhos, trabalha, protesta. Como ninguém, sabe o que é a injustiça humana. De um jeito ou de outro, toda mulher nasce mãe.

 

 

 

 

Olhares na luta...

Como numa guerra em silêncio, elas olham, sentem, e são capazes de explodir a bomba de todas as mágoas no próprio estômago, para depois proverbiar palavras amenas.

 

 

 

Num sorriso discreto...

No fim, um sorriso discreto e verdadeiro, de quem é mais forte do que o sofrimento e está sempre pronta para a luta, do tamanho que for.

Escrito por Melquiades Junior às 23h03
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