Blog do Mel - Entre e acomode-se


24/12/2007


A Cabeleireira e o Natal

Poucas vezes saio da rotina de trabalho para um compromisso mensal que não é trabalho nem diversão para me sentir tão bem quanto ir à cabeleireira. Quando chego ao salão, não tenho muita frescura. “Apare essa moita e estamos resolvidos”. Uma coisinha aqui, outra ali e sai como eu quero - só diminuir a cabeleira, não passando a máquina que pela nem deixando aquele topete ridículo – que a juventude de cabelo crespo feito o meu tem feito...

 

Faltando menos de dois dias para o Natal e sem cortar a cabeleira, era quase impossível arranjar um lugar, não fosse uma cabeleireira acolá abrir mão de uma hora do seu domingo à noite. Papai Noel chegou antes e usa tesoura. Não sei o que mais cansa nela: se as mãos que cortam ou a boca que não pára de falar. Não, não falo de uma tagarela, fofoqueira ou coisa assim. É como se eu pedisse “corte meu cabelo e qualquer idéia suicida que possa passar por minha cabeça”.

 

Essas mulheres nos dão uma injeção de ânimo, de exemplo de vida. Graças a Deus tenho minha auto-estima lá em cima, mas o que emocionava na conversa de salão era que só fluía uma simplicidade, sinceridade, embora não houvesse testemunhas – continuará não havendo.

 

Quatros meses depois de perder a mãe e o mesmo período sem ver o único filho, aquela psicóloga de navalha contaminava o salão de felicidade. Só usou a palavra problema quando lhe foi perguntado, mas “a vida é difícil para todo mundo, mas acha que vou ficar me lamentando enquanto trabalho? “De primeira eu me fazia de forte e ia chorar lá dentro, por conta dos problemas, pois é muito difícil perder quem se ama tanto. Mas isso aqui é bom. Eu me sinto é bem cortando cabelo. Cansa, mas faz bem”, foi mais ou menos o que me disse a guerreira (pelo que me a memória me ajuda a recordar).

 

Ampliou o salão e quer aumentar mais, tem um filho se dando bem em Brasília e parece que vai ficar melhor ainda. Agradece a Deus pelo dia que passou, “pois meus dias todos têm dado certo”. Terminar o rojão de trabalho até meia hora antes da ceia natalina (e as cabeleireiras são as últimas a ir às festas, quando vão) pensa em ir dia seguinte para a praia, descansar mãos e mente com a família. Diz que vai com a sensação do dever cumprido e recuperar as energias para a quarta-feira. Isso que é um Feliz Natal.

Escrito por Melquiades Junior às 03h03
[ ] [ envie esta mensagem ]

Êê... Boi da Faceira

“Lá vem boi, aiá, vem boi nós queremos ver”. E quando dá fé o boi já vai longe, e fica registrado para ninguém esquecer que o Boi Pai do Campo da Faceira chegou para ficar, ir, passear e voltar. Agora Mestre Chico e sua turma deram de aparecer na televisão, na tela do cinema. O documentário Brinca Faceira, produzido e recém-lançado em Limoeiro do Norte, pelo programa Petrobrás Cultural, mostra a história, canções e precursores do bumba-meu-boi da comunidade limoeirense de Faceira. A produção audiovisual faz um dos poucos registros que se tem do reisado de mais de dois séculos nas ribeiras jaguaribanas.

 

Feito a água do rio que desce, a brincadeira do Bumba-meu-boi foi passando de geração para geração, povoado para povoado, até bater no município de Russas e, daí, para onde hoje é Limoeiro do Norte, na localidade de Faceira. Foi quando João Caboclo construiu com suas próprias mãos o boi, feito de ripa de madeira assada. João é o tio do atual Mestre da Cultura Chico Nogueira e o principal incentivador do auto do boi no lugar. “Lembro quando vi pela primeira vez, com medo do dotô e da Catirina, subi na biqueira de uma casa com medo dela. Era uma grande algazarra, num tinha criança que ficasse parada, todos corriam em disparada louca”, conta o brincante João Caboclo - poucos anos antes de morrer - em entrevista em fita cassete ao compositor Eugênio Leandro, também de Limoeiro do Norte, produtor e principal idealizador do documentário.

 

O filme começa no ano de 1995, quando Eugênio visita a comunidade de Faceira já decidido a fazer daí um grande projeto audiovisual. Até então vivo, João Caboclo, “rapaz velho” (como chamam os homens ‘de idade’ que nunca casaram) respeitado pela comunidade Faceira, conta como começou o boi pai do campo e as brincadeiras com os rapazotes Manoel Chico, João Claudino, Geraldo Claudino, finado Otávio, Raimundo Feitosa, João Lúcio, Manoel Lúcio, Chico chico, João Guilherme, Zé Chico, Abel, Raimundo Claudino, Zé Nogueira (pai de mestre Chico), Chico Romão, Bessinha e Zé Augusto. Era tudo menino dançando no terreiro, animando festa de casamento, festa junina, ou somente a própria alma, quando não tinha o que comemorar.

 

Enquanto mostra um por um dos atuais integrantes do boi-bumbá, o documentário insere pesquisadores da cultura local como padre Francisco Pitombeira, escritor Gilmar Chaves (atualmente secretário da cultura de Limoeiro), professor (hoje vice-governador) Francisco Pinheiro, o pesquisador das expressões culturais do mar de terra batida e lascada Osvaldo Barroso, sociólogo –“o boi faz parte do inconsciente coletivo da comunidade”. É na frente da câmera que também se dá o diálogo de brincantes de comunidades diferentes, quando Chico Nogueira e Antonio Manoel, do boi-bumbá do município de Quixeré, relembram como era o boi de antes, para o de agora.

 

Foi trabalho de pesquisa e suor situar as singularidades do boi-bumbá da Faceira, em meio a tanta boiada de reisado pelo país. Ainda assim, conforme o professor Pinheiro, “não encontramos cultura do boi sem a cultura da pecuária”. E gado era o que não faltava pelas paragens do Rio Jaguaribe, visto que em 1763 estavam registradas mais de 600 fazendas de gado nos terrenos marginais. Se o boi historicamente esteve inserido na economia migratória (interiorizando o sertão, a pecuária difundiu-se pelos povoados), não é difícil entender que entrou nas expressões culturais de seus dependentes, o que pode ser conferido nos bois de Manaus, Maranhão, Ceará, sempre com um pé na cozinha, ou na oca, e o outro na sala (nos anos 1600, o “boeuf-gras” francês, depois restabelecido por Napoleão Bonaparte, saía coroado em cortejo pelas ruas, homenageando pessoas nas portas de suas casas).

 

Brinca Faceira é o primeiro documentário de Eugênio Leandro e Vera Costa, sua irmã e co-produtora do filme. Mais do que a qualidade técnica do trabalho (com alguns pequenos erros primários), seu maior mérito está na preocupação com o registro histórico do tradicional reisado, que nos alimenta a esperança no flagrante de crianças tão pequenas cantando e fazendo valer o boi. Mas não basta filmar, tem que interagir com o filme: o programa Petrobrás Cultural, que contemplou 171 entre 3.380 projetos de audiovisual de todo o país, dá a mão, mas exige contrapartida. Uma delas foi a realização de oficina de construção da indumentária do boi para a comunidade.

 

E Boi Pai do Campo da Faceira não sai da tela, mas vai para todo lugar. É um verdadeiro cortejo circular da comunidade limoeirense que teima em preservar o boi, cantando a sátira, o trabalho, a terra, o amor. Os versos curtos rimados da boca sem dente de Zé Romão caem no inconsciente musical popular: “Eu tenho um ‘botão’ de açucena/ para dar a uma morena/(...)Quero ser dono/ da minha terra, ô morena/Quero morrer nos braços dela...”

 

Vai boi, vai catirina, mateu e o jaraguá, os percussionistas e gaiteiros. Aquele remendado de pano, arames e cano PVC faz que vai-não-vai para cima do povo, mostra que dentro de todo boi há um homem. Ou que principalmente dentro de cada homem há um boi.

Escrito por Melquiades Junior às 02h49
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, Homem, de 20 a 25 anos, English, Spanish, Arte e cultura, Livros
MSN -

Histórico

Categorias