
Foto tirada logo após a chegada da "ambulância"
Se tudo na vida é passageiro, Deus que me livre ser transportado numa ambulância. Não só porque isso supõe que eu esteja doente e necessite tratamento, mas que o pior conceito que se pode dar a um transporte é chamá-lo de ambulância. Dia desses, numa viagem dessas na converseira companhia de uma médica, somos interrompidos por um acidente. Não, não o provocamos. É que multidão no meio da BR 116 no meio da noite só poderia ser um acidente.
Eu - repórter, curioso, já pego a câmera fotográfica, na ânsia de cobrir; a médica também sai, pensando que poderia haver vida minguando no asfalto. E acertou. A vítima era uma mulher, talvez um metro e meio, talvez 40 anos, provavelmente muito bêbada, obviamente muito mal. Saia sangue pela boca, nariz. Ela tremia, gemia. A pele era seca, enrugada, cabeluda. Parecia um homem, ou melhor, rapagote. Não tinha nem peito de mulher. E por pouco não teria mais nem coração.
“O coração está parando”, lamenta a médica, com cara de médico decepcionado de ver uma vida escapar de suas mãos. E enquanto o coração da acidentada parava, outro batia fervorosamente, além do meu naquela situação toda, é claro: “Eliaaaane, eu te falei, Elianeee... Se você morrer eu não sei o que fazer”. Eliane era o nome dela, pois o desesperado deveria ser seu marido, este muito embriagado, sentado no chão, ao lado da mulher e da bicicleta em que possivelmente trafegavam. Alguém comentava que pedalavam no meio da pista, feito andarilhos bêbados.
Mal sentimos toda a situação, polícia rodoviária e ambulância aparecem. Foram rápidos, pensei. “Até que enfim, que tava com quase meia hora”, resmungou alguém que já estava no local. O carro que atropelou fugiu, pois não tinha qualquer enlatado amassado num raio de bons metros. Não havia raios-x, mas a experiência médica constatou: “TCE e várias fraturas nos braços e pernas”.
Na ambulância, nenhum médico, nenhum enfermeiro, só o motorista, atordoado. Sem muitos detalhes, o certo é que eu e a médica entramos no tal veículo com a dona Eliane. Ninguém em sã consciência chama aquilo de ambulância. Mais de uma lata quadrada encaixada em quatro rodas. Nada além de um banquinho de ferro para sentar. Da rodovia para o hospital de Horizonte, o mais próximo, a sirene soava, meu coração batucava e o da dona Eliane “só está ajudando na respiração”, disse a profissional firme e forte, pois só assim não iria parar no teto do carro, que chacoalhava a pelo menos
No hospital, o médico de plantão olha. E só olha. Enfermeiras colocam soro, tubo de respiração, levam novamente para a ambulância. “Caiu o ‘negócio’”, disse a “enfermeira”. Até eu sabia que era o cateter do tudo de oxigênio. Sirene ressoa, coração de dona Eliane ainda bate, não se sabe até quando. Levaram para o IJF. Se tiver conseguido chegar lá (caso não tenha morrido ou a ambulância virado), dificilmente terá encontrado vaga em UTI. É quase como se já tivesse morrido na estrada. Mas a esperança é a última que morre, mesmo transportada em ambulância.
Ps.: Uma colisão entre dois veículos acabou na morte de duas pessoas na BR-






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