Blog do Mel - Entre e acomode-se


14/07/2006


Por que não ganhamos o hexa

O Brasil perdeu a Copa e, para os brasileiros, ali, na derrota do Brasil para a França, acabava a copa do mundo. Esspantado, surpreso, estupefato, o torcedor se indigna e já pensa em marmelada – “os caras foram comprados, estava combinado”. A partir daí, ninguém gostaria de ser a mãe do Parreira, ou de qualquer um dos jogadores. O brasileiro já estava tão convencido e acostumado com o “somos os melhores”, que existem todos os motivos pára o Brasil perder, menos o fato de que o outro possa ter sido melhor.

À luz da sociologia, o futebol é o momento da união, da paz dos espíritos, do jogo saudável, que une multidões, culturas (não quero falar da violência das torcidas), o momento em que o brasileiro, em especial, pelo menos por duas vezes de 45 minutos se esquece dos problemas, quer seja a miséria, a exploração ou corrupção dos políticos.

Mas como tudo demais é veneno, o ego brasileiro deixou cega a sua torcida, e os próprios jogadores. Os tais que estavam de salto alto, sentindo-se favoritos demais, ou não era a própria mídia que colocava o tamanco 45 e definia o favoritismo dessa copa? A TV Globo levou nada menos que 180 profissionais para a Alemanha. Some-se às outras centenas de jornalistas do Brasil e do mundo e tínhamos um monte de gente atrás do melhor furo, a exclusiva, o melhor ângulo. Qualquer pum (no nosso dizer popular) era motivo de meia página do jornal. Já imaginou: “os nossos craques peidam melhor que os de lá” ?. Exageros à parte, nas partidas, Galvão Bueno era a voz do povo e de Deus (sim, porque para nosso egocentrismo Deus é brasileiro). Se o narrador esportivo elogiava Kaká é porque ele era o melhor da partida; ou Lúcio, Ronaldinho – cada qual teve a sua vez. Gavão falou, está dito. Até quando ‘sugeriu’ que os brasileiros, derrotados, deveriam torcer por Portugal, ou melhor, Felipão, e num lance subliminar lá estavam os brasileiros com Figo, contra quem viesse pela frente. E dá-lhe, Felipão! Deu que perdeu.

E o mais interessante do futebol é que nem todo aquele que ganha é o melhor. Um time A pode ser o pior de uma partida, até execrado pelos comentaristas esportivos, mas se, contra toda ordem natural das coisas, ele fizer um gol nos acréscimos do jogo, como num passe de mágica os comentaristas-especialistas-istas-istas-esportivos esquecem o que disseram e, como que num milagre, o tal time fez por merecer a vitória, em detrimento do suposto, até então, outro time melhor na partida. O futebol é uma ciência em que não há analistas, só torcedores.

Criou-se o estrelato da “Seleção do Parreira”. A imprensa trata de criar a constelação. Aos jogadores, a responsabilidade de darem audiência aos canais de TV, vendas verde-amarelo das esquinas, muitos goles para as cerveijarias, televisores vendidos pelos fabricantes, e aquele churrasco caro e bem pago aos clubes e bares, que faturaram um “extra” com a transmissão dos jogos do Brasil. A responsabilidade da seleção aumentava. Não bastavam fazer gols, tinham que manter a audiência. E se o governo não gera emprego e renda, até isso os jogadores tinham que garantir.

E os milionários jogadores são apenas marionetes de outros milionários e nós, também, os miseráveis, que amaremos ou odiaremos os jogadores - tudo depende do desempenho futebolístico. Alimente-se o ego, que aumenta a riqueza, que alimenta a expectativa narcisista do vencer ou vencer, que recebeu proporcional frustração: o Brasil perdeu. Mas os brasileiros não perdem mais pela derrota em jogo, mas pela doce-amarga ilusão de perfeição a todo custo, a ponto de não aceitar derrota e sentir-se o melhor, sempre, a não ser que haja marmelada – “eles foram comprados”. E não poucas vezes se vê o otimismo moleque do nosso jeitinho dá lugar ao egocentrismo exacerbado.

Ovo na seleção! E em nós, que lá vem eleição.

Escrito por Melquiades Junior às 09h12
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