O melhor período do ano é o pós-carnaval, quando Francisco, Cícero, Deusimar e uma leva de meninos ensaia e encena a Paixão de Cristo. Não entendiam direito porque todo ano havia aquilo, nunca leram a bíblia. Nunca leram. Mas gostavam da história de morrer, ressuscitar, e acharam uma sacanagem o que aquele Judas fez com Jesus. O dedo duro ainda teve a cara de pau de beijar “Nosso Sinhô”. Depois, ninguém merece ser pregado na cruz. “Não quando não se tem culpa”.
A encenação da Paixão de Cristo reúne mais de 50 pessoas da comunidade. A produção fica por conta das beatas, que sabem da história; e dos palhaços, que são atores e ensinam às crianças a arte de representar. Com raras exceções, as crianças estavam ali menos para encenar e mais para comer. Eram todos muito pobres, magricelos, desnutridos. E como é ano de eleição, um deputado saiu na comunidade apertando a mão de todo mundo e fazendo promessas. Prometeu até encher o bucho da meninada – só assim eles ensaiavam.
Como a foca faz seu número depois de engolir o peixe, davam uma mordida no pão-recife e corriam para ensaiar cada ato da peça. Para o final, de tristeza e melancolia, com Jesus na cruz, as beatas precisavam esconder os pães e o suco de limão. Só assim conseguiriam a expressão dramática em atores e figurantes. Cícero, que fazia Jesus, não tinha tanta fome, mas era o autor da mais espetacular expressão de sofrimento. Parecia sentir todas as dores do mundo, se contorcendo. Mas tudo aquilo era medo de altura. A cruz foi montada numa carnaubeira, deixando-o a dois metros do chão. Cada ensaio era um sofrimento, subindo e descendo daquela cruz. “Que bom que Jesus só precisou subir uma vez”.
Além de comer, Cícero gostava de pensar. Tinha vontade de mudar o mundo. Era o mais velho da turma. Já pensou em ser bandido respeitado, mas viu que lucrava mais sendo político. “Talvez”.
No dia da apresentação, a meninada estava nervosa. Toda a comunidade estava lá. O prefeito, que prometeu presença, não foi, mas disseram que estava representado pelo vigilante da prefeitura, que é da própria comunidade. As beatas esconderam os pães, suco de limão e, para terem certeza de que fariam direito, deixaram as crianças o dia inteiro sem comer. “A comilança é só depois da Ressurreição”. Ninguém queria mais que Jesus ressuscitasse do que aqueles garotos.
Jesus nasceu, cresceu, peregrinou, ensinou, profetizou, foi traído, padeceu, foi crucificado, e lá estava Cícero pendurado na cruz no pé de carnaúba. Mas já estava tão acostumado com o sobe e desce nos ensaios que não tinha mais medo. Portanto, não sofria, só olhava para a multidão. Tentava encontrar a mãe. O pai não, que este a traiu com outra e foi embora. Então, pensou como é chato ser traído. Lembrou-se de Judas, que teria traído Jesus ‘só para se dar bem, ganhar umas moedinhas de ouro, coisa e tal...’. E tudo através de um beijo. Jesus se deu mal, assim como o povo da comunidade, que tem na vida miserável a sua cruz. As dores estão menos no corpo e mais na consciência, que tanto espera por promessas não cumpridas. “Ninguém devia passar fome”, pensa.
E pensou no deputado, que encheu (enchia) a comunidade de promessas, e os meninos de comida. Foram tomados pelo estômago e pela esperança inconsciente, a que se eterniza em todo sertanejo.
“Fomos traídos”. E tudo através de um aperto de mão. Foram traídos, assim como Jesus.
Agora, embora sem medo da altura, Cícero, na cruz, chora inconsolavelmente. Chora até no ato da Ressurreição. Pensava em toda a comunidade, que tem na miséria a sua cruz, na morte o irremediável; e na ressurreição a esperança de, qual Jesus, viver num mundo melhor do que esse. Viver.





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