Mulheres de peito

Dia desses, uma ruma de mulher fez zoada na cidade. No mesmo dia, uma prostituta sentiu-se, pela primeira vez, mulher. Entre ela e as outras mulheres (de seus clientes, ou não) existe uma barreira psicológica e uma ponte que as une: o homem. A primeira vende prazer. A segunda não vende, dá. E dá filhos também. Aquela, recebe uns tapinhas no traseiro (ela não gosta, mas gosta porque ele gosta); nas outras, é mais em cima – na cara, mão aberta ou fechada, ou algum troço duro que doa – é preciso variar.
Ah, nem tudo é duro no reino da Dinamarca. Para uma, a dureza do homem é a ereção; para a outra, rispidez, arrogância, ignorância e violência para mais um tapa na "vagabunda" – a mesma que te deu três filhos. Vagabundos, eles? Mas são todos homens, é o que importa. Não admitiria uma filha sua abrindo as pernas para algum macho, mas um filho tem mais é que mostrar que é tão homem quanto o pai. Ainda assim, a genitora é a mulher da vida dele, mas no sentido bem literal do termo, já que precisa da “vagabunda” para educar seus filhos e, quando velho, ser-lhe bengala.
A prostituta é uma mulher independente, autônoma, só leva tapinha porque permite (e a outra mulher também não seria assim? Não sei). Depende do homem apenas para alugar, por tempo estabelecido, seu produto para o dele. Para ela, nada mais que um acordo comercial. Ao final, “é vinte real” e, sem lembrar-se de casa, o homem pensa que toda mulher deveria ser de graça.
Mas a liberdade da “profissional do sexo” limita-se aos seus guetos à margem da rodovia, da cidade, da sociedade. É nesta que homens e mulheres aplicam o machismo esclarecido: putas, quengas ou, como diz um hino de letra de forró, “você não vale nada, mas eu gosto de você”.
A dona de casa, a mulher do homem, no sentido bem possessivo do termo, acha que homens e mulheres, principalmente as direitas, precisam ter direitos iguais. Vestiu uma faixa pedindo, corajosamente, igualdade e respeito: “Mulheres de Peito”.
Fizeram zoada na cidade, chamaram homens e mulheres à atenção. Tudo corria, quando deram fé de umas prostitutas. Algumas já iam se perguntar “o que aquelas quengas, putas rouba-marido fazem aqui?”, logo no meio das ‘direitas’, mulheres de casa e de seus maridos. Iam dizer, mas precisaram ouvir quando uma loura oxigenada de brincos aureolares e uma roupa mínima berrou mais alto que o microfone: “Nós, mulheres, precisamos nos dar o respeito. Somos maioria neste País, mas o que pedimos é respeito e igualdade, pois, assim como o amor, não se limitam a uma questão de sexo, mas de espécie. Os homens precisam parar de dizer que nos respeitam e depois dar um tapa na cara ou na bunda. As mulheres precisam parar de pensar que se dar o respeito é respeitar as vontades do marido. Somos nós que geramos nossos filhos em nosso ventre, mas é dentro do homem que está uma mulher, quando ele chora, sofre, sente dor e, mesmo adulto, grita, mesmo que em silêncio: ‘Mãããe!’. Depois, ainda vem nos alegar que ganhamos espaço, trabalho, mas nossos salários são menores porque ‘lugar de mulher é na cozinha, para servir a comida, e no cabaré, para servir de comer’. E para os homens e mulheres que estão ouvindo, não somos umas revoltadas que berram na rua porque o dia é nosso, se também é dos homens. Somos mulheres de peito. Somos mulheres.”
Essas palavras caíram como um raio. Tocaram o coração e, principalmente, a consciência de homens e mulheres. Depois da loura oxigenada, um espontâneo minuto de silencio.
Gritavam, gritavam muito alto, mas por dentro. Ninguém mais do que a própria consciência precisava ouvir. Como resultado do momento epifânico, ali, e só depois daquilo, construíram a verdadeira identidade para a luta, bem como receitou uma médica. Uma de muitas mulheres de peito. Muitas mulheres...
E a dona de casa, a segunda, viu que o oito de março foi somente para lembrar que todo dia é dia da mulher... E do homem.




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