Blog do Mel - Entre e acomode-se


01/07/2007


Encaixotado na rodovia

Foto tirada logo após a chegada da "ambulância"

Se tudo na vida é passageiro, Deus que me livre ser transportado numa ambulância. Não só porque isso supõe que eu esteja doente e necessite tratamento, mas que o pior conceito que se pode dar a um transporte é chamá-lo de ambulância. Dia desses, numa viagem dessas na converseira companhia de uma médica, somos interrompidos por um acidente. Não, não o provocamos. É que multidão no meio da BR 116 no meio da noite só poderia ser um acidente.

Eu - repórter, curioso, já pego a câmera fotográfica, na ânsia de cobrir; a médica também sai, pensando que poderia haver vida minguando no asfalto. E acertou. A vítima era uma mulher, talvez um metro e meio, talvez 40 anos, provavelmente muito bêbada, obviamente muito mal. Saia sangue pela boca, nariz. Ela tremia, gemia. A pele era seca, enrugada, cabeluda. Parecia um homem, ou melhor, rapagote. Não tinha nem peito de mulher. E por pouco não teria mais nem coração.

“O coração está parando”, lamenta a médica, com cara de médico decepcionado de ver uma vida escapar de suas mãos. E enquanto o coração da acidentada parava, outro batia fervorosamente, além do meu naquela situação toda, é claro: “Eliaaaane, eu te falei, Elianeee... Se você morrer eu não sei o que fazer”. Eliane era o nome dela, pois o desesperado deveria ser seu marido, este muito embriagado, sentado no chão, ao lado da mulher e da bicicleta em que possivelmente trafegavam. Alguém comentava que pedalavam no meio da pista, feito andarilhos bêbados.

Mal sentimos toda a situação, polícia rodoviária e ambulância aparecem. Foram rápidos, pensei. “Até que enfim, que tava com quase meia hora”, resmungou alguém que já estava no local. O carro que atropelou fugiu, pois não tinha qualquer enlatado amassado num raio de bons metros. Não havia raios-x, mas a experiência médica constatou: “TCE e várias fraturas nos braços e pernas”.

Na ambulância, nenhum médico, nenhum enfermeiro, só o motorista, atordoado. Sem muitos detalhes, o certo é que eu e a médica entramos no tal veículo com a dona Eliane. Ninguém em sã consciência chama aquilo de ambulância. Mais de uma lata quadrada encaixada em quatro rodas. Nada além de um banquinho de ferro para sentar. Da rodovia para o hospital de Horizonte, o mais próximo, a sirene soava, meu coração batucava e o da dona Eliane “só está ajudando na respiração”, disse a profissional firme e forte, pois só assim não iria parar no teto do carro, que chacoalhava a pelo menos 140 quilômetros por hora.

No hospital, o médico de plantão olha. E só olha. Enfermeiras colocam soro, tubo de respiração, levam novamente para a ambulância. “Caiu o ‘negócio’”, disse a “enfermeira”. Até eu sabia que era o cateter do tudo de oxigênio. Sirene ressoa, coração de dona Eliane ainda bate, não se sabe até quando. Levaram para o IJF. Se tiver conseguido chegar lá (caso não tenha morrido ou a ambulância virado), dificilmente terá encontrado vaga em UTI. É quase como se já tivesse morrido na estrada. Mas a esperança é a última que morre, mesmo transportada em ambulância.

 

Ps.: Uma colisão entre dois veículos acabou na morte de duas pessoas na BR-116, quilômetro 104,9, localidade de Tapuio, em Chorozinho. O acidente aconteceu por das 3h25 de ontem, quando a ambulância, HWP-1585, de Russas, colidiu com o caminhão Mercedes Benz JYH-6211. Duas mulheres que eram transportadas na ambulância morreram na hora: Maria Luíza Santiago Bezerra, 42; e Maria Luzanira Santos Silva, 43. Corpos foram encaminhados ao IML da Capital. Diário do Nordeste de 1 de julho de 2007.

 

Escrito por Melquiades Junior às 13h29
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Alma popular nos festejos juni-julhinos

Apresentação da quadrilha Cheiro do Sertão no Córrego de Areia

À primeira vista, todo ano, no mesmo período, é o mesmo assunto: Festas Juninas. Mas emoção não se repete ou questiona, apenas se sente. Este sentimento se renova, corre nas veias nordestinas da juventude da periferia à criançada na escola. Assim, todo ano a criatividade sertaneja, mesmo na “selva de pedras” urbana, atua, modifica, incrementa os tradicionais “arraiás”, mostrando que é possível ser moderno sem perder a tradição. Pode até faltar chita no vestido da menina e nem por isso deixar de ser festa junina, se as cores continuarem vivas e, principalmente, alegres. De junho a julho, quadrilhas para competir ou, simplesmente, divertir, arrastam o pé nas quadras e becos do Ceará. Nessa época, o “Prato Feito” tem bolo de milho, pé-de-moleque, tapioca, mungunzá, paçoca e, para a comida descer fácil, caipirinha ou aluá.

Ainda hoje tem quem pergunte por que chamar de festa junina se o festeiro só acaba no mês de julho e já começa mesmo em maio, ou, para os quadrilheiros, a luta começa com o próprio início de ano, de ensaios e “procissão” para arrumar patrocinadores. Os festivais estão aí. Brincantes de quadrilhas grandes e pequenas montam na bicicleta, sobem no pau-de-arara ou em ônibus já bastante “rodado”, fornecido pelas prefeituras (em Limoeiro do Norte havia um ônibus tão velho que o chamavam de “Condenado”), para correr de uma cidade a outra, e já vão cantando, batendo palma, mantendo o pique num “baticum rodoviário”.

“É um negócio que a gente não consegue explicar, eu já tentei sair dessa vários anos, mas não consigo, tá no sangue da gente, é a nossa cultura”, afirma o jovem vendedor, Clayton Lucas, presidente da agremiação “Cheiro do Sertão”, da comunidade de Quixaba, em Limoeiro do Norte, após mais uma apresentação na Associação Beira Rio, localidade de Córrego de Areia. O “Cheiro...” é considerada pequeno, mas o custo de produção chega a quase R$ 15 mil.

Uns só estudam, outros somente trabalham, e pelo menos metade faz as duas coisas. A noite fica para muito ensaio ou apresentação. E quem não arruma namorado entre os brincantes, fica de jejum até o último festival. “Mas é bom, tô brincando pela primeira vez e só estando dentro para sentir a emoção que é estar aqui”, assegura Derlânia Chavier, de 14 anos, da quadrilha “Ousadia”, do município de Quixeré. Depois que se arruma, a garota ajuda no laço da colega. Em quadrilha, todo mundo faz de tudo. A dança fica como terapia, da cultura própria de “fazer tradição”.

Fé e emoção nem somente para Santo Antônio, São Pedro e São João.

Apresentação da quadrilha Ousadia, de Quixeré.

Escrito por Melquiades Junior às 12h46
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