Blog do Mel - Entre e acomode-se


21/02/2008


Entre o céu e a terra

De repente o céu se fecha, vira um teto de escuridão. O vento forte bate portas e janelas. Descargas elétricas irradiam luz em fração de segundos, seguem-se volumosos estrondos, comparáveis a um leão furioso. As pessoas correm para todos os lados em busca de refúgio, crianças correm para as mães choramingando apelos. Os mais velhos, calmos, só olham para cima. E sorriem.

Eles estão certos: é a chuva que está chegando no sertão, mudando o clima e orquestrando a paisagem com seus trovões iluminados, para apelos pidões da garotada doida para tomar banho de chuva. Inverno bom ainda é dúvida, mas qualquer agricultor reconhece uma boa chuva, quando é o jeito se render aos apelos da esperança, correr para o terreno e jogar a semente na terra, como se cada feijão fosse a peça de um rosário enterrado em oração. E a chuva também toca o asfalto, que, todo molhado, brilha, refletindo o próprio sol, como que a água a dizer: “olha como você é lindo! Mas agora é minha vez”. Então que chova, pois quando tudo acabar eu vou para o meio da estrada, tentar entender o diálogo entre sol e água no meio do asfalto.Rodovia CE 377, que liga Limoeiro a Quixeré, depois da chuva da última terça-feira (Texto e foto: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 13h36
[ ] [ envie esta mensagem ]

Números da fartura

São 15 quilômetros, 76 anos e uma bicicleta de 30, empurrando 10 kg de feijão, 10 kg de milho, e esperança sem medida até a comunidade de Lagoa das Carnaúbas. É seu Antônio Clímaco voltando para casa, depois de amarrar bem amarrado seu saco de sementes compradas no escritório da Ematerce. Agora só falta o inverno “dar certo”, que vontade não falta. Oração de agricultor começa com a mão pro céu e termina com a mão no chão, para plantar e colher frutos e números.

Seu Antônio Clímaco amarra as sementes para casa (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Escrito por Melquiades Junior às 13h19
[ ] [ envie esta mensagem ]

Enxada na mão inchada, obrigada

Edílson Salgado, da comunidade do Sítio Bom Fim (texto e foto: Melquíades Júnior)

E o inverno, será que vem? Seu Edilson Salgado não espera pela chuva - agustia. Antes de plantar, foi preciso passar o dia arrancando o mato que, ao contrário do verde da plantação de milho ou feijão, é apenas o 'verde-enganação' da natureza. Quem sabe o mato seja fruto do egoísmo (ou também angústia) da natureza, pois só serve mesmo a ela, que, pelo visto, se contenta com tão pouco. Enquanto a reflexão é minha, o homem mata o mato em busca da própria sobrevivência.

Escrito por Melquiades Junior às 13h12
[ ] [ envie esta mensagem ]

18/02/2008


A parte que cabe à arte

Garotos e garotas saltam no amanhecer da Barragem das Pedrinhas

 

Um passo pra lá, outros pra cá; suor já na sessão de alongamento. Noite de segunda-feira de carnaval e a moçada de cara melada, mas de tinta, para compor a máscara do espetáculo. Era só mais um ensaio, mas tinha como diferencial a minha visita, ou melhor, da reportagem, que os meninos sairiam pela primeira vez no jornal. “Vamo apressar pessoal?!” – professor “Chiquinho” tentava apressar a turma, que há quase uma hora se maquiava.

 

A primeira vez que vi o “BioArte Show” foi no Encontro dos Mestres do Mundo, em Limoeiro. Faziam estripulias no tablado montado ao lado da igreja. Misturando teatro, ginástica olímpica e rapidez com malabarismos, a moçada, toda de preto, cara pintada e olhar sério, construía montanha de corpos, dava saltos mais que mortais, desafiando a gravidade e a força de quem ficava em baixo, segurando um, que segurava outro e mais outro. Meus olhos brilhavam de alegria – e medo, naquela desconfiança de que algo podia não dar certo. Mesquinhez de quem não acreditava direito no que os conterrâneos eram capazes. Engano, felizmente. Ao final, só aplausos.

 

A segunda vez que vi a, agora, Companhia de Arte e Cultura BioArte Show foi na dita segunda de carnaval. Um auditório enorme, antes abandonado, era o cenário. Lá passam horas ensaiando com os equipamentos que estão ao alcance: colchão improvisado de ex-academia de jiu-jitsu do professor Antônio, cama elástica de arquivo do professor de ginástica “Chiquinho”, e o resto os meninos que levam.

 

Entrevistei, fotografei, escrevi a matéria, anotei o que têm de bom, no que podem melhorar e, claro, a uníssona reclamação pela falta de apoio da sociedade local. “Sendo futebol eles apóiam”, comentou o treinador, indignado com a realidade.

 

Já a terceira vez que vi os espetaculares – apresentam o “Equilíbrio”, inspirados em “Alegria”, do Cirque du Soleil – foi na Barragem das Pedrinhas, para mais uma sessão de fotos dos ensaios. Cá atrás da lente, fiquei pensando no futuro daquela garotada, entre 10 e 22 anos.

 

Alguns dos “bioartistas” já fizeram vestibular, outros estão distantes, mas já querem ser advogados, farmacêuticos... Um ou outro quer ser dançarino, ator, artista circense como são agora, nada mais. Arte é só uma fase? Um bem estar da idade?

 

Mas foi editando as fotos, no dia seguinte, anterior ao da matéria com os circenses, que uma imagem valeu por mil respostas. Era o esforço (numa foto) e o sorriso (noutra) de uma garotinha simpática, a mesma que dava saltos mortais numa ‘torre’ humana. Foi a mesma garota que vi, um ano e meio atrás, segurando faixa pedindo justiça, no meio da Caminhada Pela Paz e a Não Violência Contra a Mulher.

 

O papel trazia a foto de uma mulher. Era a sua mãe, a professora encontrada morta há dois anos num matagal, horas depois de ter ligado para uma amiga pedindo socorro. Ela e a irmã mais nova são cuidadas por outros familiares. Naquele dia, do manifesto, vi sua expressão triste e desoladora – em plena infância, havia perdido o gosto de viver, bem diferente do sorriso ‘metálico’ de contente em fazer arte. Sâmara – é seu nome - ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas seu sorriso reencontrou o caminho da felicidade, por meio da arte.

Samara, à direita, e demais jovens da Companhia de Arte BioArte Show - texto e fotos: Melquíades Júnior

A reportagem sobre o BioArte Show pode ser conferida nestes links: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510792   continuando em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510802

Escrito por Melquiades Junior às 18h51
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, Homem, de 20 a 25 anos, English, Spanish, Arte e cultura, Livros
MSN -

Histórico

Categorias