
Garotos e garotas saltam no amanhecer da Barragem das Pedrinhas
Um passo pra lá, outros pra cá; suor já na sessão de alongamento. Noite de segunda-feira de carnaval e a moçada de cara melada, mas de tinta, para compor a máscara do espetáculo. Era só mais um ensaio, mas tinha como diferencial a minha visita, ou melhor, da reportagem, que os meninos sairiam pela primeira vez no jornal. “Vamo apressar pessoal?!” – professor “Chiquinho” tentava apressar a turma, que há quase uma hora se maquiava.
A primeira vez que vi o “BioArte Show” foi no Encontro dos Mestres do Mundo, em Limoeiro. Faziam estripulias no tablado montado ao lado da igreja. Misturando teatro, ginástica olímpica e rapidez com malabarismos, a moçada, toda de preto, cara pintada e olhar sério, construía montanha de corpos, dava saltos mais que mortais, desafiando a gravidade e a força de quem ficava em baixo, segurando um, que segurava outro e mais outro. Meus olhos brilhavam de alegria – e medo, naquela desconfiança de que algo podia não dar certo. Mesquinhez de quem não acreditava direito no que os conterrâneos eram capazes. Engano, felizmente. Ao final, só aplausos.
A segunda vez que vi a, agora, Companhia de Arte e Cultura BioArte Show foi na dita segunda de carnaval. Um auditório enorme, antes abandonado, era o cenário. Lá passam horas ensaiando com os equipamentos que estão ao alcance: colchão improvisado de ex-academia de jiu-jitsu do professor Antônio, cama elástica de arquivo do professor de ginástica “Chiquinho”, e o resto os meninos que levam.
Entrevistei, fotografei, escrevi a matéria, anotei o que têm de bom, no que podem melhorar e, claro, a uníssona reclamação pela falta de apoio da sociedade local. “Sendo futebol eles apóiam”, comentou o treinador, indignado com a realidade.
Já a terceira vez que vi os espetaculares – apresentam o “Equilíbrio”, inspirados em “Alegria”, do Cirque du Soleil – foi na Barragem das Pedrinhas, para mais uma sessão de fotos dos ensaios. Cá atrás da lente, fiquei pensando no futuro daquela garotada, entre 10 e 22 anos.
Alguns dos “bioartistas” já fizeram vestibular, outros estão distantes, mas já querem ser advogados, farmacêuticos... Um ou outro quer ser dançarino, ator, artista circense como são agora, nada mais. Arte é só uma fase? Um bem estar da idade?
Mas foi editando as fotos, no dia seguinte, anterior ao da matéria com os circenses, que uma imagem valeu por mil respostas. Era o esforço (numa foto) e o sorriso (noutra) de uma garotinha simpática, a mesma que dava saltos mortais numa ‘torre’ humana. Foi a mesma garota que vi, um ano e meio atrás, segurando faixa pedindo justiça, no meio da Caminhada Pela Paz e a Não Violência Contra a Mulher.
O papel trazia a foto de uma mulher. Era a sua mãe, a professora encontrada morta há dois anos num matagal, horas depois de ter ligado para uma amiga pedindo socorro. Ela e a irmã mais nova são cuidadas por outros familiares. Naquele dia, do manifesto, vi sua expressão triste e desoladora – em plena infância, havia perdido o gosto de viver, bem diferente do sorriso ‘metálico’ de contente em fazer arte. Sâmara – é seu nome - ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas seu sorriso reencontrou o caminho da felicidade, por meio da arte.

Samara, à direita, e demais jovens da Companhia de Arte BioArte Show - texto e fotos: Melquíades Júnior
A reportagem sobre o BioArte Show pode ser conferida nestes links: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510792 continuando em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510802