Blog do Mel - Entre e acomode-se


05/01/2006


Ano da hipocrisia e contradição

O penúltimo ano do governo Lula acabou, mas estão longe de acabar os relatos e peripécias políticas envolvendo governo, muro e oposição. 2005 foi o ano da hipocrisia. De um lado, o Partido dos Trabalhadores, representante-mor da oposição aos ditames liberais da direita. Eis que o partido chega ao poder, e as articulações dos bastidores todos sabemos, menos Lula. Mas na cadeira do poder, o PT descobre que a política não pode ser feita por anjos, que pensavam ser. É feita por homens. E lula afirmava: “Não posso errar”. Não devia nem deve, mas errou feio. Entendeu que para conseguir governar “precisava” das tais articulações esdrúxulas, como com o Roberto Jéferson (que comandava a propinada nos correios e a quem temos a desonra de dever a “descoberta” do mensalão). De dia, o PT almoça com Deus; à noite, janta com o diabo. Que anjo é esse?

Do outro lado, está a oposição ultra conservadora de direita, fazendo declarações exigindo moral, ética (lembrando-nos o PT de antigamente) como se antes do governo Lula estivessem os doutores da verdade possível, quando, na verdade, o PT só não foi mais igual ao anterior no profissionalismo da corrupção maliciosa, mensalonária, logo descoberta. E o mensalão, espécime mais conhecido, emblemático, de propina no Brasil, era o mote que faltava. Foi a pauta do ano passado, que a oposição bravamente condenou. Projetos e reformas importantes deixaram de ser votados por conta das discussões entre pingados 20, 30 deputados, numa câmara de mais de 500, em que não é a quantidade, mas o nome, quem tem vez. A Câmara dos Deputados se resumia aos comentaristas do mensalão, como Artur Virgílio e o garotão ACM Neto, político de laboratório, filho do mais tradicional curral eleitoral baiano. Em seus depoimentos, é a virtude em pessoa.

Não há argumento político de honestidade maior que condenar o mensalão e as corruptivas do Governo Lula. E, de fato, quem é doido de não fazê-lo? O povo está estarrecido, sem lembrar que o mensalão é a extensão da compra de voto iniciada com o seu aval em período eleitoral. Falando em povo, bom lembrar que 2005 não foi só o ano da hipocrisia política, mas da contradição popular. Fazendo uma média das pesquisas realizadas até novembro último, a grande maioria dos eleitores entrevistados condenam o mensalão e nepotismo, mas cerca de metade deles admitem dar preferência a parentes, caso tivessem o poder para nomeação. Se somarmos aos que tiveram vergonha de admitir, a farra estaria feita. Igual a hoje. Condenam o tráfico de influência, mas também são capazes de empregar parentes em prefeitura, por exemplo, se tiverem (se não o poder), pelo menos, um mínimo de influência.

Como a pauta política e jornalística do ano passado foi a corrupção, perderam vez e ficaram sem um destaque merecido outras coisas, tão relevantes quanto, que, queiram ou não, podem constituir avanços de um governo que errou feio e corrompeu-se, mas que não deve ser julgado com o pecaminoso maniqueísmo que inocenta e endeusa a direita volver brasileira: a inflação foi reduzida de 12,5% em 2002 para 5,7% em 2005; salário mínimo aumentado em 50%, contra uma inflação acumulada de 23%; dívida externa reduzida de US$210 bilhões para US$ 165 bilhões (a relação dívida/PIB caiu de 57,5% para 51%); juros básicos reduzidos de 25% para 18% ao ano (ainda altíssima); exportações aumentaram de US$60 bilhões em 2002 para US$ 118 bilhões em 2005 (crescimento de 96,7%); superávit comercial acumulado ultrapassa os US$ 102 bilhões (a diferença  recorde de US$45 bilhões a favor do Brasil, em 2005, foi o dobro do que esperava os economistas mais otimistas, e nos oito anos de Fernando Henrique houve déficit, acumulado em US$8,7 bilhões); a concentração de renda diminuiu quase nada, mas diminuiu: os 50% mais pobres detinham, em 2002, 13,2% da renda nacional -  em 2004, passaram a ter 14,1% da renda -, os 10% mais ricos tinham, em 2002, 46,4% da renda nacional, em 2002 passaram a ter 44,4%; a produção industrial aumentou cerca de 11%; a taxa de desemprego caiu de 12,2% em novembro de 2003 para 9,6% em novembro de 2005 (ainda assim, o PIB cresceu apenas 2,5%, valor menor que o de 2004, de 4,9%, que, por sua vez, foi o maior em mais de 10 anos; o IGP-M, índice usado, assim como o IGP-DI para reajustar os aluguéis, telefone e energia elétrica, fechou 2005 com a menor taxa da história –1,21%-, significando reajuste menor, em 2006, de luz, telefone, aluguel...

Não há qualquer intenção de vender o peixe do Lula ou desconversar sobre os problemas do nosso país, mas esclarecer uma parte que não tem cabido nas discussões eloqüentes da mídia e da politicada. Quando a principal arma do político é a retórica e o discurso de tabela, ganhando o debate somente mostrando as falhas do outro, mais uma vez a população sofre com as “meias verdades”. E o voto de protesto, do tipo não sei o que quero, mas sei o que não quero, pode levar o eleitor e o Brasil a mais anos de desilusão, em que a demagogia vence a esperança, e a indignação vence a sensatez.

Escrito por Melquiades Junior às 10h59
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