Blog do Mel - Entre e acomode-se


02/11/2005


Em dia de Finados

Dizem os provérbios populares religioso-democratas que para o Céu (ou inferno) não levamos nada alem da alma – se eh que realmente vamos para algum lugar após a morte. Indignados e assoberbados com tanta ganância, ambição e desigualdade social, aprendemos que quando morremos a historia muda. Na morte, nada de dinheiro, jóias caras, roupas, não levamos nada. Do pobre ao rico, chão neles! Eh como se o cemitério fosse o verdadeiro eldorado, que une marxistas e tayloristas, beatas e agnósticas. Esta´ la, o símbolo da igualdade social – estão todos igualmente mortos, durinhos, ate que sejam igualmente comidos pelos micróbios e se resumam, igualmente, a pó, a nada. Que nada!

O que seria da morte se não fosse o legado ambicioso da vida, que mais desune pobres, ricos, ricos e pobres. Quem tem mais, vai querer ter mais ate´ na morte. Simbolicamente, isso comprova que o luxo, o poder, e´ um legado que vale por toda a eternidade. Quem duvida, que apresente um único cemitério brasileiro cujas covas tenham iguais tamanhos, lapides, coroas - e tudo o mais que se refira à memória póstuma dos finados.

Em dia de finados, uma ruma de pessoas visita seus entes queridos que já se foram, ou que pelo menos não mais “são”. Sepultura de pobre eh cova. De rico, eh tumulo. Alguns são constituídos de verdadeiros monumentos denotantes de apreço familiar. Lapide de um metro de largura por oitenta centímetros de altura, cheia de dizeres filosóficos eternizando o legado de poder e sabedoria do morto. As placas, caríssimas, têm fundo preto e letras douradas (nem precisa ser ouro, a idéia e´que vale), destacadas pelo triunfante “Aqui Jaz”.

Nos cemitérios brasileiros, já e´comum a venda ilegal de terras. Ate´ali, a concentração e´ gritante. Se quer ter maior espaço e puder pagar por isso, sacrificam-se as covas mais “simples”, que há anos não recebem convidados. No lugar, um buraco que vale por dois, e erga-se o castelo! Um tumulo semi-gotico (de fazer inveja a qualquer mendigo) bem desenhado, lapidado, trancado, descerrado por um belíssimo quadro da pessoa amada. Enquanto isso, outras covas que não medem sete palmos, demarcadas por uma simples cruz de madeira, cheia de “pretensão”: “Aqui jaz”.

O legado materialista eh ditado ateh na morte, e existira´ enquanto houver gente viva que veja quem “foi melhor” que outrem. No mês de outubro, no Piaui, um deputado morto teve seu pedido realizado: foi enterrado em pe´, na vertical.

- Não me curvei a ninguém na vida, não me curvarei na morte, teria dito.

Nessa vida e morte Severina, o ciclo se fecha como começou. Na demarcação de terras, na formação dos castelos (agora, em miniaturas), a sociedade caminha chão a dentro. E visitar um cemitério eh ver a pura e viva realidade, de que quando morremos levamos muita coisa ou nada, pelo menos simbolicamente - mas eh o que vale. Aos pobres, reserve-se o direito de uma cova “digna”. Não precisa ser cova grande, medida, nem larga ou funda. “E´a parte que lhes cabe deste latifúndio”. E no dia de finados, para não constrangermos in memorian, vistamos a melhor de nossas roupas e compremos a mais bela coroa de flores. Os mortos agradecem.

 

*Na imagem, túmulo de Napoleão Bonaparte

Escrito por Cuspido por mim às 16h13
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30/10/2005


De repente, de volta...

Muito mais que de repente, de segundos a horas. Acostumado a trabalhar sob pressão – do tempo, por excelência – o jovem repórter-editor, aprendiz de cronista, desejoso fotografo e candidato a escritor, diz não querer abraçar o mundo com as mãos, apenas abrir as mãos para o mundo. Mas vez por outra, se pega com os ponteiros do relógio em riste, alem do seu próprio, só mais uma vez reclamando do não-feito, dos trabalhos por fazer.

Andando alguns quinhentos quilômetros por semana, acha a vida cansativa, aquela mesma que escolheu e, com não raras correções, que pretende viver enquanto for vivo. Vivendo cerca de 18 horas por dia - nas outras esta inutilmente dormindo - por vezes zera o cronômetro, não para começar do zero, mas simplesmente não começar. Como tirar duas horas para assistir a duas aulas de ciência política, escrever uma reportagem de duas laudas, preparar algo para uma aula que tem que dar e ainda respirar e comer, contentando estomago e pulmão em intervalos compassados e iguais? Sem falar das imagens fotografadas a escolher, e daquela pesquisa inconclusa em prol da empreitada de escritor – esta escrevendo sobre um rio, de uma analise geofísica a antropológica-cultural. E tudo isso numa manha, todas as manhas, tardes e noites. E isso te da´ imenso prazer, um verdadeiro orgasmo laboral. E vai projetando mais tarefas, mais trabalhos, e mais, mais, mais...

- Não sei como agüenta, diz a mãe, todos ou algum conhecido desconhecido.

- Não sei como me agüentam, retruca.

Hoje, não mais acorda vagabundo, dorme trabalhador.

Insiste em enxergar o mundo fora de si, acima de si, mas ao lado dos outros (sonha-se democrático), a ponto de usar uma terceira pessoa (a terceira pessoa), na ilusão de ser dois ou imparcial. Tem um blog que, mesmo passada a euforia da novidade, insiste em alimentá-lo. Mesmo que de quando em muito pouca vez (bem menos do que queria). Quando se vê, esta na primeira pessoa, esperando a primeira pessoa ler... Para dizer que “voltei, desculpe a demora e os contratempos”, não de repente, mas de segundos a horas, “para alimentar o Blogdomel”, sem pretensão de abraçar o mundo, mas acenar para ele e/ou receber um abraço do tamanho do mundo. Dos ponteiros do relógio, ou do primeiro tolerante leitor que chegar a esta ultima linha...

Escrito por Cuspido por mim às 20h39
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