
É preciso mudar o destino. Não preciso dar a volta ao mundo, mas que o mundo dê a volta, mude o rumo e arrume-se. Nem falo da morte humana porque esta será inevitável, mas do fim das coisas humanas, que nos tornam "demasiado humanos". Também não falo somente da coisa-modo-atitude-virtude de comportamento, mas das coisas mesmo: matéria. Dia desses, meus óculos (1999-2006+) partiram-se e partiram dessa para melhor. Não eram óculos quaisquer, mas os "meus óculos". Não, nada de possessivo nem egoísta ou material-fundamentalista. É que óculos era apelido. Ninguém poderia chamar aquele traçado metálico em meu rosto com lentes, de fato, transparentes de ‘óculos’, somente. Um tom sobre tom. Ninguém registrava a sua presença em minha face, a menos que se aproximasse bastante de mim. A menos que me conhecesse para isso. Era discreto como eu. Também eles não tinham nome, pois nunca precisei chamá-los – sempre estiveram bem na minha frente.
Aconteceu que numa noite dessas de domingo, uma noite “a dois” (não precisava ser tão literalmente), pois estava acompanhado de uma amiga, eles me pediram licença (Sim, sempre foram educados) mas nem esperaram resposta. Era o fim. Partiram-se e partiram.
Contra tudo e todos, que me aconselharam a “troca esses óculos velhos e feios”, convivi com aquelas armação e lentes por sete bons anos! Quando os vi, foi paixão à primeira vista. Eles davam um ar de intelectualidade, confesso, mas principalmente pareciam comigo. Para uns, encaixe perfeito; para todo o resto, “grande demais”, “largo demais”, “redondo demais”. Falavam demais.
Os primeiros registros históricos sobre a existência de lentes rudimentares foram escritos na China pelo filósofo Confúcio, em
Os óculos têm esse valor simbólico (e já é simbólico dizer que é simbólico) não por moldar uma estética, mas por ajudar a enxergar o mundo. Não só o mundo aos nossos olhos, mas ao coração e mente. Assim o é no auxílio à leitura, ao diálogo, à palestra assistida, à vida vivida de um jornalista, professor, estudante ou o que quer que eu ou você façamos. Quem usa óculos o faz para enxergar profundo.
Era uma extensão do meu corpo que não será substituída, embora outros ocupem o seu lugar (acho que tudo é substituído, mas não substituível, pois nada nem ninguém é igual e não fará igual). Jaz na minha memória e na de quem me via com aquela seriedade, quase sóbria, e um par de lentes redondas, que me ajudaram a ver um mundo ora redondo, ora chato.
Dizem que morrer é biológico, pois nossas células cansam, morrem. E o que dizer das coisas? Não têm células! Elas demoram, mas estão sempre morrendo também. Morre-se não por uma questão biológica, mas lógica. A lógica do mundo.
Contra a lógica das coisas, tentei remendar aquele pedaço de mim. Percebi que não são os óculos, sou eu que estou ficando velho, de alguma forma; vendo o mundo mais profundo, de alguma forma. Isso me gasta, e ele foi por mim, primeiro. E percebi que a reflexão, que só faria com meus “conselheiros”, foi feita sem eles aqui em minha face. Porque já se mudaram para a face... da alma.




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