Blog do Mel - Entre e acomode-se


19/11/2007


Surtos no teclado

Eu tenho duas notícias. Uma é boa e a outra é má. A má é que a notícia boa não é tão boa assim. A boa é tão desimportante que até esqueci...

 

                    ***

 

Se eu fosse poeta escreveria uns versos soltos, soltaria o verbo, comporia uma música brega, só para dizer que acho que estou amando loucamente.

Mas como não sou poeta, muito menos estou amando loucamente, me contento em dizer simplesmente que ‘Ô vontade de ir pra merda’.

 

                    ***

 

Outro dia psicografei Romeu. Ele escrevia que Julieta era demasiado dramática. E não raspava as axilas. Foi quando Julieta pulou dentro de mim e devolveu que Romeu não fazia com seu instrumento fálico os marabalismos que penamente escrevia. E ainda tinha mau hálito. Mesmo assim chegaram-me à conclusão de que realmente se amavam...

 

                     ***

 

Diálogo perdido e sem nexo parte 1

- Você tá aí? Espero que sim. Ou talvez não. Não sei. Bem, vejamos. Por onde começo. Então, tá calor, né? Tá bom, sempre é calor. Mas sou eu que estou suando. Muito. É, é o calor mesmo. Mas vamos ao que interessa, porque se eu vim aqui não foi para não dizer alguma coisa. Não faz parte de mim desistir. Não depois de já ter desistido de tudo. Mas eu não sei como começo. Se começo. Você continua aí? Aliás, você já esteve aí alguma vez? Você nunca esteve nem aí. Sempre afirmo isso... Mas você realmente nunca esteve nem aí mesmo, né? Tá bom, eu me rendo - sou um chato. Principalmente agora, que se foi quem nunca veio. Falo de você. Linda, irradiante, encantadora, mas que nunca veio. E se tivesse vindo... Não há mais saudade, só um mp3 com “a sua piscina está cheia de ratos”. E eu parecendo uma estátua que olha pro céu com direito a chuveiro próprio... E uma taça de vinho na mão. Quando tudo derrama nem se percebe o sangue e as lágrimas.

Escrito por Melquiades Junior às 00h55
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Nas comunidades quadra é pracinha e palco de cidadania

Equilibrando a bola nos pés e o juízo na cabeça. Esporte é cultura! (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Em poucos lugares é tão fácil de encontrar o espetáculo esportivo com tantos personagens quanto no Interior, ou melhor, nas comunidades rurais. O futebol comunitário é um lazer em que goleador está longe de ser o protagonista. É difícil escolher um personagem principal entre o goleiro que atua em cinco times numa mesma temporada, a costureira mãe de atleta que faz o uniforme da torcida, veste a blusa e corre para torcer; o vendedor de sorvete que, indignado com o juiz, solta o isopor e entra no jogo; o juiz que, indignado com a torcida e pela “micharia” que ganha, reclama que está ali fazendo um favor ao organizador do jogo, ou o policial que, enquanto faz a segurança, torce para o filho em quadra, com direito a puxão de orelha se este não jogar bem.

E tudo numa incrível e alegre tranqüilidade, bem diferente da realidade tensa nos estádios de futebol. A prática esportiva é a principal atividade de lazer e cultural da maioria das comunidades no Interior do Ceará. Os jogadores começam desde criança o trabalho de disciplina esportiva.

Escolinhas de futebol – de longe o principal esporte nessas regiões – são responsáveis pelo melhor rendimento de crianças e adolescentes até na sala de aula. Depois da escola, o esporte vira principal instrumento de cidadania. Para fazer gol deve ter nota boa!
Comunidades
Lagoa das Carnaúbas, Córrego de Areia, Arraial, Canafístula, Espinho, São Raimundo e Barreira. Cada uma dessas comunidades dos municípios de Limoeiro do Norte e Quixeré, no Vale do Jaguaribe, possui seus campeonatos de futebol e os respectivos times amadores. Futebol e vôlei são as principais modalidades. Às noites e nos fins de semana, a principal “pracinha” dessas comunidades chama-se “quadra poliesportiva”, cada qual com nome em homenagem a um atleta, desportista, ou mesmo a denominação da comunidade.

É o caso da Quadra Esportiva Lagoa das Carnaúbas, de time homônimo, na comunidade que fica a 5km da sede de Limoeiro. Na última terça-feira, teve fim o campeonato local. Final emocionante entre os times Agenor (de Limoeiro) e União (de Quixeré), com direito a prorrogação e pênaltis.

Famílias inteiras lotavam as arquibancadas – um comprido banco de cimento de um lado e outro da quadra, esta toda cimentada e pintada. “Menina dos olhos” de muitas empreiteiras locais, as quadras esportivas são cada vez mais comuns, em substituição aos campos de “terra batida”.

Como a “paixão nacional”, o futebol nas comunidades é tratado com religiosidade, mas só perde para as novenas de padroeira em termos de “público fiel”. Pequenos clubes esportivos resistem ao tempo e às carências. É quase uma regra o alistamento de jovens nos times. O esporte comunitário é tão amado que tem atleta que começou no futebol “amador”, migrou para o profissional e continua no mesmo time de base, onde começou e não parece terminar

Escrito por Melquiades Junior às 00h36
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Educação é condição para jogar

Garotos treinam na comunidade de Bom Nome (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Depois de aprender a andar e antes mesmo de saber pedalar, os jovens das comunidades interioranas já chutam para o gol nas quadras ou qualquer terreiro que tenha espaço para duas “travinhas” (para o jogo sem goleiro). Quem gosta da coisa, cresce com ela e acaba transformando em condição de vida, em profissão. Quando “passou da idade”, pendura as chuteiras, mas não a disposição pelo esporte. Forma escolinhas de futebol, vôlei, e junta uma moçada cheia de saúde.

De quebra, dá lições de vida e disciplina, tirando jovens da ociosidade e, mantendo a prática nas próprias comunidades, ajuda a perpetuar o que, depois das missas e cultos, é o maior instrumento de união entre as comunidades do Interior.

Futebol é coisa séria, tanto que virou uma saudável moeda de troca. Quem tira notas boas e é bem comportado no colégio tem direito a participar da escolinha de futebol de Antônio Nilo, vigilante da Câmara Municipal da cidade de Limoeiro do Norte e, nas outras horas, treinador de futebol de, aproximadamente, 90 garotos da comunidade de Bom Nome e adjacências, Vale do Jaguaribe.

Divididos em diferentes times, dependendo da idade e da respectiva categoria, a meninada entre dez e 14 anos já conquistou títulos jogando em outras comunidades limoeirenses e outras cidades do Vale do Jaguaribe. Nilo não pretende profissionalizar todos os meninos, “mas o que eu puder fazer para eles terem uma melhor formação como cidadãos eu farei. Quero que eles tenham a oportunidade que eu não tive”.
Desempenho escolar

Os meninos entendem bem o recado: “se não derem exemplo no colégio não participam da escolinha”. O próprio treinador visita as escolas para conferir o desempenho dos atletas.

O resultado do “jogo” termina com aprovação escolar no fim do ano e a procura de professores e diretores escolares pela escolinha comunitária, para tratar os garotos “mais rebeldes”. Antônio Nilo está com o projeto “Escolinha de Futebol nas Escolas”, para apresentar às autoridades municipais e intensificar a prática esportiva no horário escolar.

Foi direcionando sua energia que o atleta Denílson Gregório e seus dois irmãos participaram de escolinhas de futebol e das copas comunitárias. Eles começaram nos times amadores das comunidades locais.

Profissionalizaram-se no Limoeiro Futebol Clube, pelo qual disputam o Campeonato Cearense, e já representaram o Ceará no Campeonato Brasileiro. Nem por isso largaram os times de base onde começaram.

Na última sexta-feira, Denílson jogava pelo KLC, no Campeonato de Futsal de Barreiras, em Quixeré. Dois dias antes disputava uma final pelo Agenor, em Limoeiro do Norte. Com a construção das quadras de cimento nas comunidades rurais, o Futebol de Salão (Futsal) é o mais praticado.

O futebol de base é mesmo trampolim. Da comunidade de Córrego de Areia, o atleta Daniel Oliveira, do time Beira-Rio, foi parar no Mato Grosso. Já o goleiro Gerlânio Braúna no Rio Grande do Sul, e o jogador Igor Sucupira, da comunidade Sítio Sucupira, foi jogar pelo Flamengo, no Rio de Janeiro. Atualmente atua no Fortaleza.
Valorização

Futebol se aprende jogando, mas para se apaixonar é preciso apenas, de alguma forma, participar. Com o gravador na mão e perguntas na ponta da língua, o radialista esportivo Cléber Saraiva faz o que gosta há mais de 15 anos: matérias esportivas.

O jogo pode ser grande ou pequeno, importante ou amistoso, mas Társio Silva, Wank Pitombeira e Paulo Noronha também estão onde eles acontecem, de papel e caneta na mão, anotando o acontecimento esportivo para depois verbalizar nas ondas do rádio. Se não fosse pela visibilidade dada pela imprensa, acredita-se que o esporte comunitário seria menos valorizado ainda

Escrito por Melquiades Junior às 00h31
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Torcida puxa o time

Torcida Uniformizada do Agenor Emplacamentos (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

“Chuta no gol, jumento”. A “sugestão” ao jogador em quadra vem da aposentada Margarida Tavares, deste município, assídua torcedora do Agenor, time de Limoeiro que leva o nome do comércio e comerciante que patrocina – “Agenor Emplacamentos”. A emoção era geral na final da Copa de Futsal da Lagoa das Carnaúbas, na semana passada, em Limoeiro do Norte. Famílias inteiras participam da festa esportiva. Era Agenor contra União Jovem, do município de Quixeré. A decisão favorável ao União demorou e só teve fim nos pênaltis.

Nas quadras comunitárias não existe arquibancada, só uma bancada comprida de cimento. Quem chega primeiro consegue ver tudo de perto, mas também tem a chance de levar uma forte bolada ou esbarrada do jogador sem freio que sair de quadra. Isso porque quadra e banco distam apenas um metro. Mas nada disso afasta a torcida.

Quando o jogo começa, é dada a largada para a gritaria feminina – curiosamente, nos jogos comunitários predominam as mulheres. A vendedora Socorro só vendia din-din (sorvete caseiro em saquinho) no pé da quadra, tão atenta que estava ao jogo. Quem quisesse comprar, que fosse até ela.

Vendas

Ainda assim, mal começava o segundo tempo e “já vendi tudo”. Outro vendedor saiu tão apressado que não pôde ter o nome anotado. Entrou na quadra para tomar satisfação com o juiz. Não havia violência, somente risada e a expulsão de quadra do ‘jogador a mais’. “Você não tá jogando não, macho”, bem lembrou o soldado PM, retirando o torcedor incoveniente do local.

O time da casa, “Agenor”, perdeu a final e ficou com o vice-campeonato, mas teve o apoio da torcida uniformizada, que depois de muita dúvida recebeu o nome mesmo de Torcida Uniformizada.

Feminina

Vale destacar que a torcida era feminina, pois formada por 50 mulheres, normalmente prima, esposa, cunhada, mãe ou filha de algum jogador. “Vamo fazer gol, vamo fazer gol”, grita uma torcedora. “Vai, meu filho”, grita outra mãe torcedora, a dona-de-casa, Maria de Fátima, mãe do volante Marcelo Freitas.

Arbitragem

Quem já ouviu de tudo foi o árbitro. A proximidade do torcedor dá mais clareza e indignação aos xingamentos. “Mas a gente não pode ligar, faz parte do futebol”, comenta Luciano Silva, policial militar e juiz de futebol com direito a carteirinha da Federação Cearense de Árbitros. Luciano destaca o bom nível do futebol nas comunidades e a organização das atividades esportivas.

Embora seguindo as regras, fim de campeonato é quase um vale-tudo para o torcedor. Depois de jogo normal e prorrogação, quem disse que se agüenta do lado de fora para acompanhar os pênaltis?

´É campeão!´

A torcida vai para o meio da quadra, tão perto do jogador que dá uma tapinha nas costas antes de este chutar para o gol. Ao final, é todo mundo (os vencedores, óbvio) pulando com garrafas de água, refrigerante ou cachaça no meio da quadra. O grito agora é: “É campeão!”.

Escrito por Melquiades Junior às 00h28
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Tradição é mantida pelas associações

Campeonato na comunidade de Lagoa das Carnaúbas (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

A Tradição dos times de base é mantida graças às associações comunitárias. É por meio delas que as equipes esportivas recebem apoio financeiro de prefeituras e empresários locais.

“Mas não é fácil manter um time e organizar um campeonato. A gente faz mais mesmo porque gosta, é uma tradição e um amor da comunidade”, explica Tácito Mendes, servidor público e um dos organizadores da Copa de Futsal da Lagoa das Carnaúbas, zona rural de Limoeiro. E um time tradicional que já dura mais de meio século é o Palmeiras, da comunidade de Arraial.

São 53 anos com várias gerações de famílias locais revezando-se entre a torcida e o campo de futebol. É o caso de Messias Ladslaw de Sousa, há mais de 20 anos participando do Palmeiras. Foi jogador, treinador, presidente, e hoje configura como um “paizão” da moçada desportista.

Esporte e religião

A participação de toda a família nas associações e times comunitários é possível pela inclusão gerada nestas associações, que normalmente congregam não somente as práticas esportivas, mas religiosas, na realização das novenas da padroeira, e festivas, como as festas juninas. Ainda assim, tem que ter muita ginga para driblar as carências financeiras, o que puxa cada vez mais para baixo os orçamentos já minguados dos times.

Não se realiza um campeonato com menos de R$ 3 mil. Baixo se comparado à realidade de grandes clubes, mas um número significativo na realidade de amantes do esporte que se sustentam da agricultura, do comércio simples ou do serviço público.

Agrado maior

Um time, montado apenas para a temporada, custa em torno e R$ 300 por partida. “Tem gente que joga pra gente por amizade e não cobra nada, para outros a gente paga a cachacinha no final da partida e fica por isso, mas tem uns de maior nível, que vem de fora da comunidade, daí a gente tem que dar um agrado maior”, comenta Agenor Nogueira.

O goleiro Cláudio Márcio consegue apurar um bom trocado nos períodos de campeonatos comunitários. Só neste ano ele participa de copas de futebol de salão defendendo por cinco times nas comunidades. Na última terça-feira sagrou-se campeão pelo União Jovem, de Quixeré. Dois dias depois vencia pelo KLC em outro campeonato. “Eu jogo desde criança, e sempre que posso estou defendendo os times. Sempre me identifiquei com o esporte, e nas comunidades a gente faz muitos amigos. É o ano todo assim”, comenta o goleiro, que nas outras horas é vocalista de banda de forró.

Escrito por Melquiades Junior às 00h23
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