Blog do Mel - Entre e acomode-se


21/01/2008


Por dentro da chuva

 

Todo sertanejo que se preze é, antes de tudo, um fã de chuva. Eu gosto do seu gosto, seu cheiro, sua paisagem. E gosto da lembrança dos tempos em que, quando criança, não pensava duas vezes para mergulhar no céu-chuveiro. Tirando ter que pedir a minha mãe pra deixar tomar banho na chuva, depois do “pode” cheio de recomendações nada mais me segurava. Só a chuva. E chovia sorriso, chovia alegria, trovejavam murmúrios tremidos de frio. Chuva é bom, melhor se participar dela.

Da minha casa até a esquina são pelo menos três ‘biqueiras’, embaixo das quais já estive uma, dez, centenas de vezes, quantas dezenas de banhos pude tomar. E um dos melhores momentos de quando chove é, subitamente, lembrar-me de andar naquela mesma calçada, naquela mesma estrada, em dias na maioria tórridos, causticantes, de um sol para cada cabeça. Daí a voltar para o pensamento real – “estou na chuva” – era como se chovesse de novo, uma chuva dentro da outra.

Cresci e não perdi o gosto por esse momento tão ímpar deste semi-árido. Mas são cada vez menos banhos de chuva, a gente cresce e, também, vêm as nóias completamente factíveis de gente grande. Passei a ter medo dos raios, que realmente podem cair em mim e me machucar, medo de uma árvore desabar. Mas isso não é nada. Passei a ter medo de entrar na chuva e não querer mais sair de lá e, como que numa regressão involuntária, eu voltar (passagem só de ida) aos meus tempos de infância...

Mas o tempo passa, e se Guimarães Rosa disse que o sertão é universal, porque não a chuva? Dentro ou fora me sinto dentro dela. Nem que seja pela lente da câmera, que mira os olhos das minhas sobrinhas pequenas, que tomam banho de chuva como se fosse eu há muito tempo. E agora mesmo.

Escrito por Melquiades Junior às 23h53
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