Faça o que digo, mas não o que faço”. Esse clichê da hipocrisia sempre esteve na moda, mas nada custa de vez em quando cutucá-lo, como forma de recriminá-lo, beirando à autocrítica. Refiro-me aos discursos que não passam dos discursos – e para isso não há exemplo melhor do que o político, esse semideus (ou semidiabo) da instituição religiosa chamada Estado. Em anos santos, sempre no mês de outubro, os eleitores (fiéis que são) fazem a procissão do voto pela prometida castidade dos nossos governantes. Estes prometem os céus, e garantem o Jardim do Éden particular. Nas conversas de horário comercial, não saem da pauta o mensalão, a corrupção, ou qualquer palavrão bem pomposo para criticar as misérias da vida e a politicada com e sem paletó. A estes, a instituição religiosa Estado vende as indulgências, que garantem uma vaga no paraíso fiscal... Ou ministerial. E os eleitores, fiéis que são, meio que pecando sempre, para variar, insistem no voto pelo mesmo meio, já que são os primeiros a receber o mensalão que tanto criticam. Enquanto isso, no purgatório, os severinos, maleditos e benditos posam de defensores da justiça “por um Brasil melhor”- sabe-se lá para quem. Severino Cavalcante renuncia, ou melhor, fazem questão de deixá-lo renunciar, para que o pobrezinho (só recebeu o mensalinho) não perdesse os direitos canônicos. Outro deputado, Valdemar Costa Neto, teve a “bravura” de renunciar, eu pensando que bravura seria rejeitar propina. E os sacristãos Jefferson e Dirceu, um de Judas e outro de judiado, fazem duelo entre bem e mal, mesmo sem saber quem é um e outro. Os tucanos, puritanos que são (que se redimiram dos pecados há três anos), tentam retomar o trono dos céus, para que reine a paz. O presidente Lula, representante de Deus da igreja Estado na terra, para delírio de sua onipotência, não viu, não sabe de nada, e tem raiva de quem sabe. Os eleitores, hereges que são, voltam-se contra o chefe da igreja, como se este mentisse, como se não fosse verdade que sempre foi assim. Lula sabe que o eleitor sabe que ele sabe, mas é preciso dizer que não, para não mudar o rumo da peça. E todos posamos de desentendidos, pois já faz parte do espetáculo. Complicado, mas é assim. Neste céu de anjos decaídos, combate-se corruptores e corrompidos, mas não a corrupção, que pode mudar de nome, até se chamar “salvação”. Em todo ano de procissão, a cena se repete. Na urna, o fiel paga a promessa, o eleito recebe a indulgência, com a regência do Estado, uma igreja cheia de santos do pau oco ou maciços de dinheiro, que é para garantir a vaga no céu (ou inferno, é só uma questão de ponto de vista). E a Constituição Federal, o livro dos livros, é um gibi do dog-mata, com uma letra morta que só não fede mais do que a hipocrisia do “faça o que digo...Finja que faço”. E de tempos em tempos, a procissão se repete. Do fiel ao Deus supremo, alguém será crucificado. Hoje, pode ser Deus. Amanhã, o Diabo. Amém!




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