Blog do Mel - Entre e acomode-se


01/07/2006


No reco-reco do congado capixaba

Integrantes de diversos grupos de Congo do Espírito Santo

Este país é muito misturado e não é de agora. Pelos lados do Espírito Santo, em idos do século 18, negro e índio, vitimados da civilização européia, já trocavam saberes e fazeres, numa verdadeira “cafusada” cultural. No encontro dos Mestres do Mundo, que acontece no Vale do Jaguaribe, integrantes de cinco congados daquele estado mostram a negritude guerreira de quem é descendente direto de escravos. Em evidência, as influências africana e ameríndia.

“Fomos libertados da escravidão/ Congo da Vila do Riacho/ À disposição”. Na palma da mão e no reco-reco, passeiam em Limoeiro mestres de diversos grupos do congado capixaba. Não se conheciam lá, antes do encontro de cá. Em comum, a forte influência indígena na instrumentalidade: o uso da casaca, ou cossaco, ou, ainda, nosso mais conhecido reco-reco, instrumento de bambu esculpido e talhado transversalmente.

A herança teria vindo de uma banda primitiva de Congo dos índios Mutuns, e, conforme já sugeriu o sociólogo Gilberto Freire, uniu-se a espontaneidade de emoção e movimentos dos negros aos rituais compassados das cerimônias indígenas. Com o tempo, as bandas foram alterando seus aspectos indígenas, desaparecendo o nome “guarará”, substituído por congo ou tambor, passando, por isso, o conjunto a ser denominado “banda de congo”, expressão que lembra melhor a Velha África. Desapareceu também o termo manacá ou massaraca (chocalho). Juntou-se ao instrumental a cuíca, de origem africana; manteve-se, porém, o cassaco ou cassaca, casaca, ou por contaminação, canzaco, evidente influência de canzá ou ganzá, termo quimbundo (língua africana). Acrescente-se a isso as peculiares danças dos negros e mais as toadas, onde se encaixam, aqui e ali, termos e expressões africanas. As canções fazem referências à escravidão, entoadas dentro de ritmo negro, quente e sensual.

“Nós temos uma marcha muito bonita, falamos muito da escravidão”, conta Itagiba Cardoso, mestre da Vila de Santa Isabel, que quando se apresenta em vitória “arrasta” 40 mil pessoas.

Em Vitória, o congo foi incorporado à vivência das colônias de pescadores e os principais instrumentos utilizados são: o tambor de congo, bumbo ou caixa, a casaca ou reco-reco, a cuíca, o chocalho, o triângulo e o apito, que o capitão, também conhecido por mestre, utiliza para iniciar ou terminar as cantigas e marcar o ritmo das toadas. As canções ou toadas contam a história do negro capixaba e homenageiam o santo padroeiro - São Benedito - e também Nossa Senhora da Penha. São também temas destas canções o mar, o amor e, às vezes, a morte. Uma data também festiva pelo congado capixaba é o dia 13 de maio, da “Caminhada do Adão”. Conta Mestra Maria Laurinda, de 63 anos, que seu avô escravo, chamado Adão, era um negro ‘amolecado’, que resistia à prisão. Era levado a ficar para dormir, toda noite, no tronco, acorrentado. Eis que o “danado” fugia para farrear e só voltava no final da madrugada, repondo-se às correntes. A história (ou estória) deste outro Adão representa não menos que o desejo da libertação. De lá, todos os anos Adão é lembrado pela vontade de ser alforriado.

Dona Laurinda está pela segunda vez no Ceará, para o II Encontro dos Mestres, e, como a maioria dos outros, tem outra atividade (a de “mestre da vida”): é presidente da delegação do trabalhador rural em sua cidade. “Já estive 12 vezes em Brasília para reivindicar”. Reivindicação que todos também fazem é para continuidade da tradição. Segundo Mestre Ângelo Camilo, há um temor de que o passar do tempo represente o morrer da dança. Uma das dificuldades está na transmissão do saber. “As crianças crescem, ou vão para outra cidade, vão fazer faculdade”, e agente tem medo de perder. “Está certo”, ele admite, “que dos anos 90 para cá melhorou muito e já criaram até grupos mirins”.

 

Foto: Davi Pinheiro

Escrito por Melquiades Junior às 10h16
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29/06/2006


Mestres na roda dos saberes

Mestres Francisco (cabaçal Juazeiro) e mestre hortencio (rabequeiro de Varjota)

Em todo canto tem gente de todo canto. No Segundo Encontro dos Mestres do Mundo a ordem (e não é ordem, é espontâneo!) é interagir. Limoeiro do Norte e Russas recebem os mestres da cultura popular dos pés (dança) à cabeça (cordel), passando pela boca, na gastronomia, mãos, no artesanato, ou o corpo inteiro, feito o dançar Odissi, expressão indiana, sob o olhar do mestre bigode, do maneiro-pau. E ‘encontro’ deixa de ser a palavra da vez para a ‘interação’ entre mestre e povo-aprendiz. É quando o povo pára, olha e dança ou sorrir feito criança boba com tanta arte. Essa interação se dá com a velha transmissão do saber pela oralidade, como os mestres perpetuam a arte para as gerações sucessoras, suas ou não, numa verdadeira mistura, gente de todas as bandas, e bandas cheias de consangüinidade cultural. A prova viva, ou melhor, eterna, está no mestre Miguel, da banda cabaçal de Juazeiro, que toca com os filhos, sobrinhos, netos e irmão. Ou no mestre Hortêncio, rabequeiro, cujos filhos não tocam, pois pintam, talham e costuram, mas são artistas.

O encontro dos Mestres tem se dividido nas palestras pela manhã, por onde já passaram o cordelista Azulão, falando sobre a literatura popular com a bagagem de quem tem mais de 300 cordéis publicados; a professora Peregrina Capelo, sobre “a invenção do Sertão”, dentre outros pesquisadores do ‘espécime popular’.  Tem também os espetáculos da noite, já sonorizados pela Guitarrada, do Pará, precursora do estilo “Calypso”; Roberto Corrêa, pesquisador, cantador e violeiro; além das crianças da Orquestra Carnaubeira, de música regional. Mas é na famosa “Roda dos Mestres”, nas tardes, o momento epifânico, pois é onde se concretiza a idéia de “encontro”, menos expositivo e mais interativo. Em Russas, ficam os mestres dos sons, oralidade e sagrado; E em Limoeiro os mestres do corpo, mão e sabores. Talvez tenha sido essa a melhor roda inventada pelo homem: a da comunicação-interação.

 “Meu filho, eu tô com um CD de músicas de meu marido aqui que você vai gostar. Quem copiou e fez até a capa foi meu filho ‘do meio’, você compra?”. A resposta a ‘Dona Belinha’ não poderia deixar de ser positiva em se tratando de Mestre Antonio Hortênsio (Mestre da Cultura 2005), rabequeiro de Varjota. Filho de Carpinteiro e tecelã, aos quinze anos o também carpinteiro reconstruiu uma rabeca a partir de pedaços de outra. Antes do conserto, pediu-a emprestada: “Dois dias depois eu devolvi a rabeca e tinha composto um samba e uma marcha, tomei gosto pelo toque”. Na Roda dos Mestres, em Russas, entoou as preferidas, como Asa branca, de Luiz Gonzaga, trocando acordes com o violão do músico “Paraíba”, com pífano e percussão dos filhos do Mestre Miguel (banda Cabaçal de Juazeiro) e as palmas rítmicas de quem não sabe tocar, “só” admirar.

Mestre Hortencio, com 78 anos de muita vida, diz que desde cedo ensinou os filhos a ‘serem gente’. “Hoje estão ‘tudo’ crescido, e eu vivo com minha velha. Estou adorando estar aqui”, diz, guardando a rabeca junto à caixa de remédio “contra o colesterol”, e completando com versos feitos no encontro passado, em Limoeiro: “Eu vou ao Limoeiro/Gostei do Forró de Lá/gostei muito dos mestres/ da cultura popular/gostei também das menininhas/daquele lindo lugar/ eu vou, eu vou, eu vou/ Eu vou para Limoeiro do Norte”.

E lá, quem não é mestre da cultura é, no mínimo, da vida. Seu José Francisco da Rocha, aos 61 anos, toca tarol com o irmão, mestre Miguel, e os sobrinhos na banda Cabaçal de Juazeiro do Norte. “Meu filho, hoje a dificuldade está tão grande, mas eu estou adorando estar aqui, a gente conhece muita gente. O encontro é dos mestres e dos amigos”, sentencia o percursionista, que trabalhava na roça e hoje anda em carroça, cavando buraco de fossa para garantir o feijão.

Foto: Junior Panela

Escrito por Melquiades Junior às 20h33
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A Índia é logo ali

 

O Nordeste é aqui, mas se lugar é cultura a Índia passou por essas bandas. A milenar espiritualidade oriental está aqui. Por fora, a exibição de movimentos corpóreos bem decididos, cortando o ar com os pés firmes no chão; por dentro, paz de corpo e alma. Assim é a dança Odissi, etmologicamente uma arte-devocional. À Vista de todos, interagindo com o povo, feito o mestre bigode, de Juazeiro, remanescente do “Maneiro-Pau do Batalhão do Padre Cícero”, que olha atento os movimentos “esquisitos”.

A dança possui qualidades de sutileza de movimentos e graciosidade nas formas, tanto na “pura” (nritta), quanto na chamada dança “representacional” (abhinaya), onde são comuns estórias sobre o amor de Radha e Krishna, personagens lendários do folclore indiano. Odissi é uma das danças clássicas da índia, originária nos templos há mais de dois mil anos, que tem como representante e pioneira no Brasil a professora e bailarina Silvana Duarte.

Diretora artística do Padma – Arte e Cultura, Silvana é expoente da dança Odissi na América Latina, lecionando e apresentando a arte há 13 anos. Visitou várias vezes a Índia e percebeu de perto o ressurgimento dessa dança milenar na Índia pós-colonização britânica. “As mulheres eram quem mais praticavam a Odissi, isoladas dentro dos templos, onde também eram educadas. Mas as mahari (como eram chamadas as dançarinas) eram discriminadas e chamadas até de prostitutas. Hoje, volta a ser praticada, dessa vez pelos homens, responsáveis por disseminar a dança”, conta Silvana.

A Odissi ao lado das milenares danças Bharatha Natya, Mohini Attam e Ioga, é interpretada por um eu-lírico feminino, mesmo que um homem a pratique. “A Odissi é predominantemente disciplina e comprometimento. E apesar de a espiritualidade transcender o gênero percebemos na mulher esse senso de responsabilidade, suavidade, gentileza, compreensão, dedicação”, explica Silvana Duarte, que faz apresentação solo, pois “a harmonia é uma experiência de cada um, que interpretará cada movimento como conseqüência de sua visão própria.”

Para falar da dança (quase uma filosofia) Odissi, Silvana Duarte tem bagagem: concluiu sua formação em balé clássico pela Royal Academy of Dance, em Campinas (SP); recebeu treinamento inicial em dança Odissi na cidade de bangalore (Índia) e continuou seus estudos com o guru Oryia Shri Ramani; tem se apresentado no Brasil, Argentina e na própria Índia, tendo recebido homenagem do consulado geral da Índia em reconhecimento pelo seu talento e contribuição em promover a dança clássica indiana no Brasil; e em março deste ano foi premiada pelo Conselho Indiano para Relações Culturais, apresentando-se na cidade de Dheli (Índia).

Na apresentação de Silvana em Limoeiro e Russas, percebeu-se nas pessoas do descontento à admiração, principalmente esta. Ninguém queria aprender aquilo, mas sentir uma outra cultura. Mestre bigode que o diga, ele que com o seu grupo do Maneiro-Pau está viajando pelo Brasil mostrando a cultura popular brasileira aos brasileiros. Mestre Bigode, que o senhor acha disso (apresentação da Odissi)? “Não sei direito. Mas é bonito porque é diferente. É bonito porque não tinha. E a gente tem é que respeitar.”

E sobre cultura popular brasileira, Silvana Duarte se diz uma espectadora distante. “Acho que com essa multiplicidade de cultura aqui estamos todos fazendo um bem para a humanidade. Aqui vi que pouco conhecia da dança folclórica brasileira.” Mas numa coisa todos falam a mesma língua: a dificuldade de obter espaços não só para se apresentarem, mas para a promoção da tradição folclórica. De resistirem à morte de uma arte-tão ou mais do que da vida.

Foto: Davi Pinheiro

Escrito por Melquiades Junior às 20h27
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