Blog do Mel - Entre e acomode-se


22/04/2007


Um "Rodin" na calçada

Tem uma mulher hospedada, ali, em frente à igreja de Nossa Senhora da Conceição. Mas não é naquele Vip Hotel. Está solitária na calçada da farmácia Bons Amigos. Dona Geralda fuma muito, fede muito. Deve sofre muito também. Pés calejados, está de passagem pela cidade, vinda de Fortaleza, indo para Bahia - ou Rio de Janeiro, citou os dois lugares, mas não quis repetir o que era origem ou destino. Por aquelas bandas, próximo ao patamar da igreja, passa muita gente; e muita gente olha para Dona Geralda, que não olha para ninguém. Aquele "Rodin esculpido na calçada", como diria o poeta Társio Pinheiro, chama a atenção da população desmendigada - que há muito tempo conviveu com o "neguinho cristalino". Minha presença parecia hostil, talvez mais que as centenas de moscas que a rodeavam. E a família? "Deixei pra lá", disse, cheia de rispidez. "Mas amanhã (segunda-feira), vamo embora eu e Deus". Dona Geralda deve agradecer a Ele pela hospedagem, porque por aquelas bandas da igreja matriz de Limoeiro passa muita gente, que olha mas não vê, ou não sente. Talvez mais ríspida, hostil, fedida e solitária do que dona Geralda, que, não fosse minha insistência em fotografá-la, iria embora sem deixar rastros...

Escrito por Melquiades Junior às 10h09
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Bicicletas a todo vapor

A evolução é algo que também se conquista pedalando. Historicamente conhecida como “Cidade das Bicicletas”, Limoeiro do Norte teme que seu título se perca no tempo - com a cidade tragada pelos carros e motos - e busca reafirmar a prática habitual do ciclismo pela população. Tenta mudar o quadro de queda no número de bicicletas, o desrespeito ao ciclista no trânsito e a supervalorização de status causada pelos automóveis.

O município tem cerca de 55 mil habitantes e, dizem, aproximadamente 50 mil bicicletas. É quase uma para cada cidadão. São estimativas, já que não há números oficiais. Mas quem anda uma manhã pelas ruas da cidade vê bicicleta em todo canto, em diversas atividades. Parece uma corrida de São Silvestre desorganizada, toda sob duas rodas. É o publicitário popular Zé de Nêga com seu carrinho de som movido a pedaladas, o vendedor de milho com um isopor na garupa, o rapaz que trabalha para Raimundo Aleijado fretando a compra do freguês, o menino que vai para escola, pai guiando filho na “cadeirinha” pelas ruas passeáveis ou mesmo a idosa senhora pedalando “devagar e sempre”, para “articular os ossos”.

Pedalar é preciso. Se parar, cai mesmo, esclarece a ‘física do equilíbrio’. A engenhoca de mais de 200 anos resiste ao tempo nos espaços rurais e urbanos brasileiros, mas a facilidade na compra de motos e carros, bem como a vida corrida em que o tempo moderno “urge” têm aposentado a movida à propulsão humana de duas rodas. O intenso tráfego de carros e motos leva a banguela, gangorra ou camelo para o acostamento e os riscos de um trânsito em que o motor tem mais vez do que o “perna para quê te quero”.

“É um negócio assim” - tenta explicar uma senhora ciclista, sobre o que estão fazendo com as bicicletas em Limoeiro. “É pra gente juntar todo mundo para pedalar, ter saúde e mostrar que o ciclista tem vez na rua”, assegura dona Rocilda Remígio, de 70 anos. Ela fala do passeio ciclístico realizado todas as quintas-feiras, à noite, pelas ruas principais do Município. Todas as idades e faixas de renda se igualam quando andam de bicicleta.

O passeio é apenas uma das diversas idéias que pretende realizar o “sonhador” Gilmar Chaves, secretário municipal de cultura. Mesmo sem querer ser pai de obra nenhuma, vem do escritor, poeta e historiador a política para o uso da bicicleta. “Para mim, depois da roda, a bicicleta é o segundo maior invento do mundo”, afirma Gilmar, empenhado na criação do Museu da Bicicleta, em Limoeiro do Norte, que pretende ser referência para a América Latina.

ABAIXO, MAIS PEDALADAS

Escrito por Melquiades Junior às 09h37
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Pedalar radical

Falando em saúde, a turma de “bicicross”, jovens entre 12 e 24 anos, faz manobras radicais todas as noites no patamar da Igreja Matriz. “Mas só é ruim porque quando a polícia passa manda a gente sair, daí temos que aproveitar para ‘manobrar’ enquanto ninguém aparece”, confessa o ciclista Vandemberg da Silva, 23 anos, o “Chumbinha”, líder do grupo (de boné). “O que a gente mais precisa é de uma pista, um espaço para poder praticar manobras, e apoio para competir nos campeonatos”.

Escrito por Melquiades Junior às 09h33
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Porque é bom 'até' para a saúde

Há quem tenha vergonha de andar de bicicleta. Conforme Gilmar Chaves, secretário de Cultura de Limoeiro, “ter moto ou carro virou uma condição de status”. Andar de bicicleta (e não de forma esportiva, mas no cotidiano) seria condição de baixa renda. É comum ver jovens, principalmente mulheres, a partir dos 15 anos, andando em motos tipo Honda Biz, de 100 cilindradas.

Andar com cuidado é preocupação do auxiliar de almoxarifado Antônio Gilson. Quase todas as noites, passeia de bicicleta com os dois filhos, o maior na garupa e o mais novo na cadeirinha acoplada ao guidão. “Acho que as pessoas tem deixado mais de passear com os filhos de bicicleta, mais pelos riscos de hoje em dia”.

O passeio ciclístico de todas as quintas-feiras, realizado pelas ruas de Limoeiro, tem como objetivo recriar o hábito de andar de bicicleta em muitas pessoas acostumadas aos automotivos, ou que simplesmente estavam sedentárias, como a ciclista Rocilda Remígio, de 70 anos. “Fazia tempo que eu não passeava de bicicleta, agora vou incentivar todo mundo, porque é bom para a saúde”.

Escrito por Melquiades Junior às 09h24
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Vou fotografando, obrigado

Estava eu enquadrando foto no 'quadro' da bicicleta...

Escrito por Melquiades Junior às 09h16
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"Vou pedalando, obrigada"

... Até que veio a dona da bicicleta, findando expediente de trabalho e pronta para o pedalo até casa

Escrito por Melquiades Junior às 09h14
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Bicicleta 'ganha-pão'

Seu Raimundo "Aleijado", em seu - como disse o amigo Khalil Gibran - mercantil, mas ainda com cheiro de bodega. Há mais de 20 anos a mesma bicicleta fretando a mercadoria até o freguês.

De todo jeito, a bicicleta movimenta a economia do município, seja como o transporte de entrega da encomenda ao freguês, a locomotiva desse freguês ou dos funcionários das lojas, ou, ainda, o ganha-pão do mecânico, “médico de bicicleta”. Mas a instalação de concessionárias de veículos, que oferecem “uma vida” de meses - até cinco anos - para pagar a moto ou carro tem diminuído o tráfego ciclista, cada vez mais arriscado e em desvantagem no espaço com os motorizados. As vendas de “bikes” caíram, o preço aumentou, e ter moto virou uma questão de status.

Mas quem não está preocupado com esse negócio de status é seu Raimundo Aleijado, que ninguém encontra se perguntar por “Raimundo Oliveira”. Tem 71 anos de idade, 50 de bodega e mais de 20 anos com a mesma bicicleta, todos os dias entregando a mercadoria do freguês - do xilito ao vinho. O tempo só substituiu o ciclista, com a idade “avançada” de seu Raimundo dando lugar ao vigor físico do jovem entregador Francisco Vilanildo.

“Aqui era chamado de cidade das bicicletas, mas hoje é cidade das motos. Tá um perigo anda agora. Mas eu continuo com minha bicicleta aqui para fazer as entregas. É muito mais fácil e econômico”, conta Raimundo.

A bicicleta também move, literalmente, o trabalho do publicitário popular Zé de Nêga. Com uma idéia na cabeça e solda na mão, acoplou seu carro de som a uma bicicleta. Com microfone na mão, peruca e um monte de “mungangos” para chamar a atenção faz a propaganda testemunhal de festa, ponto comercial e até velório. “Isso aqui é minha vida, meu ganha pão”.

Escrito por Melquiades Junior às 09h10
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'Vamos a la barragem'

Cento e tantos "pedaleiros" voltando da Barragem. Lá, também estava a 'tia Cleide', minha professora na primeira série... há muuuito tempo.

Escrito por Melquiades Junior às 09h06
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Pedalando lá fora

Tinha um passeio, mas tinha também uma casa sendo construída. O pedreiro perguntou se era gente de fora. "É não", respondi; "é daqui, só lá fora mesmo, pedalando de volta da Barragem das Pedrinhas"

Escrito por Melquiades Junior às 08h59
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