Blog do Mel - Entre e acomode-se


10/02/2007


Buchada da Adélia revive antigos carnavais

Dona Adélia mora sozinha em uma casa de taipa. "Se eu pudesse, brincava as quatro noites de carnaval"

 

O nome do bloco é Balançando Limoeiro, mas ninguém deixa de identificá-lo pelo nome da bandinha de metal: “Buchada da Adélia”, que, por sua vez, homenageia a humilde senhora cozinheira ambulante de buchada, panelada e derivados que “curavam” a ressaca dos foliões dos carnavais dos anos 70 e 80. Como em todos os cinco sábados que antecedem o carnaval, o bloco desfila hoje pelas antigas ruas de Limoeiro. Neste ano, foi contemplado pelo edital do Instituto de Preservação de Tradições Populares (IPTP) e terá investimento de R$ 10 mil.

O “Balançando Limoeiro” existe há seis anos e promove desfiles pelas ruas tradicionais de Limoeiro do Norte, ritmados pelas marchinhas de carnaval popular já antes do período momino. Do “Ô Abre Alas” de Chiquinha Gonzaga ao “Mamãe eu Quero” de Jararaca e Vicente Paiva, a banda passa em ritmo de frevo, marchinha e samba, levando os foliões pelas ruas de antigamente. Quem gosta de carnaval dificilmente resiste à bandinha passando na porta de casa. O “Balançando...” representa resistência ao arrefecimento do tradicional carnaval de rua, que na década de 80 movimentava a cidade com os blocos “Jaguar” e “Vira Copos”.

Tem jovens e idosos, cristãos e pagãos, vai até a enfeitada Carmem Miranda, homenageada pelo cabeleireiro Arísio Barros, da Associação de Apoio aos Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros. “No começo tem pouca gente, mas aos poucos as pessoas vão saindo nas calçadas das casas e entrando no bloco puxado pela bandinha, chegando a mais de mil pessoas na rua”, conta Gerônimo Osterne, coordenador do bloco. E muito cedo o folião é avisado: Desde a tarde do sábado, fogos de artifício sonorizam a contagem regressiva, porque “a noite é da Buchada da Adélia”.

E cadê a Adélia, da buchada? Ela não vai. Com 76 anos, saúde delicada, usando bengala e morando sozinha numa casa de taipa, a antiga cozinheira de buchada vê os dias se passando nas frestas das paredes de barro. Quem foi boêmio nos anos 70 e 80 pelo Vale do Jaguaribe deve ter provado, em alguma noite de festa, da das sopas, panelada, buchada ou “caldo da caridade”. Adélia diz que “minha vida hoje é de sofrimento”, mas emenda com: “Se tivesse saúde, ainda trabalhava, brincava os quatro dias de carnaval, pois eu já farreei muito, e 76 anos não é essas velhices toda não”.

Adélia de Castro Freire criou sozinha três dos quatro filhos. Acordava bem cedo para cozinhar sopa, panelada, caldo e baião para vender à noite numa mesinha na praça da Coluna da Hora e, mais tarde, na calçada do Mercado Central. Como era uma bicicleta para ela, três crianças e muitas panelas cheias, fazia muitas viagens de ida e volta de casa, levando uma peça de cada vez. Quem ia para a festa, tomava sopa; quem de lá voltava, tomava “caldo da caridade”, para “curar” a ressaca. “Diziam que a minha buchada era muito boa, mas tinha que ser boa mesmo, porque não tinha outra pessoa fazendo para vender”, diz sorrindo. E varava a noite, madrugada, os meninos cochilavam debaixo da mesa. Na volta para casa, novamente uma peça de cada vez. “Meus meninos ficavam ao relento, vigiando as coisas, enquanto eu ia e voltava de bicicleta”.

“Nunca pedi esmola para criar meus filhos. Sempre fui pobre, mas sou conformada. Não tenho desgosto da vida, minha vida é a que Deus quiser. Aqui todo mundo me respeita, ninguém bole comigo”, com a ex-cozinheira, que mora no Sítio Ilha, na periferia de Limoeiro do Norte, na companhia de seu rádio, num pequeno e resistente barraco.

Homenagem

Além de Adélia, homenageada cativa, o bloco carnavalesco “Balançando Limoeiro” homenageia uma personalidade do município. Escolhemos pessoas simples do povo que tiveram reconhecida importância pelo trabalho que faziam. A escolhida deste ano é Mazé Faheina, que comandava o bloco “Vira Copos” nos carnavais dos anos 80, além de ter sido importante desportista. Como é tradição, Mazé foi retratada em um boneco gigante, desfilando pelas ruas ao som da Buchada da Adélia.

Escrito por Melquiades Junior às 13h13
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