
Garotos treinam na comunidade de Bom Nome (Texto e foto: Melquíades Júnior)
Depois de aprender a andar e antes mesmo de saber pedalar, os jovens das comunidades interioranas já chutam para o gol nas quadras ou qualquer terreiro que tenha espaço para duas “travinhas” (para o jogo sem goleiro). Quem gosta da coisa, cresce com ela e acaba transformando em condição de vida, em profissão. Quando “passou da idade”, pendura as chuteiras, mas não a disposição pelo esporte. Forma escolinhas de futebol, vôlei, e junta uma moçada cheia de saúde.
De quebra, dá lições de vida e disciplina, tirando jovens da ociosidade e, mantendo a prática nas próprias comunidades, ajuda a perpetuar o que, depois das missas e cultos, é o maior instrumento de união entre as comunidades do Interior.
Futebol é coisa séria, tanto que virou uma saudável moeda de troca. Quem tira notas boas e é bem comportado no colégio tem direito a participar da escolinha de futebol de Antônio Nilo, vigilante da Câmara Municipal da cidade de Limoeiro do Norte e, nas outras horas, treinador de futebol de, aproximadamente, 90 garotos da comunidade de Bom Nome e adjacências, Vale do Jaguaribe.
Divididos em diferentes times, dependendo da idade e da respectiva categoria, a meninada entre dez e 14 anos já conquistou títulos jogando em outras comunidades limoeirenses e outras cidades do Vale do Jaguaribe. Nilo não pretende profissionalizar todos os meninos, “mas o que eu puder fazer para eles terem uma melhor formação como cidadãos eu farei. Quero que eles tenham a oportunidade que eu não tive”.
Desempenho escolar
Os meninos entendem bem o recado: “se não derem exemplo no colégio não participam da escolinha”. O próprio treinador visita as escolas para conferir o desempenho dos atletas.
O resultado do “jogo” termina com aprovação escolar no fim do ano e a procura de professores e diretores escolares pela escolinha comunitária, para tratar os garotos “mais rebeldes”. Antônio Nilo está com o projeto “Escolinha de Futebol nas Escolas”, para apresentar às autoridades municipais e intensificar a prática esportiva no horário escolar.
Foi direcionando sua energia que o atleta Denílson Gregório e seus dois irmãos participaram de escolinhas de futebol e das copas comunitárias. Eles começaram nos times amadores das comunidades locais.
Profissionalizaram-se no Limoeiro Futebol Clube, pelo qual disputam o Campeonato Cearense, e já representaram o Ceará no Campeonato Brasileiro. Nem por isso largaram os times de base onde começaram.
Na última sexta-feira, Denílson jogava pelo KLC, no Campeonato de Futsal de Barreiras, em Quixeré. Dois dias antes disputava uma final pelo Agenor, em Limoeiro do Norte. Com a construção das quadras de cimento nas comunidades rurais, o Futebol de Salão (Futsal) é o mais praticado.
O futebol de base é mesmo trampolim. Da comunidade de Córrego de Areia, o atleta Daniel Oliveira, do time Beira-Rio, foi parar no Mato Grosso. Já o goleiro Gerlânio Braúna no Rio Grande do Sul, e o jogador Igor Sucupira, da comunidade Sítio Sucupira, foi jogar pelo Flamengo, no Rio de Janeiro. Atualmente atua no Fortaleza.
Valorização
Futebol se aprende jogando, mas para se apaixonar é preciso apenas, de alguma forma, participar. Com o gravador na mão e perguntas na ponta da língua, o radialista esportivo Cléber Saraiva faz o que gosta há mais de 15 anos: matérias esportivas.
O jogo pode ser grande ou pequeno, importante ou amistoso, mas Társio Silva, Wank Pitombeira e Paulo Noronha também estão onde eles acontecem, de papel e caneta na mão, anotando o acontecimento esportivo para depois verbalizar nas ondas do rádio. Se não fosse pela visibilidade dada pela imprensa, acredita-se que o esporte comunitário seria menos valorizado ainda