Blog do Mel - Entre e acomode-se


19/12/2007


Fogosa é tradição de fim de ano


 

 As ceias de natal e as festas de fim de ano no sertão jaguaribano são cheias das deliciosas e mais famosas ‘bolinhas’ prensadas de farinha. As ‘fogosas’, como são conhecidas, são fabricadas e vendidas principalmente nesta época, em que famílias inteiras põem, literalmente, a mão na massa para abastecer as mesas de fim de ano. Em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, casa que tem farinha espalhada do chão ao teto é, na certa, casa de fogoseiro.

No dicionário, fogosa vem de fogo, algo ardente, metaforizado em “mulher ardente”, “moça fogosa”, ‘quente’ e sensual. No Vale do Jaguaribe, fogosa é sinônimo de festa da padroeira, natal e dezembro. De quando o menino aguarda os pais chegarem da festa à Nossa Senhora da Conceição ou das compras nas barraquinhas lá da praça matriz de Limoeiro, após as “bombas” da “passagem do ano”. Chega com um monte de saquinhos cheios de fogosa.

Isso porque é neste período quando seu Francisco de Assis junta a família, que não é pequena, para trabalhar dia e noite produzindo o enroladinho açucarado de goma com coco. A casa vira uma fábrica, filhos e netos são operários, e o tempo transforma tudo isso em tradição. A mesma que leva o comerciante Fernando Holanda a comprar todos os anos, desde menino (e isso faz mais de 30 anos), os saquinhos de fogosa no galpão dos feirantes de Limoeiro. “Quando era menino, no fim de ano não via a hora de comprar fogosa. Comia até não poder mais, cheguei a passar mal de tão cheio”, conta o comerciante, agora fazendo as compras para toda a família.

A família de Francisco de Assis Ferreira Leitão trabalha há mais de 30 anos na atividade, e não só na fogosa, como broa, grude, pé-de-moleque, ‘quebra-queixo’ e “doce do que você imaginar”, ressalta Maria de Lourdes Araújo Leitão, esposa de seu Assis e filha de Maria Cecília, a fogoseira mais antiga de Limoeiro – 92 anos. Hoje, a matriarca da fogosa acompanha com os olhos a correria dos fabricantes e faz os serviços mais leves. E em casa de fogoseiro não tem folgado, é todo mundo em pé ou sentado e “mãos à obra”, embora dê tempo de uma prosa enquanto trabalham, “para distrair e o tempo passar melhor”. Assim fazem Liduína, Socorro, Cecília, Luciene e Luis Fernando, da família Leitão.

A casa de Seu Assis termina onde começa a vida dele. Com um forno a lenha e de bom tamanho para cozinhar da fogosa ao pé-de-moleque. “Isso aqui é minha vida”, resume, sem parar um só minuto para conseguir dar conta do serviço - é dezembro e o mutirão todo é para aprontar tudo para a feira de natal. De cinco da manhã a meia noite do dia 24, a feira popular movimenta a cidade, que mesmo após a missa da noite vê seu povo comprando as fogosas para o café da manhã, “que dia seguinte, feriado, é tudo fechado”, retrucou uma compradora. Passar natal e chegar "noite de ano", a labuta de Assis será a mesma: Vender o fabricado da semana, “para entrar 2008 de bolso cheio”. Cada saquinho de fogosa é vendido a um real, mas se o cliente comprar muitos ainda ganha um desconto.

“Mas de primeiro, quando dava meia noite, isso aqui tinha mais gente. Agora diminuiu muito, o povo sai da missa logo pras festas”, reclama Assis. Na mesma labuta fogoseira está o casal Francisco Maia e Maria Lousa, esta que trabalha com fogosa “desde que nasceu o primeiro dente”. Vieram de Tabuleiro do Norte, outro município com tradição na produção de fogosas. E mais um famoso em Limoeiro é José Rebouças de Oliveira, o ex-agricultor e hoje “Zé da Broa”. Há 29 anos no ramo fazendo mais de seis mil fogosas por dia, “para vender até o derradeiro dia do ano”. E eu comer até o ano novo chegar.

Escrito por Melquiades Junior às 20h35
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