Blog do Mel - Entre e acomode-se


30/10/2007


Sorria pra vida

Dona Francisca e alguns de seus 12 filhos

 

Poucas vezes foi possível chegar de pára-quedas numa matéria, feito “simpático” desconhecido, sem ter que fazer muitos rodeios para ser entendido o porquê de estar ali como foi a visita a dona Francisca Maria da Conceição, que me recebeu em sua casinha de taipa na hora do cochilo depois do almoço. Balançava-se na rede segura nos dois troncos principais de carnaúba que dão sustentação ao barro da casa. As crianças brincavam no chão de argila. Para minha não-surpresa, tem 12 filhos, é viúva, está desempregada e ainda tem que tomar de conta dos filhos dos filhos. Queria saber que finalidade tinha seu Bolsa Família.

Quando me perguntam como agüento a correria diária de quem não trabalha só como repórter, viaja quase todo dia, como muita gente trabalhando até altíssimas horas, preocupado com as aulas, com não perder aquele furo ou com ter alguma grande idéia para um grande texto, que muitas vezes não vem, digo que não sei como faço, ou sei: tem muita vez que sorrio, e isso me alimenta. E não tive mais dúvida quando vi o sorriso brilhoso de dona Francisca. Sorria, ria de ficar com os olhos entreabertos.

Na panela, restos de feijão, farinha e ovo, que a tropa de estômagos mirins já havia devorado. “Menino, como é que no meio de tanta gente você vem logo atrás de mim?”. Ela indaga mas não acha ruim. Muito menos eu.

“Vá desculpando a bagunça”. Já estava desculpada. O menino que vi, Pedrinho, todo sujo de terra, saía da rede para o chão, voltava para a rede, pegava a bacia, colher, levava mais uns grãos restantes de feijão à boca, ia à porta. “Pedrinho, se aquieta pro rapaz bater o retrato”. As outras eram meninas, uma com o caderno na mão, outra brincava com a própria chupeta, e a mais nova não se aquietava no colo da avó. “Tomara que a mãe venha buscar esse entulho”. E vira pra menina com um sorriso manhoso, para depois dar um cheiro no cangote.

Morando na comunidade Cabeça Preta, em cima na Chapada do Apodi, curiosamente o chão mais valio$o de Limoeiro do Norte – onde instalam-se milionárias multinacionais do agronegócio e que não estão nem aí para os deserdados das terras-, Dona Francisca era um pinga-pinga só. Morava no sopé da chapada, depois subiu fazia alguns meses e morava “lá na frente, depois daquela droba, aí vim pra esse barraco, enquanto minha filha constrói a casa dela”. A filha é casada, o marido é desempregado, a avó fica de babá e, quando se vê, o dinheiro do Bolsa Família ajuda a alimentar 15 bocas. Recebe R$ 112 de benefício social, que neste mês completa quatro anos. “Ave-Maria, o pouco que a gente ganha ajuda muito, Deus me livre se não fosse isso”.

“Quando é que sai no jornal?”. “Amanhã”, digo. “E hoje é meu aniversário” – ela. “Que legal! Pois meus parabéns, Dona Francisca!”. Meio dia e a senhora recebia os primeiros parabéns pelos 55 anos. Não passei mais que 15 minutos em sua casa, mas nos cinco ou seis segundos que nos olhamos sem dar qualquer palavra, eu vendo aqueles olhos brilhando de alguma felicidade, pude sentir a intensidade daquele momento, e a importância que aquela mulher dava à visita, ao meu aperto de mão. E pensei nos seus olhos, que marejavam para o vazio. Saí contagiado de alguma esperança de não sei o quê. O aniversário era dela, e eu parecia ganhar um presente. E sorria.

Escrito por Melquiades Junior às 22h18
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