Blog do Mel - Entre e acomode-se


31/12/2006


Enquanto 2007 amanhece...

 

- Vai largar essa caixa, menina. Não vê que o natal já passou? Mania besta essa sua de ficar pedindo dinheiro com essa caixa. Só porque tiveram pena de você semana passada pensa que vão fazer a mesma coisa, colocar moedas, nessa caixa velha e feia? Esquece que gente só amolece coração em fim de ano, ou melhor, na véspera de Natal? Pensam que vão pagar os pecados colocando cinqüenta centavos nessa caixa. “Pronto, fiz minha caridade”. Tão tudo salvo, bando de filhos da puta. Aposto que nem você sabe o que tá escrito aí.

Tamo em 2007, e você vai ter que ralar, feito sua irmã. Dinheiro agora só no carnaval, e você já ta bem grandinha pra começar...

Sabe que às vezes eu olho pra você e tenho pena? Cadê sua mãe, quantos dias não passa em casa? Mais um gringo? A burra ainda acredita em príncipe encantado. Ainda vai se foder toda sendo essa Cinderela. Uma noite não será boa e crau! Polícia não tem pena não, neguinha.

Olha o que tô dizendo, larga essa caixa que vai atrair pivete pra te roubar. E num sabia que só pobre que é roubado? Aliás, só se sentindo muito pra inda se achar pobre. Tá longe disso. Na vida que a gente vive, ser pobre é ser rico. E aqui a caridade do povo já esgotou, só no próximo natal. E tá longe...

Ainda arrota a coca da semana passada? Ou a cola de ontem? Inda dói a mãozada do polícia? Quer uma do outro lado? Pra se acostumar...hehe

Cíntia... Cíntia, seu nome, né? Nome de gente. E só é gente no nome. Me diga: Sabe pelo menos o que é natal?

- Dia de ter almoço e janta.

- Ah, não cortaram a língua dela. Tá enganada. Natal é dia de o povo pagar os pecados, fazendo uma caridade de fim de ano. Quando botam moeda aí não pensam em você, só neles. Por fora, sorriem. Por dentro, “Deus tá vendo minha boa ação”.

Larga essa caixa e desiste, que 2007 já chegou. E não vai colar pedir que “colabore com meu carnaval”. Isso é coisa de gente, e você não é gente, no máximo indigente. Entendeu?

Larga essa caixa e vem pro meu lado, vem dormir que já já continuam o bombaral. Tá todo mundo desejando feliz ano novo, e agente só tem que desejar que o dia amanheça, num faz diferença de um dia pro outro. É mais um ano que você tá viva, e fique feliz por isso. Ou triste.

Escrito por Melquiades Junior às 19h51
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FOGOSA É TRADIÇÃO DE FIM DE ANO

 

 As ceias de natal e as festas de fim de ano no sertão jaguaribano são cheias das deliciosas e mais famosas ‘bolinhas’ prensadas de farinha. As ‘fogosas’, como são conhecidas, são fabricadas e vendidas principalmente nesta época, em que famílias inteiras põem, literalmente, a mão na massa para abastecer as mesas de fim de ano. Em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, casa que tem farinha espalhada do chão ao teto é, na certa, casa de fogoseiro.

No dicionário, fogosa vem de fogo, algo ardente, metaforizado em “mulher ardente”, “moça fogosa”, ‘quente’ e sensual. No Vale do Jaguaribe, fogosa é sinônimo de festa da padroeira, natal e dezembro. De quando o menino aguarda os pais chegarem da festa à Nossa Senhora da Conceição ou das compras nas barraquinhas lá da praça matriz de Limoeiro, após as “bombas” da “passagem do ano”. Chega com um monte de saquinhos cheios de fogosa.

Isso porque é neste período quando seu Francisco de Assis junta a família, que não é pequena, para trabalhar dia e noite produzindo o enroladinho açucarado de goma com coco. A casa vira uma fábrica, filhos e netos são operários, e o tempo transforma tudo isso em tradição. A mesma que leva o comerciante Fernando Holanda a comprar todos os anos, desde menino (e isso faz mais de 30 anos), os saquinhos de fogosa no galpão dos feirantes de Limoeiro. “Quando era menino, no fim de ano não via a hora de comprar fogosa. Comia até não poder mais, cheguei a passar mal de tão cheio”, conta o comerciante, agora fazendo as compras para toda a família.

A família de Francisco de Assis Ferreira Leitão trabalha há mais de 30 anos na atividade, e não só na fogosa, como broa, grude, pé-de-moleque, ‘quebra-queixo’ e “doce do que você imaginar”, ressalta Maria de Lourdes Araújo Leitão, esposa de seu Assis e filha de Maria Cecília, a fogoseira mais antiga de Limoeiro – 91 anos. Hoje, a matriarca da fogosa acompanha com os olhos a correria dos fabricantes e faz os serviços mais leves. E em casa de fogoseiro não tem folgado, é todo mundo em pé ou sentado e “mãos à obra”, embora dê tempo de uma prosa enquanto trabalham, “para distrair e o tempo passar melhor”. Assim fazem Liduína, Socorro, Cecília, Luciene e Luis Fernando, da família Leitão.

A casa de Seu Assis termina onde começa a vida dele. Com um forno a lenha e de bom tamanho para cozinhar da fogosa ao pé-de-moleque. “Isso aqui é minha vida”, resume, sem parar um só minuto para conseguir dar conta do serviço - era 23 de dezembro e o mutirão todo era para aprontar tudo para a feira de natal. De cinco da manhã a meia noite do dia 24, a feira popular movimentou a cidade, que mesmo após a missa da noite viu seu povo comprando as fogosas para o café da manhã, “que amanhã, feriado, é tudo fechado”, retrucou uma compradora. Hoje (domingo), a labuta de Assis é a mesma: Vender o fabricado da semana, “para entrar 2007 de bolso cheio”. Cada saquinho de fogosa é vendido a um real, mas se o cliente comprar muitos ainda ganha um desconto.

“Mas de primeiro, quando dava meia noite, isso aqui tinha mais gente. Agora diminuiu muito, o povo sai da missa logo pras festas”, reclama Assis. Na mesma labuta fogoseira está o casal Francisco Maia e Maria Lousa, esta que trabalha com fogosa “desde que nasceu o primeiro dente”. Vieram de Tabuleiro do Norte, outro município com tradição na produção de fogosas. Outro famoso em Limoeiro é José Rebouças de Oliveira, o ex-agricultor e hoje “Zé da Broa”. Há 28 anos no ramo fazendo mais de seis mil fogosas por dia, “para vender no derradeiro dia do ano”. (foto: Seu Assis e Dona Lourdes - por Melquíades Júnior

Escrito por Melquiades Junior às 10h23
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