Integrantes de diversos grupos de Congo do Espírito Santo
Este país é muito misturado e não é de agora. Pelos lados do Espírito Santo, em idos do século 18, negro e índio, vitimados da civilização européia, já trocavam saberes e fazeres, numa verdadeira “cafusada” cultural. No encontro dos Mestres do Mundo, que acontece no Vale do Jaguaribe, integrantes de cinco congados daquele estado mostram a negritude guerreira de quem é descendente direto de escravos. Em evidência, as influências africana e ameríndia.
“Fomos libertados da escravidão/ Congo da Vila do Riacho/ À disposição”. Na palma da mão e no reco-reco, passeiam em Limoeiro mestres de diversos grupos do congado capixaba. Não se conheciam lá, antes do encontro de cá. Em comum, a forte influência indígena na instrumentalidade: o uso da casaca, ou cossaco, ou, ainda, nosso mais conhecido reco-reco, instrumento de bambu esculpido e talhado transversalmente.
A herança teria vindo de uma banda primitiva de Congo dos índios Mutuns, e, conforme já sugeriu o sociólogo Gilberto Freire, uniu-se a espontaneidade de emoção e movimentos dos negros aos rituais compassados das cerimônias indígenas. Com o tempo, as bandas foram alterando seus aspectos indígenas, desaparecendo o nome “guarará”, substituído por congo ou tambor, passando, por isso, o conjunto a ser denominado “banda de congo”, expressão que lembra melhor a Velha África. Desapareceu também o termo manacá ou massaraca (chocalho). Juntou-se ao instrumental a cuíca, de origem africana; manteve-se, porém, o cassaco ou cassaca, casaca, ou por contaminação, canzaco, evidente influência de canzá ou ganzá, termo quimbundo (língua africana). Acrescente-se a isso as peculiares danças dos negros e mais as toadas, onde se encaixam, aqui e ali, termos e expressões africanas. As canções fazem referências à escravidão, entoadas dentro de ritmo negro, quente e sensual.
“Nós temos uma marcha muito bonita, falamos muito da escravidão”, conta Itagiba Cardoso, mestre da Vila de Santa Isabel, que quando se apresenta em vitória “arrasta” 40 mil pessoas.
Em Vitória, o congo foi incorporado à vivência das colônias de pescadores e os principais instrumentos utilizados são: o tambor de congo, bumbo ou caixa, a casaca ou reco-reco, a cuíca, o chocalho, o triângulo e o apito, que o capitão, também conhecido por mestre, utiliza para iniciar ou terminar as cantigas e marcar o ritmo das toadas. As canções ou toadas contam a história do negro capixaba e homenageiam o santo padroeiro - São Benedito - e também Nossa Senhora da Penha. São também temas destas canções o mar, o amor e, às vezes, a morte. Uma data também festiva pelo congado capixaba é o dia 13 de maio, da “Caminhada do Adão”. Conta Mestra Maria Laurinda, de 63 anos, que seu avô escravo, chamado Adão, era um negro ‘amolecado’, que resistia à prisão. Era levado a ficar para dormir, toda noite, no tronco, acorrentado. Eis que o “danado” fugia para farrear e só voltava no final da madrugada, repondo-se às correntes. A história (ou estória) deste outro Adão representa não menos que o desejo da libertação. De lá, todos os anos Adão é lembrado pela vontade de ser alforriado.
Dona Laurinda está pela segunda vez no Ceará, para o II Encontro dos Mestres, e, como a maioria dos outros, tem outra atividade (a de “mestre da vida”): é presidente da delegação do trabalhador rural em sua cidade. “Já estive 12 vezes em Brasília para reivindicar”. Reivindicação que todos também fazem é para continuidade da tradição. Segundo Mestre Ângelo Camilo, há um temor de que o passar do tempo represente o morrer da dança. Uma das dificuldades está na transmissão do saber. “As crianças crescem, ou vão para outra cidade, vão fazer faculdade”, e agente tem medo de perder. “Está certo”, ele admite, “que dos anos 90 para cá melhorou muito e já criaram até grupos mirins”.
Foto: Davi Pinheiro




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