Blog do Mel - Entre e acomode-se


01/09/2007


Transfiguração "POPular"

Lirinha, vocalista do Cordel do Fogo Encantado (foto: Davi Pinheiro)

Melquíades Júnior

A voz do povo é a da diversidade. E se nenhum povo é igual e “cultura popular” é muito mais do que os rótulos que lhe apregoam, está decretado o direito de reinventar o “popular” sempre que a espontaneidade bater à porta. Essa é a receita no reisado da Mestra Gerta, da Caninha Verde do Mucuripe, ou no Cordel do Fogo Encantado, “de Pernambuco para o mundo”. No III Encontro Mestres do Mundo, a comunidade espectadora experimenta - mesmo muitas vezes sem entender - outras faces de nordestinidade. Lentamente reconstrói os significados do “popular”, que este não é imutável, mas universal, antigo, moderno e contemporâneo. Ao final, máscaras caem, rótulos desenrolam-se e amplia-se em vivencias “pop” a cultura popular.

Depois que inventaram que o nordeste é só de seca, sol, terra de cangaceiro (ontem), pistoleiro (hoje), e sua cultura é “só” o reisado, a poesia de rima popular, música para ciranda de roda dos nossos avós – com todo respeito, tudo que não se encaixe em algum desses rótulos provavelmente sofrerá a dúvida do outro quanto à sua identidade. Pois quando os rapazes do Cordel do Fogo Encantado subiram ao palco, muitos espectadores cantaram com vibração, mas muitos outros reagiram com estupefação: “esse povo é doido, isso não tem nada de cultura popular, falaram em cordel eu pensei que era em ritmo de cantoria”, afirmou uma “curiosa” participante do Encontro dos Mestres.

“Depois que historicamente foi criado o rótulo sobre o qual foram se evidenciando as manifestações folclóricas nordestinas, o que pareça diferente daquilo não tem o crédito ou tem, depois de muita resistência, de que também se trata de uma manifestação popular nordestina, e é justamente os rótulos de ‘merda’ que pretendemos desconstruir, somos jovens com a mesma sede de expressão de jovens de qualquer parte do mundo”, desabafa Paes de Lira (voz e pandeiro), do Cordel do fogo encantado, de Pernambuco, que neste ano comemora 10 anos de formação. O grupo nasceu do teatro, ganhou ares circenses e com isso ganhou o mundo. O primeiro disco foi Cordel do Fogo Encantado (2001), seguido de “O Palhaço do Circo sem Futuro”(2003). Até aí muito mais teatro misturado à dinâmica sonora de voz, violão, pandeiro e percussão, até que veio o terceiro disco – Transfiguração (2006) -, que seguiu o caminho inverso dos outros e começou no estúdio, “para mostrar que não somos somente pesquisadores da cultura popular, mas principalmente um grupo musical”.

“Cordel...” é uma banda musical nordestina de raiz, embora as canções de letras modernas, mas que carregam a mesma “atitude” de um Patativa: “Juntem as forças pra seguir nessa jornada/Busquem as forças pra lutar na sua própria batalha/A poeira subiu de ambos os lados/Arames farpados olhos e punhos fechados cerrados/A face marcada pela mesma vida seca como a terra rachada/Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma/O verdadeiro terror mais sufocante que o calor/Essa é a sua jaula/Os desertos se encontram de várias formas/Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas/Que produzem gente morta em escala industrial.”

“Não importa se é do campo, da cidade, fácil ou difícil de compreender, se tiver de mudar alguma coisa pra ficar melhor, desde que não seja nada forçado, por que não fazer?”, explica Mestre Gerta, da Caninha Verde do Mucuripe, dança folclórica que herdou de sua mãe, passa para filhos, netos e bisnetos, deixando claro que algumas coisas já foram transformadas no grupo pela transmissão de saberes.

A mestre Dina, vaqueira de Canindé, não é nenhum pouco chegada ao rock’n’roll, mas no Encontro Mestres do Mundo dançou da primeira à última música cantada por Khalil Gibran, este que fazia uma homenagem a grandes figurões da poesia e da música nordestina como Patativa do Assaré e Messias Holanda, entoando de “Meu limão/ Meu limoeiro/ Meu pé de Jacarandá...” a “Eu quero me trepar/ num pé de coco...”. Com arranjos criativos, porque ousados, o músico metaliza o folclórico e, ao mesmo tempo, colabora para a desconstrução do hermetismo, ou melhor, preconceito do “ser popular”. 

Escrito por Melquiades Junior às 14h03
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Mãos que pensam e choram

 

Lúcia Pequeno e suas mãos "limpas" de barro

Melquíades Júnior

Artesãos são valorizados no III Encontro dos Mestres do Mundo. Mas o modo de vida dos mestres ainda é tão rústico quanto a matéria prima de seus trabalhos. Lúcia Pequeno, de Limoeiro, tem suas finas louças de barro exportadas para o mundo, mas sofre de dores na mão. Para ter uma consulta médica, “sem poder” tem que tirar do bolso raso. Ministério da Cultura diz que as carências dos mestres serão levantadas pelo Sistema Nacional de Cultura, um pacto federativo a ser criado no ano que vem.

Mãos que pensam, falam, choram. Mãos calejadas, mãos talentosas. A natureza fornece a terra, que alimenta a planta, cujas fibras alimentam a criatividade da artesã, que se alimenta – e aos outros – do que faz. E de uma costela do tronco da árvore nasce uma imagem de santa. No encontro dos mestres, artesãos trocam experiências e “receitas” de arte. Tem o barro da família pequeno, arranjos florais com fibras de coco das ‘Marias’ paraibanas, os encouraçados de Expedito Seleiro e as esculturas de madeira das irmãs Diniz. Com um caderninho na mão, a mestre Edna dos Santos escreve a receitinha do “pirulito de mel” para a interessada menina Tamires, em plena na roda dos mestres.

Santo Antônio - com criança nos braços e tudo - está por R$ 300 reais na barraca das irmãs Diniz, em Limoeiro, direto da Paraíba. Custa mais que uma imagem sacra de gesso, é verdade, “mas em compensação dura uma eternidade e é bonito de se ver”, ressalta Lourdes Diniz, santeira do distrito de Lagoa Seca, na Paraíba. Sem falar na trabalheira – uma imagem sacra de meio metro leva mais de uma semana para ficar pronta. Mestre Lourdes, 65, veio com a irmã, Salete Diniz, “pois é a família que trabalha esculpindo na madeira, já faz 40 anos que estamos com a mão na massa, sem contar o tempo de criança em que observava a mãe fazendo, mas ela não deixava pegar na faca, pra não se cortar”, completa.“É nesses eventos que a gente mais apura”. Produzem até 125 peças por mês.

E a mão vigorosa das santeiras contrasta com as mãos delicadas de quem faz brotar uma flor – assim como jarros, bonecos e vasilhames - de um emaranhado de finas fibras da palha do coqueiro. Um inigualável jarro de fibras cheio de rosas custa pouco mais de cem reais e muito mais que dois dias de trabalho suado tecendo fio por fio. O talento é cuidadoso, nem o curioso vê onde começa ou termina a fiação na peça das artesãs, que entendem de madeira, mas conferiram a oficina de barro das louceiras.

Lúcia Pequeno, a primeira das mestres das mãos contempladas pelo projeto Mestres da Cultura, comemora a venda de suas peças para os Estados Unidos. “É um americano, que tá vindo na minha casa comprar diretamente da gente” – das irmãs Pequeno; “ele paga melhor e mais rápido que a Ceart”. O barro da Lúcia vem do chão, mas não é todo chão que serve. “O barro melhorzinho está todo sendo cercado, que tão construindo umas casas lá no Córrego de Areia, e se o barro não é bom a peça ‘papoca’ toda e tem que ser jogada”, lamenta. Mas se tem uma coisa que a gente luta há muito tempo e não conseguiu nada de político nenhum é uma coberta para a fornalha da louça. Quando é período de chuva, perdemos todas as peças de barro que vão pro fogo, é um prejuízo medonho”, conta Mestre Lúcia.

E como se não bastasse, a louceira faz o mesmo desabafo dos outros anos: doem as costas e, principalmente, as mãos. “Tenho dia de não poder trabalhar. O médico disse que tenho um 'cisto' na mão, devido os movimento repetido, num sabe? Mas não voltei mais pra ele”, comenta a artesã, que precisa tirar do próprio bolso para cuidar da saúde das mãos.

“Isso é uma vergonha. As entidades devem trabalhar em parceria, secretarias de saúde, de Ciência e Tecnologia, vários órgãos, e não só a cultura, devem se envolver com os mestres”, afirma a pesquisadora Dodora Guimarães. Para Geraldo Vítor, analista de projetos do Ministério da Cultura, essas questões serão levantadas pelo Sistema Nacional de Cultura, a ser implantado até o final do ano. “Por meio dele, os estados e municípios devem assinar um pacto de cooperação e unir diversas entidades na valorização da cultura”, explica.

Maria de Lourdes, da Paraíba, faz arte com fibras de coqueiro

Escrito por Melquiades Junior às 14h02
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Encontro de ‘solitários’

 

Roda dos Mestres do Sagrado - Troca de saberes no Encontro Mestres do Mundo (foto: Davi Pinheiro)

Apesar do intercâmbio de cultura na troca dos saberes populares de vários recantos do país em Limoeiro do Norte, mestres reclamam que o reconhecimento é mais “oficial”, político, de “cima para baixo”, mas nem sempre a própria comunidade está envolvida no reconhecimento da arte de um seu representante além do “estrelato” gerado pelo evento. Nesse “encontro de solitários”, muitas vezes reconhecimento e manutenção da tradição e políticas públicas de promoção cultural andam juntos.

 

Melquíades Júnior

No Ceará ou Bahia, Brasil ou qualquer outro canto do mundo, ser mestre da cultura tem lá todas as vantagens, mas se elogio não enche barriga, ser conhecido mestre dos saberes não é sinônimo de reconhecimento de sua arte pelas camadas da sociedade, nem mesmo aquela que gerou o mestre. Apesar da valoração midiática e política, com homenagens públicas encomendadas por prefeitos, vereadores e mesmo produtores culturais, muitos mantenedores dos saberes tradicionais são alegres por natureza, mas a tristeza bate quando o assunto é “e amanhã, quem é que faz?”.

Quando sobem no Palco Mestre ou Palco dos Brincantes (tablado), os mestres da cultura apresentam-se para os visitantes; mas quando estão cara a cara, nas rodas improvisadas entre quatro paredes, rola a troca de saberes – e luta. Daí todo mestre é aprendiz. Divididos nas categorias de mãos, corpo, sagrado, sabores, oralidade e sons, as rodas vivas ficam quadradas de tanta gente que precisa caber. Mas a lotação é comum nas salas em que os mestres cantam e/ou dançam. Na roda das mãos, que reúne as artesãs falando de seu trabalho quase não há curioso, “porque é muito chato ficar só ouvindo falar de como trabalham com o barro, bom é quem toca alguma coisa”, comenta a estudante adolescente Lucinda Sousa.

A “preguiça” também é sentida nas comunidades dos mestres. A louceira Lúcia Pequeno, artesã do barro de Limoeiro, trabalha no mesmo ramo com toda a família. Suas peças já foram levadas para o exterior e exibida em exposições de arte, “mas as pessoas só querem pagar uma ‘mixaria’ pelo nosso trabalho. Acham bonito e tudo, mas qual é o valor?”, indaga a artesã. Na comunidade de Córrego de Areia, onde mora a família Pequeno, difícil é encontrar “mãos novas” que queiram seguir a arte. Se é pelo pouco tempo de existência do projeto Mestres do Mundo, agora Tesouros Vivos, a transmissão do saber para as outras gerações - além do que já fazem os mestres – é uma lacuna a ser resolvida.

“Dificuldade existe de tudo que é jeito, mas quando a gente vem com uma missão para fazer não tem jeito; com sofrimento, mas faz”, comenta dona Odete Martins, mestre da medicina popular de Canindé, que, “sem poder” fabricou até pequenas cartilhas datilografadas para espalhar suas receitas médicas naturais. “A própria comunidade sergipana não conhece o nosso trabalho”, confessa a mestre da cultura Maurelina Santos, natural de Sergipe e que “dança de tudo”, afirma categórica e empolgadamente.

“O que botar eu danço, pode ser langa, samba de coco, samba de pareia, taieira, parafuso, guerreiro, reisado, são 21 anos desenvolvendo esse trabalho de manter a nossa cultura, ensino à juventude da capital nossas danças, mas até mesmo nas comunidades onde isso nasce é difícil ver acontecer”, lamenta Mestra Maurelina, que trabalha no “Centro de Criatividade”, da Secretaria de Cultura de Sergipe. Na edição de ontem, a dramista mestre da cultura Terezinha Lima, então tesouro vivo da cultura disse que depois de sair nos jornais até o prefeito municipal ofereceu ajuda. Mal começou o terceiro encontro, mas o medo dos mestres é que já “cesse a euforia”, acabe o evento e o vento leve o apoio, a admiração e reconhecimento conquistado pelo menos até agora.

 

SAIBA MAIS

Aprovados no edital dos Mestres da Cultuar 2006/2007, agora chamados “Tesouros Vivos” – segundo a Secult para poder contemplar não só pessoas, mas grupos culturais nos próximos editais. São eles: Teresinha Lima dos Santos (dramista- Beberibe), Silvano Veras Dávila (luthier de rabeca – Irauçuba); Maria do Horto (cantora de benditos – Juazeiro do Norte); Maria de Castro Firmeza (bordados e culinária – Fortaleza); Maria Assunção Gonçalves (renda e culinária – Juazeiro do Norte); Moisés Cardoso dos Santos (dança do coco – Trairi); Vicente Chagas (reisado de caretas – guaramiranga); Sebastião Cosmo (reisado de congo – Juazeiro do Norte); João Lucas Evangelista (sineiro – Canindé) e Maria Odete Martins Uchoa (medicina popular – Canindé).

Escrito por Melquiades Junior às 13h56
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Agora “Tesouros Vivos”, mestres dos saberes se reencontram

 

Terezinha Lima, dramista de Beberibe é um dos

12 novos mestres (Foto: Davi Pinheiro)

Melquíades Júnior

Limoeiro do Norte. A festa começou e “eu ainda to tentando acordar, tá difícil acreditar que com tanto tempo iam me reconhecer de alguma coisa”, afirma Dona Teresinha Lima, 65 anos, nova Mestra da Cultura, ou melhor, mais um "Tesouro Vivo do Ceará", participando pela primeira vez do Encontro Mestres do Mundo.  A titulação “Tesouro Vivo” é algo novo que ainda inquieta alguns novos mestres. “E quando eu morrer, como é que chama?”, diz dona Teresinha, para depois contornar com uma boa risada. Os “tesouros vivos” foram contemplados ontem, na primeira noite dos Mestres do Mundo. Mas a existência de eventos paralelos, mas simultâneos, na região jaguaribana tem dificultado a hospedagem de participantes do Encontro, que começa “pra valer” na manhã de hoje.

O “Tesouro Vivo” ainda gera um estranhamento entre os próprios mestres (que continuarão a ser chamados mestres), mas a retirada da titulação Mestres do Mundo ocorreu para contemplar essa vez não somente pessoas, mas grupos. E de norte a sul do Ceará já existe uma fila de grupos candidatos a “Tesouro”, tornando mais concorrida a já criteriosa lista de mestres em potencial.

O salário que dona Teresinha - do Drama de Beberibe - receberá de auxílio se junta à recente pensão do marido recém-falecido. A família vive da agricultura. Os dramas, reisados e pastoril do litoral de Beberibe sobrevivem graças a ume pequena leva de gente feito dona Terezinha e “ah, é a parentada toda” – Há quase 60 anos as mesmas famílias cultivam as histórias dos Dramas. Retratam desde os dramas rurais das histórias da comunidades às interpretações cênicas da índia Iracema, de José de Alencar. Agora é deles, porque a Iracema dança danada ao baticum da banda musical que acompanha as dramistas. E detalhe: homem não pode participar da encenação. Mas porque, dona Teresinha? “Ah, é uma tradição, tem homem que quer participar, mas o pessoal já começa a falar que passou ‘pro outro lado’...”.

Os dramas de lá começaram na década de 30 com dona Maria Otília, da comunidade de Tanques – são seis comunidades de Beberibe que mantêm a tradição. Das apresentações participam cerca de 20 dramistas. Ingresso é cobrado, “e não falta quem vá. Meu filho, naquele tempo não tinha novela, nem televisão tinha, então os dramas quem fazia éramos nós mesmos”. Junte drama, papangus, calungueiros e as comunidades entre sertão e litoral de beberibe e metade das famílias de lá tem algum “culpado” pela manutenção dessas tradições.

Dona Terezinha é a segunda dramista contemplada pelo Edital dos Mestres da Cultura Tradicional Popular (hoje do “Tesouro Vivo”), da Secult – a primeira foi Dona Zilda, de Guaramiranga. As coisas ficaram menos dramáticas para as bandas onde mora a senhora. A recém-contemplada conta que depois que noticiaram no jornal que seria um Tesouro Vivo “melhorou foi muito” o apoio ao trabalho que carrega há mais de 30 anos. “Até o prefeito agora apóia a gente, disponibiliza o carro para quando tiver apresentação”. Mas vestimentas da encenação continua da boa vontade de quem já participa arranjar.

O clima de ontem era de chegada, encontros e reencontros. Para dona Margarida Guerreira, mestre desde 2005, "é bom pra rever gente boa". Ela pausa a entrevista: “Quando as águas do mar secar/ eu vou passear/ mais meu bem querer...”. Ela não volta, só canta, canta... De repente, forma-se uma pequena roda contemplativa. São mestres de todo canto no canto da mesa, ouvindo a Guerreira. Na mesa, seu novo disco da “União dos Artistas da Mãe de Deus – Reisado e Guerreiro”. Mesmo com a saúde frágil de uma octogenária, dona Margarida Guerreiro não para um só minuto de cantar, conversar e abrir um sorriso inconfundível”.

“Está sendo muito interessante vivenciar isso aqui”, concorda Maria Alice, que não é mestre, mas uma súdita dos artistas de Minas Gerais, sua terra, sempre presente nos mestres do mundo e que possui trabalho comparável ao “pioneirismo” cearense – Há cinco anos a Fundação de Arte de Ouro Preto e a Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais cataloga as expressões vivas da cultura popular mineira “em risco de extinção”. O trabalho reúne oficinas de culinária, folia de reis, Candombe, comemoração ao divino Espírito Santo, etc.. Os artistas também recebem auxílio financeiro, “mas não existe a seleção anual como acontece aqui”, explica Alice. A experiência mineira será válida para a discussão que se inicia nesta quarta  - “As políticas públicas para as culturas populares e a convenção da Diversidade Cultural” será tema de mesa redonda com Américo Córdula e Gisele Dupin, ambos do Ministério da Cultura, e Delânia Azevedo, representando a Secretaria de Cultura do Estado.

Escrito por Melquiades Junior às 13h56
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Novamente encontro dos mestres

Reencontro com a cultura popular

As artes do Sagrado, corpo, oralidade, mãos e sons terão ressonância a partir de hoje, quando diferentes culturas e saberes se reunirão mais uma vez para entender, discutir, e - porque não? - revisar conceitos como sobre o que seja “cultura popular”. É quando pede passagem o III Encontro Internacional Mestres do Mundo, de hoje a dois de setembro, com debates e espetáculos culturais em diversos espaços públicos de Limoeiro do Norte. Mestres da Cultura Popular, intelectuais acadêmicos e populares num mesmo liquidificador. O coquetel de saberes tempera-se, a cada ano, como um dos maiores eventos culturais do Estado.

Polêmicas sobre mestres da cultura à parte, o fato é que no Encontro dos Mestres do Mundo todo candidato a mestre da cultura quer estar. Primeiro porque, se for, é sinal de que foi já escolhido mestre, ou, no mínimo, estará em evidência, não só midiática como aos olheiros despretensiosos da comissão que elege os mestres todos os anos. Mas a importância do evento vai além, segue à risca o significado etimológico/antropológico da palavra “encontro”. A exceção fica para o ano passado, quando o “racha” do evento entre Limoeiro do Norte e Russas, dada por membros da produção como “interferência política”, amornou o caldeirão de cultura popular e resultou num verdadeiro “desencontro” dos mestres.

Um ano depois, tudo volta a acontecer somente em Limoeiro do Norte. A cidade está pronta, estandes estilizados de taipa receberão as louças de barro da Mestre Lúcia Pequeno, as sandálias de couro de Expedito Seleiro (finalmente com a patente de Mestre), e até os remédios naturais de dona Odete, de Canindé; os palcos, tablados e mesas redondas estão armados, prontos para quem quer beber cultura sem qualquer moderação. Para dar o tempero “internacional” do evento, a ‘pluri-instrumentalidade’ musical da Tuna Universitária de Madri, Espanha, e a cantora Isa Pereira, de Cabo Verde, que já é figura carimbada de outros eventos patrocinados pelo Ministério da Cultura no País. Entre o Palco Mestre e Palco dos Brincantes, uma apresentação logo após a outra.

E a melhor roda já inventada pelo homem – a roda do conhecimento – traz temas como identidades indígena e negra, ciganas, a luta dos movimentos sociais e o futuro das políticas públicas do País – em tempo. Nos debates, tem do antropólogo e estudioso do índio Max Maranhão ao “ser índio” por si próprio, de Luís Caboclo, pajé da Etnia Tremembé. Nas apresentações, grupos culturais de diversas regiões do Estado e representações além-Nordeste, como o –“da senzala aos palcos” - famoso Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro, e o Boi-Bumbá de Belém, Pará. E dá até para imaginar o tamanho da ciranda de roda do meio da praça José Osterne quando o cantor Messias Holanda entoar suas inconfundíveis perólas, como “eu quero me trepar no pé de coco...”. A primeira-dama do samba, a carioca Ivone Lara, também marcará presença.

A programação desta terça começa à noite com o tradicional cortejo dos mestres concentrados na Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos até o largo da igreja matriz, esta que chamará a comunidade para a festa da forma mais original – bater dos sinos pelo mestre Getúlio Colares, sineiro de Canindé. No palco principal, a irreverência musical do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, comemorando dez anos de estrada. O último dia, domingo, será fechado com ninguém menos que Antônio Nóbrega. Pelas bandas de Limoeiro, os recantos e praças deverão estar abarrotados de gente. Se igual aos eventos anteriores, com tranqüilidade e muita alegria. Durante uma semana, a cidade cearense será a capital da cultura popular.

 

SERVIÇO: III Encontro Mestres do Mundo – Limoeiro do Norte – CE

De 28 de agosto a 2 de setembro

Fone(88) 3423-3120

(85)3246-9176

Escrito por Melquiades Junior às 13h54
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