
Não tinha mais o que esperar de um sábado à noite, após presenciar a folia carnavalesca do povo nas ruas de Limoeiro entoando as antigas (?) marchinhas de carnaval comandadas pelo bloco “Balançando Limoeiro” e sua bandinha, de sopro e percussão, “Buchada da Adélia”. Em todos os sábados até o carnaval e do jeito que está, chinela ou sapato, a multidão se mistura e condensa, vigiada pelos bonecos gigantes de braços errantes, numa certeza de felicidade.
Todos os anos, a principal “turnê” da Buchada da Adélia é percorrer as principais ruas de Limoeiro nos cinco sábados que antecedem o carnaval. Juntamente com alguns traços resistentes da arquitetura do século passado, forma-se nas ruas um verdadeiro ambiente de resgate à cultura dos antigos carnavais de rua. Do “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, ao “Mamãe eu Quero” de Jararaca e Vicente Paiva, a banda passa em ritmo de frevo, marchinha e samba, levando os foliões pelas ruas de antigamente. O momento epifânico se dá na interação popular: nas ruas por onde passa, o bloco “arrasta” quem está nas calçadas, janelas das casas, ou “só passando”, pessoas entregues à alegria pacífica. Em minutos, a multidão se multiplica. Em poucos momentos dessa vida, vêem-se tão pequenas crianças e tão velhos adultos num baticum noite a dentro, brilhando mais que confete.
O Bloco Balançando Limoeiro representa resistência ao arrefecimento do tradicional carnaval de rua, que na década de 80 movimentava a cidade com os - mais irmãos que rivais - blocos Jaguar e Vira Copos. Na época, de confetes a carros alegóricos, passando pelos versos de Nelson Ferreira e Chiquinha Gonzaga, coloriam o carnaval popular de Limoeiro do Norte.
O nome da bandinha “Buchada da Adélia" se deve à primeira homenageada do bloco Balançando Limoeiro, D. Adélia, dona de uma antiga lanchonete que servia caldo e pratos como paneladas e buchadas para os “ressacados” do carnaval de outros tempos. O bloco e sua bandinha sempre homenageiam um personagem popular do município. Pegam pessoas comuns, humildes, que sabem que nunca seriam homenageadas na cidade, pois não são, ou foram, autoridades nem detentoras do ‘status’, mas que têm importante papel na história de Limoeiro. O homenageado deste ano é o senhor José Mendes, de 75 anos, mestre de obras aposentado, que organizava blocos carnavalescos nos anos 70. “Estou emocionado e feliz. Isso serve de exemplo para os jovens, essa união de alegria e cultura em alto nível”. A aposentada Margarida Costa, de 65 anos, amiga de Seu Zé Mendes, conta que, “quando era moça, tinha que sair escondida por que meu pai não deixava brincar o carnaval na rua”. Hoje, continua não perdendo uma noite na folia da Buchada, e pula “até não querer mais”. E ela só não quer mesmo quando a banda pára, já meia-noite.
A bandinha Buchada da Adélia promove, no primeiro e último dias do carnaval, o famoso baile da buchada, numa peixada da cidade, reunindo dezenas de foliões. Aliando diversão a solidariedade, nesses dias saem entoando as marchinhas no comércio central, em busca de alimentos para doarem à D. Adélia, senhora humilde, porém famosa, que dá o nome à banda. Em seus 80 anos de idade, pouca instrução e vida difícil pela carência de recursos, a antiga senhora não fica abandonada, pois na medida em que a Buchada da Adélia resgata o antigo carnaval popular de rua, respeita as pessoas que àquela época faziam o carnaval ser lembrado para hoje, a exemplo da Adélia da Buchada.
Motivado pela “alegria sincera” que rege a buchada da Adélia e a multidão que ela arrasta, pela primeira vez participei bloco a dentro. E em contraponto à alegria made in álcool dos outros em outros eventos, pude observar nos foliões uma alegria real, eufórica, autêntica, tão espontânea quanto a felicidade.












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