Blog do Mel - Entre e acomode-se


08/07/2006


Guitarrada do Pará

Numa raríssima foto com objeto de matéria, a Jéssica me fotografou enquanto espectava o espetáculo da Guitarrada, do Pará. Precussores do estilo calypso, os caras se garantem. Teve até palhinha com lata de refri.

Escrito por Melquiades Junior às 17h49
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Orquestra Carnaubeira

foto: Davi Pinheiro

Escrito por Melquiades Junior às 17h27
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06/07/2006


Até o próximo Encontro

 

Sertão foi inventado e reinventado nos seis dias do II Encontro dos Mestres do Mundo. Pelo Vale do Jaguaribe passaram mestres da cultura dessa e de muitas outras bandas. Os aprendizes também deram o ar da graça. Das crianças da Orquestra Carnaubeira aos espectadores imitando os passos de Mestre Zé Pio, todo mundo tentou aprender e entrar no meio da roda de saberes e fazeres, desta vez em duas cidades: Limoeiro do Norte e Russas. Causou certo estranhamento o “racha” do evento em duas cidades, separadas por 30 km e, para muitos, a divisão em duas sedes enfraqueceu o evento. Mas o que vai ficar na lembrança é o reencontro com a cultura popular


"Ainda hoje tenho lembrança do reisado que brinquei”, conta mestre João Mocó, do município de Granja. Mas não só nele veio a lembrança das antigas tradições. Quem passou por essas bandas pôde sentir a catarse cultural coletiva. É quando o baticum começa e palmas tímidas se transformam em rítmicas, sem vergonha, definindo a interação, troca de saberes e fazeres.

A reflexão do encontro pôde ser conferida no Primeiro Fórum Cearense de Cultura Popular Tradicional, ontem. Na pauta, reflexão e análise sobre a Lei dos Mestres, numa ação que enseja a questão envolvendo o artesão Expedito Seleiro, retirado da lista de mestres da cultura 2006 por não se enquadrar na faixa de “baixa renda” exigida pela legislação. O artesão, por sinal, esteve no encontro dos mestres. “Ppensei em não vir mais, desanimei e acho que não serei mestre da cultura um dia, mas vim porque gosto do povo do Limeoiro”, declarou.

Segundo Lourdes Macena, presidente da Comissão Cearense de Folclore e organizadora do Fórum, a intenção é refletir tecnicamente sobre a Lei e ver como é possível melhorá-la, inclusive contando com esclarecimentos de técnicos da Ordem dos Advogados do Brasil. Outro objetivo do Fórum foi fortalecer a mobilização de agentes de cultura pelo Interior. “Vamos partir do princípio da informação, para que as pessoas se informem sobre a existência de editais de incentivo às artes e cultura”, conta Lourdes.

O encontro foi de mestres e doutores da cultura e também da academia. Foi possível beber da fonte intelectual de nomes como a professora universitária Peregrina Capelo (“O Sertão está em todo lugar, enrustido dentro da gente”) e o cordelista Azulão, falando do cordel enquanto “Linguagem do Povo”. Grande nome da cultura regionalista nordestina, José João dos Santos, cordelista, poeta, repentista, cantador, violeiro e bom de conversa, é homem que carrega na bagagem a força dos seus mais de 300 cordéis, publicados nos últimos 50 anos.

Na fusão erudito-popular, ninguém se esquece da “esquisita” dança Odissi, ou do Quarteto Romançal, trazendo influência ‘trovadora’ e músicas populares com a instrumentalidade erudita de um violino ou violoncelo. Ou ainda do grupo peruano Hijos del Sol, de música andina. Como ressaltou a pesquisadora e pioneira em Dança Odissi no Brasil, Silvana Duarte: “Isso aqui transcende a musicalidade, o corpo, o gênero. Atinge o espírito”.

Mas uma das maiores atrações deste encontro, além dos próprios mestres, foi a apresentação da Orquestra Carnaubeira. Sim, a transmissão de valores está acontecendo. A tão falada troca de saberes encanta os meninos do grupo de música regional, sob a influência da maestria dos irmãos Aniceto, do Bumba-meu-boi de Mestre Chico Nogueira, ou da eterna sonoridade de Luiz Gonzaga. Com idade média de 12 anos, a meninada se derrete com a cultura popular. São integrantes da Associação Carnaubeira de Arte e Educação - no distrito russano de Flores. Conquistaram prêmios nacionais, foram tema de reportagem da TV Globo e ainda selecionados como Ponto de Cultura, pelo Ministério da Cultura.

Neste ano, a Orquestra Carnaubeira estreou com o espetáculo “A Invenção do Nordeste”, depois de muita pesquisa, culminando na composição e arranjo das canções pelas próprias crianças. Os prodígios são coordenados pelo artista-educador Talvanes Moura. “Os meninos evoluíram muito tecnicamente, e estão experimentando vários instrumentos feitos por eles mesmos”, conta Talvanes.

E só foi anunciarem a apresentação da Orquestra Carnaubeira, que parecia um gol do Brasil. Poucas vezes se viu a praça central de Limoeiro do Norte tão animada, cheia de expectativa. Que o diga Célio Turino, Secretário de Programas Culturais do Ministério da Cultura e assessor direto do ministro Gilberto Gil. “Nossa, fiquei emocionado! Eles cultivam a raiz popular com criação própria, originalidade. E é bom ver pessoalmente como as coisas estão funcionando”, diz o secretário sobre o representante da primeira leva de pontos de cultura.

Célio não tergiversou: “O que vocês acham de lançar o CD em outubro, no parque do Ibirapuera (São Paulo), na primeira exposição nacional de pontos de cultura?”, convidou. Os meninos não se contiveram, de tão emocionados. Se o primeiro encontro dos Mestres os levou ao programa da Xuxa, exibidos em mini-documentário, sabe-se lá onde esses meninos vão parar.

“Neste encontro de cultura, acho que muitas pessoas saíram tocadas. Elas saem daqui diferentes”, aposta o consagrado músico Antonio Madureira. Mas ele e outros artistas acreditam que o mais interessante seria a concentração do encontro em um só lugar. Já Mestre Edite, do artesanato em renda, disse que gostou muito do encontro. “Mas ficou meio fraco, depois que separaram os mestres”, ressalva. O “desencontro” também foi comentado pelo jornalista e pesquisador Oswald Barroso: “Tem gente que acha que seria interessante se todos se reunissem num único lugar. Russas não teve a mesma concentração que Limoeiro”.

“Este é o encontro dos mestres e dos amigos”, conta Francisco da Rocha, 61, irmão e parceiro de banda Cabaçal do Mestre Miguel. “Meu filho, eu não sou mestre da cultura, pois quem foi diplomado foi o meu irmão. Mas sabe que me sinto um mestre? Da cultura e da vida”.

Escrito por Melquiades Junior às 10h08
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