Blog do Mel - Entre e acomode-se


19/03/2007


Professora constrói casa própria sozinha

 

“Viram-na outros levar, firme, sobre a cabeça, uma enorme jarra d'água, que valia três potes, de peso calculado para a força normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara no lugar próprio, a soleira de granito da porta principal da construção da prisão, causando pasmo aos mais valentes operários, (...) Em plena florescência de mocidade e saúde, a extraordinária mulher...”. A descrição é do renomado escritor cearense Domingos Olímpio sobre sua Luzia-Homem, erguendo uma cadeia pública e que dá nome ao maior livro do escritor. Mas em Limoeiro é Lia-Mulher mesmo, operária igualmente dedicada construindo, absolutamente sozinha, sua casa própria.

Eu estava só passando pela Dr. Gaspar, “minha” rua em Limoeiro, quando, mesmo sendo domingo, a minha curiosidade jornalística atiçou. Indaguei-me e interroguei uma mulher que levantava o muro de uma casa, exemplo de força (e aqui menos física e mais moral mesmo).

A professora de música Maria Elizaete Chaves tira os finais de semana para construir, sozinha, a tão sonhada casa própria com dois quartos, sala, cozinha, banheiro, áreas de serviço e lazer, tudo isso em pavimentos térreo e primeiro andar. Antes de mais nada, esclarece que seu trabalho não pode ser visto como uma coisa extraordinária. “É só para verem que a mulher é capaz, cuidadosa, e chega a fazer melhor que o homem”, afirma Elizaete, mais conhecida por “Lia”, enquanto apronta o muro da casa.

O trabalho começou em 2002, “mas construir sozinha e somente dois dias por semana não é fácil”, explica Lia. E não é a primeira casa. “Construí uma e vendi para poder fazer melhor essa daqui”. Música e construção são duas paixões da professora, que, de segunda a sexta, toca a sensibilidade de piano e violão, e no sábado e domingo troca para a rusticidade de tijolo, ferros e argamassa. O trabalho se estende à noite, até onde alcançar a luz do poste logo em frente.

Com 40 anos, “tenho uma saúde de ferro”. O mesmo Lia não pode dizer da mãe, que já tem 80 anos. “Eu trabalhava num colégio, mas agora preciso ficar mais tempo com ela, então ensino particular”. A pedreira tem dedicação e destreza na construção da casa. “Tem homem que só acredita vendo, até um engenheiro veio aqui, elogiou e brincou que queria que trabalhasse para ele”, afirma. A parte inferior já foi toda levantada, faltando apenas o primeiro anda, onde ficarão os quartos e um espaço de lazer para tocar com os amigos. “O muro tô fazendo com os tijolos deitados, demora mais para o calor entrar em casa”.

A cantora Núbia Lafaiaete, amiga de Elizaete, conta que muitas pessoas comentam com preconceito, “dizem que mulher não sabe fazer serviço de homem. Mas quem vê percebe que quase não há argamassa ‘perdida’ no chão, pois ao contrário de muitos pedreiros ela procura não desperdiçar”.

Elizaete é filha de pedreiro, vê a construção mais por paixão do que por necessidade. Quando tem alguma dúvida na construção, consulta “Seu Fernandes”, um antigo mestre de obras. A pedreira solitária pretende terminar a casa no final de 2008, quando chamará os amigos para comemorarem a construção e a comprovação de que não existe trabalho para mulher ou para homem, existe trabalho humano.

Escrito por Melquiades Junior às 16h41
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, Homem, de 20 a 25 anos, English, Spanish, Arte e cultura, Livros
MSN -

Histórico

Categorias