Blog do Mel - Entre e acomode-se


20/02/2007


"REVIVAL" - Foi no carnaval, bloco das virgens


Não existe período do ano melhor do que carnaval. É quando Francileudo da Costa aproveita que todos põem suas máscaras para ele tirar a sua. Mal amanhece o sábado, trata logo de vestir o tubinho vermelho que ele mesmo costurou, sem esquecer de antes ter colocado um sutiã novo, com alças de silicone, segurando duas camisinhas cheias de água em cada peito, que apontam para a rua, que leva para o Bloco das Quengas, só de homens fantasiados.

As mulheres ficam de fora, só vendo a marmota. Só quando todos estão muito cansados e bêbados (15 garrafas levam ao cio) que homens e mulheres levantam suas saias ou vestidos para formarem um só. À meia vista, poder-se-ia pensar num desavergonhado afeto de duas sapatas, não fossem os encaixes perfeitos, ali, bem ali no meio da rua, do bloco, das pernas.

Mas Francileudo da Costa, escrivão de polícia de folga, não precisava disso. Passava os quatro dias de carnaval pulando com aquele vestido rosa, de sutiã siliconado, enriquecido de dois preservativos inflados com água. Durante o período, não se trocava. Mas o encardido da roupa passava despercebido. Não fedia mais que várias roupas encardidas juntas. E mijadas, vomitadas e até cagadas.

E pulava no meio da macharada feminina, afeminando-se. Era quando podia testar a voz afinada, fazer trejeitos aviadados que tanto invejava nas raparigas de soldado, que enlouquecem o quartel nas madrugadas.

No carnaval, Francileudo (agora, Fran) é uma libertinagem só. Sem o preconceito que tanto teme em dias normais, podia soltar a bicha dentro de si. Alguns homens, realmente homens, não se incomodavam e alguns até gostavam daquela outra mão máscula arranhando as costas, ou batendo num sem querer querendo o volume frontal. Era carnaval, mas, no fundo, Francileudo acha que o que separa o homem da bicha é menos o desgosto da coisa igual do que o receio de si. Era o que ele pensava.

No meio daquela ruma de homens bêbados, muito fugidos de si, Francileudo pensa como seria boa a vida se se resumisse a carnaval. Teria vários modelos de vestidos, tamancos e até daria um trato mais convincente nos seios. Quanto àquele “braço”, só ficaria na idéia a cirurgia, pelo menos por enquanto, que é tudo muito caro. Pensava longe, mas não tão alto. Refletia. Até que uma mão grande pega firme seu glúteo. O balão do pensamento estoura. Desfaz-se também um de seus seios inflados, já que a outra mão grande que veio por trás corta com as unhas o peito falso.

Francileudo não contraria o invasor de movimentos bruscos. Até idealizava-o, não tivesse olhado tão cedo para trás. Um homem alto, magro, vermelho de tão branco, de apenas uma perna, extremamente fina, dentes quase paralelos à língua, de tão para frente, cheio de janelas na boca, que babava. Já viu mais feio, só não pensava ser de tão perto. Não se segurou. Deu uma gargalhada, ouvida num raio de oito metros, o que parecia impossível, já que incompatível ao som do trio e de todos, assim tão perto. Fran teve uma crise de riso, parecendo até aqueles bebarrões, mas não estava bêbado – com os anos de polícia, cachaça pouca é refresco.

Ria dos outros, mas principalmente de si, descontroladamente: não se dá para qual quer um.

O homem de trás, definitivamente um aleijado, engoliu seco. Nunca tinha sido tão humilhado. Tudo bem que era carnaval, mas está na hora de pararem com tantas justificativas para tudo só porque é carnaval.

O homem, ainda atrás, agarrou Francileudo pelo pescoço. Estourou o outro peito, desceu o vestido do escrivão com uma brutalidade indescritível. Nu, na multidão, revelou-se o homem de Francileudo, que ria, ria... Mas ninguém viu, ninguém via. Nem quando o escrivão foi penetrado por trás, por uma peixeira no meio das costas. Se maior dois centímetros, atravessava-lhe o peito. O sexo de Francileudo, ereto, de tão assustado (ou surpreso, ou alegre, sei lá), definha. E é separado de seu corpo, bem diferente do que ele pensava em cirurgia. Mas não teve tempo de ver nem sentir a cena. Morreu, se não de rir, mas ainda rindo.

Jamais daria a bunda para um aleijado tão feio. 

Escrito por Melquiades Junior às 15h08
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