Blog do Mel - Entre e acomode-se


21/01/2007


A senhora molecagem cearense

Tipos Populares, o povo personagem de sua história

Betânia, a famosa Dama de Vermelho, de Limoeiro do Norte

Obs.:Há menos de um ano, publicamos no Diário do Nordeste aquela que é uma das minhas reportagens preferidas, de estar em pleno meio dia, sol rachando o chão e a cabeça, ainda assim satisfeito, pois eu estava escrevendo parte da história. A repercussão da matéria animou o Blogdomel a republicar, se ainda não em um livro, nestas páginas virtuais. A seguir, Dama de Vermelho, Carái, Zé de Nêga, Manel de Nequin e Ivan dos Cajueiros.

Eles não estão em lugar de destaque na dita história oficial – não são ricos, detentores de cargos políticos nem pertencentes às “grandes famílias” – mas são populares nos lugares onde vivem. Não são políticos, mas saem apertando a mão de quem vê e fazem por onde serem vistos. Alguns, pelo contrário, extravasam um verdadeiro mau humor, mas que é tão despretensioso que até vira a graça. À luz do folclore, os chamados “tipos populares” representam a alegria, a esperança despretensiosa do povo cearense. São conhecidos por serem muito diferentes. E fazem a diferença. No Vale do Jaguaribe, a elegância da “Dama de Vermelho”, a ‘bici-moto’ de seu Manel de Nequin, o berimbau recriado por Ivan do Cajueiro, a chatice de Carái, o discurso bêbado de ‘Mestre Craza’ e a irreverência marketeira do publicitário Zé de Nêga mostram que as verdadeiras figuras populares (literalmente do povo) sempre existem e representam a história viva do povo cearense, moleque por natureza.

Escrito por Melquiades Junior às 16h33
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Todo o charme da Dama de Vermelho

 

E a natureza tratou de presentear o povo de Limoeiro do Norte com a “Dama de Vermelho”. Moça bastante distinta, com roupas à moda Anos 40, sombrinha na mão, muitas pulseiras, colares, gigolé com laço enorme e até um crachá de identificação criado por ela, como se precisasse: “Bethânia, a primeira dama de vermelho de Limoeiro”. Não tem outra cor. Tem passos tão rápidos quanto a fala (sem atropelar palavras) e fôlego para andar a cidade todos os dias. “Ai, que eu sou muito importante. Vou aparecer no jornal”, já saiu espalhando pela cidade após o encontro com a reportagem.

Ana Betânia Costa e Silva, 21 anos, sempre foi diferente, especial. Tem deficiência mental, mas memória invejável. Sabe os nomes completos de todos os ministros, diretores de instituições públicas federais – todo dia assiste à TV Câmara. Registra, como poucos, datas e acontecimentos. Dona Maria Carmelita, que Betânia chama de “Mãe-Natureza”, conta que percebeu desde os primeiros meses de vida que a filha era especial: com apenas sete meses, ela já andava e falava as palavras básicas, comum às crianças acima de 1 ano. As duas, o pai e um sobrinho trocaram a zona rural pelo centro da cidade.

Betânia virou a dama de vermelho há pouco mais de dois anos, quando chegou em casa e disse à mãe que dali em diante só vestiria vermelho. Doou todas as roupas que não fossem vermelhas e vermelhou-se dos pés à cabeça. Possui 52 pulseiras, 34 vestidos, 17 gigolés, 10 pentes, 44 colares e seis bolsas. “Tudo meu é vermelho, a cor da paixão e do amor”. O valor simbolizado pelo vermelho, de paixão, desejo eternizado na literatura e no cinema, contrasta com a inocência infantil de Betânia. Ela é meiga e atenciosa com todo mundo. Dia desses, desenhou cartões com ‘recadinhos do coração’ e entregou aos mototaxistas de Limoeiro. Como se não bastasse, tem amor declarado, e platônico, pelo radialista limoeirense Tom Gurgel. Diz que é seu paquera, mas fala como uma criança que diz que namora. O radialista não se importa. “Levo na brincadeira. Ela é uma pessoa muito querida”. A bem querença ao paquera é registrada em inúmeros desenhos, feitos por ela, com os dois abraçados, de mãos dadas, beijando-se, e uma foto que leva para onde for.

A “mãe-natureza’ de Bethânia, dona Carmelita, diz que no começo ficou preocupada com a filha saindo na rua, mas  “eu converso muito com ela, determino horário e os dias em que pode sair. E ela obedece”, diz a mãe, que replica a filha de “minha rainha de vermelho”. E quase todos os dias, pela manhã e à tardinha, no corre-corre da labuta citadina, de pessoas ocupadas e estressadas, lá se vai a Dama de Vermelho com seu guarda-sol, cartões românticos e puxando conversa com quem passa. Colorindo o ambiente e o dia das pessoas.

Escrito por Melquiades Junior às 16h21
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“Tipos” são retrato da cultura

 

“Ai, ai, ai... lá vem Carái”, disse um mototaxista ao ver se aproximar Lucas da Silva, conhecido por Luquinha ou Carái. Sujeito conhecido pela chatice, gaiatice. Passa o dia perambulando pelas ruas de limoeiro, dançando sem música, de sorriso banguela para o vento. Toda noite, passeia pela praça matriz da cidade, sujo e fétido, falando sozinho para chamar a atenção. Apesar do que pareça, bebe pouco. Quando vê alguém sério, faz uma careta, como quem só fica satisfeito quando o outro ri. E conquistou tamanha simpatia dos jovens que estes já criaram três comunidades no Orkut, programa de socialização na Internet, totalizando mas de 600 participantes. Lá, trocam comentários das situações que participaram na presença de “Carái”.

Os personagens do povo, por assim dizer, acabaram virando verdadeiras “caricaturas” de povo. Como se fossem o povo com a ‘dose a mais’ de alguma coisa. À luz da antropologia, a existência desses “tipos”, conhecidos pela originalidade e simpatia (mesmo quando não pareçam tão simpáticos, como Seu Lunga), reforçam a identidade cultural de uma comunidade, como expressão viva dela.

Em artigo publicado há exatos 20 anos, o antropólogo Darcy Ribeiro afirmou que “em todas as milhares de modalidades de vivência cultural, pode-se distinguir certos aspectos da cultura, nos quais é mais ardente a preocupação de criar beleza, de expressar alegria ou de manifestar sentimentos. A estas particularidades é que se atribui, habitualmente o conceito de forma de expressão cultural”.

Além da Dama de Vermelho, em Limoeiro, figuras como Manoel Sebastião, de Quixeré, retratam o fim de tarde do Interior. Ele se arrumar para passear na pracinha, antes da missa. Servente de pedreiro, esbanja elegância com tênis colorido e um terno muito grande, “para atrair as mulheres. Tem gente que pensa que sou advogado”; Em Limoeiro também existe o seu Raimundo Craza, conhecido pelos discursos políticos eloqüentes e inflamados, mas só quando está bêbado. Conta-se que, certa vez, enfadado com o sermão do padre na igreja, esbravejou: “Vamos deixar de lorota e falar de sexo”. Não é político, mas quando senta no “Bar do Pixita” tem a simpatia dos ouvintes do seu sermão.(MJ)

Escrito por Melquiades Junior às 16h09
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Zé de Nêga publicidade

 

Quem precisa anunciar seu produto, sua empresa, festa ou até velório recorre à publicidade de Zé de Nega, como é conhecido Francisco Soares da Costa, de 52 anos. Ele montou uma bicicleta acoplada a aparelho de som e sai dia e noite pedalando pelas ruas do Vale do Jaguaribe fazendo a propaganda “testemunhal”, aquela em que o locutor anuncia no momento, não em gravação. Sua marca é o jeitão irreverente. Faz piada com o povo na rua, dança para chamar a atenção e, só depois que todo mundo olha, dá o recado.

“O povo me vê fazendo marmota na rua e pensa que sou doido, mas eu sou doido é por Real, que é difícil de conseguir e consigo honestamente”, afirma o esposo de Dona Socorro e pai de quatro jovens, que continua: “ainda dizem que eu ando bêbado (não bebe há seis anos), melado, mas eu sou melado é de suor, trabalhando no sol quente para sustentar em casa”.

A labuta publicitária de Zé de Nega, ex-sanfoneiro, começou em 1997, quando passou a ganhar dinheiro fazendo propaganda de lojas e festas com seu “picossom” (caixa de som em formato de carrinho de picolé). Andava a pé dezenas de quilômetros entre as cidades. A diferença é que hoje ele pedala os mesmos quilômetros, já que anexou parte da bicicleta ao carro de som, para facilitar o transporte. Agora, além de Limoeiro trabalha em Tabuleiro, Quixeré, Morada Nova, Jaguaretama, Jaguaruana, Aracati, dentre outras cidades do Vale.

Zé de Nega usa uma peruca, veste-se de palhaço, ou, se vai falar de um torneio de luta, veste-se de lutador. Tudo pela irreverência, para chamar a atenção. E ele é grato por isso e pela simpatia das crianças. Quando é seu aniversário, vai a escolas públicas com sacolas cheias de bombons para a meninada. Ainda assim, tem gente que não lhe dá valor: “Tem gente que não vai com a minha cara. Já jogaram água, cerveja”, conta, acrescentando que até esterco de boi jogaram de um caminhão, no centro de Limoeiro, quando passava a trabalho. “Meu trabalho é suado e honesto. E quando morrer quero deixar de lembrança o que fiz, que foi trabalhar com o que tenho. Se todo mundo fizesse isso não tinha tanto vagabundo nesse mundo”.(MJ)

SERVIÇO: Publicidade Zé de Nêga: contatos –(88)9958-0653/ 3423-1618

Escrito por Melquiades Junior às 16h07
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Pedreiro chama a atenção com sua irreverência

 

Terno cinza, camisa listrada, gravata laranja, calça cor de vinho e um tênis vermelho; pentinho de bolso para os cabelos “rebeldes”, chapéu de couro, óculos escuros e o pedreiro ‘Manoel de Nequin’, de 64 anos, já está pronto para passear. Sai da comunidade de Ilha, município de Quixeré, para o centro da cidade. Motivo: “Tem muita mulher bonita na rua, elas me acham muito gostoso”, diz, enquanto pedala sua possante – uma bicicleta montada com peças de moto. De cela a retrovisor, passando por caixa de comando e buzina de caminhão; e nem o cano de escapamento escapou da arte de Manoel Sebastião de Brito Filho.

Seu Manoel tenta derrubar o mito de “rapaz velho”, como são chamados os homens de ‘certa idade’ que nunca casaram ou vivem juntos com alguma mulher. Diz ele ter 40 namoradas. 15 somente em Quixeré. “Meu filho, se precisar de namorada é só falar comigo que eu arranjo até duas pra você”. Ele só não conta que de namoradas ele chama as moças que apenas simpatizam com o seu jeitão no meio da rua, que quando vai passando gritam “lá vai o gostosão”.

Seu Manoel antes trabalhava na agricultura, plantando milho e feijão; passou a ser pedreiro e hoje, “com a idade avançada”, é servente de obra. Sua famosa bicicleta, bem como o seu vestuário, desperta o olhar das pessoas. Levou seis anos e 500 reais para ficar pronta. “E ainda vou colocar um motor”. Quando sai pela rua, fica apertando a estrondosa busina de caminhão, “para dizer às meninas que eu to chegando”.

Chegando a molhar os olhos quando soube que iria sair no jornal, ‘Manel de Nequim’ é um tipo popular daqueles que, não incluídos no vínculo social de atenção, sente-se alegre e satisfeito por ser reconhecido nas ruas pelas pessoas: “Quando eu estou elegante, me sinto gente, mais importante; quando estou andando com meu advogado, pensam que o advogado sou eu”, acredita. (MJ)

Escrito por Melquiades Junior às 16h04
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Ivan dos Cajueiros, o rei do berimbau

 

“Ai, como é bom/ trepar no Cajueiro...” canta Ivan dos Cajueiros, todo arrumado por causa da visita da reportagem, reverberando o som de seu berimbau. Não um berimbau qualquer, mas um instrumento montado com calota (peça de metal que envolve as rodas de carros) e um talo de madeira. Um ferrinho para dar ressonância aos movimentos da corda, um fio grosso e resistente retirado de pneu de caminhão, fio ligado à tomada de som e está feito o ‘berimbau elétrico’, criação de Antônio Ivan da Silva, Ivan dos Cajueiros, porque mora na comunidade homônima, em Tabuleiro do Norte. Tem 52 anos de vida e 40 de música instrumental, tocando todo tipo de xote e forró com seu berimbau.

Praticamente todos os municípios do Vale do Jaguaribe já testemunharam a sonoridade do berimbau elétrico inventado por Ivan. Freqüentemente se apresenta em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde sempre é bem recebido. Ele mesmo já se apresentou no programa “Siga bem, Caminhoneiro”, do SBT, e foi convidado outras vezes para a TV Diário. “Agora o meu sonho é tocar no Faustão, naquele  “Se Vira nos 30”, quadro do programa para apresentação de curiosidades artísticas. Ele começou tocando sanfona, achou que não tinha jeito para a coisa e decidiu montar o berimbau.

Albino, Ivan dos Cajueiros já trabalhou muito na roça até não poder mais, pelo perigo do excesso de sol na pele desprotegida (os albinos tem pouca ou nenhuma melanina, substancia que dar cor à pele e protege dos raios ultravioletas, absorvidos com o sol). Além disso, ainda é praticamente cego de um olho. Hoje, sobrevive da sua música e da aposentadoria acanhada – sustenta até filho casado.

“Já tive vontade de parar, mas tenho muita fé em Deus. A gente tem momentos de alegria, tristeza, minha mulher ta sofrendo com depressão. Mas tenho um palpite no meu coração que ainda vou ter muita sorte com este instrumento”, diz, referindo-se ao valioso berimbau, que leva para qualquer canto que vá. “Meu filho, será que alguém que ler esta matéria vai se interessar pelo meu trabalho?”. De qualquer forma, ele explica que só a morte vai fazer deixar de tocar no famoso berimbau elétrico.(MJ)

SERVIÇO: Ivan dos Cajueiros – contato: (88)9615-4462/ 424 -0012

Escrito por Melquiades Junior às 15h55
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