Blog do Mel - Entre e acomode-se


09/11/2005


Eu vi o Papai Noel

Não estou delirando ou infantilizando a decepção, quando criança, de saber que o Papai Noel não existia. O homem que em natais passados chamei arrogantemente de safado (não falava do próprio) existe e eu o vi, num acaso, numa coincidência. Ou não. Estava no cruzamento de duas movimentadas avenidas de Fortaleza, bem a caráter, e ao invés de dar presentes, pedia...Esmola. Com a arrecadação, ajuda a manter uma creche na periferia.

Com um rou rou rou desafinado e um sininho de barulho agudo, interrompi a caminhada noturna que fazia com algumas amigas para falar com este velhinho de barba (original, por sinal), barrigudo, baixinho, no meio do transito caótico da Fortaleza noturna. E com as famosas vestes vermelhas.

 - Papai Noel?

 - O próprio.

- Valha-me, São Nicolau.

- Este aí é outro, falecido aos 61 anos no século IV, na Turquia.

- E quem é o senhor?

 - Papai Noel!

 -E quem é o senhor, Papai Noel?

 - Enoch Mateus Alves da Silva. Pode fotografar!

Eu só parei mesmo porque estava com uma máquina fotográfica. Era a minha chance de registrar para a posteridade daquela noite o que tinha visto sem ser tomado por louco. Após ser fotografado, o velho me entregou uma cópia de documento registrado em cartório. Definia-se: “Faço o papel artístico de Papai Noel desde 1994. A minha mensagem de natal é inédita no mundo. Digo que natal não é só dezembro, mas o ano todo também é natal, que significa nascimento como o de Jesus e o seu, o nosso natal, e quando você ou alguém nasce, sempre é natal. Por esse motivo, resolvi profissionalizar o papel artístico de Papai Noel nos 365 dias de cada ano”.

Enoch ajuda a manter a alimentação das crianças de uma creche no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Em outros anos, aparecia de manhã e à tarde, mas com o sol causticante e a idade passando, fica cada vez mais difícil e, a exemplo do mitológico Noel, sai mais a noite. Divide espaço com os pedintes deficientes físicos e limpadores de vidros. Divide o encantamento das crianças com outro papai Noel, este cheiroso, arrumadinho, bem sentado em uma cadeira vermelha no shopping Benfica, logo em frente.

Agradeci a atenção e guardei o papel no bolso, para terminar de ler mais tarde. Rumei para o shopping com minhas amigas de caminhada. Chamei-me de burro por não ter tirado uma foto com o velho do sinal, digo, papai Noel. Na volta, só o transito de sempre. Tão rapidamente tinha ido embora.

Em casa, reabri o papel para continuar a leitura, tentar ver qual era a desse cara.

“Fui católico, agora sou Papai Noel “Budista”. Ex candidato a deputado federal na legenda do Partido dos Trabalhadores em 1988, com passagem pelo “Theatro”. Autor de 13 livros não publicados por falta de patrocinadores”.

E continua: “No budismo não existe céu ou inferno – que estão em nos mesmos, através de nossas boas e más ações, conforme a lei mística do universo de causas e efeitos das existências passadas, presentes e futuras de nossas vidas, pelo fato de sermos partículas do universo, pois de lá viemos e pra lá iremos voltar pós-morte-material.(...) A fome, doenças sem cura, você sem dinheiro para comprar remédios e alimentos, dívidas sem poder pagar formam o “Estado de Inferno”; você tendo o que desejar, nada faltando, a saúde, alegria de viver, é o “Estado de Céu”.

O que parecia simplório se mostra transcendental. Papai Noel é um brasileiro lutador, cheio de seus mitos, ideologias, mas que caiu na real muito antes de vários de nós, menos despretensiosos do que ele. No sobe e desce do vidro dos carros, o tilintar das moedinhas, o rou rou desafinado e o barulho agudo de um sininho dão conta de um papai mais Noel que os outros. E o que parecia só um encantamento de criança é, na verdade, reflexão para adulto.

Quem vir outrora Enoch da Silva, de vermelho e plumas brancas, oferte-o com moedas. Não é assistencialismo - não são para ele, mas para o estomago de crianças. Se não puder/quiser ajudá-lo, ajude a si próprio, tomando-o como exemplo de fuga da mesmice, do falso sentimento de solidariedade. E tome vergonha na cara para tentar mudar o mundo do qual tanta reclama. E nem precisa ser Papai Noel.

Escrito por Cuspido por mim às 23h41
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