
Não precisei ser romântico para me inspirar na lua. Não precisei me sentir um poeta para fazer da brisa a brasa romântica que aquecia o meu corpo. Ontem aconteceu uma breve prévia para o Luau Som das Águas, que adocica meu limão Limoeiro há vários anos. Não ia, mas fui e me encantei. De fato, era preciso mais imaginação do que um ambiente planejado poderia fazer. O ambiente, de ruste, parecia hostil – só parecia. Mas já era uma catálise das brabas o som das águas, como a lua cheia, cheia de inspiração. O vento frio, que passava em meandros pelas pessoas, chamava para um aconchego, um abraço apertado sob a trilha sonora “Ceciliana”, plagiada e depois adaptada pelo fenomenal Raimundo:
“Quando penso em você,
Fecho os olhos de saudade...”
E eu abria os olhos e olhava a lua à espreita, perfeita.
Era pau, era pedra no meio do caminho. A primeira, simbolizada num pé de oiticica, que em plena noite de quinta fazia de primeira a sombra da luz da lua; a segunda, segundo meus botões dramáticos, era o sentimento de solidão que o frio causava, este que logo desaparecia devido à companhia lua-eu-água-música numa perfeita harmonia. E é porque eu não ia: em casa, a minha rede eu não largava, dizia antes das 10 da noite. Mas daí à sede de não sair de perto daquelas águas barradas já passava de meia noite. As conversas, gargalhadas, o trânsito de pessoas entre uma mesa e outra não foram capazes de me perturbar o sonho acordado. Estava cansado do trabalho, acostumado e bitolado entre quatro paredes em resistir à idéia de ter a lua como cúmplice dos meus desejos. E a olhava à espreita, perfeita.
O coquetel me traçou um painel do que o Luau me produziria. Errei por, de início, não querer ir; acertei por me arrepender... De não ter ido mais cedo e voltado mais tarde. Pois me sentia aliviado, aconchegado e deslumbrado com o som das águas que, de um lado a outro, iam, na Barragem das Pedrinhas. A noite era mais fria. Eu sonhava acordado, feito um romântico, e não sabia. Não me sentia desacompanhado, já que o quarteto lua-eu-água-música era fantástico, porque tinha harmonia.
Fui ao pré-luar, mas eu não ia.
O violão poderia estar desafinado, a bebida quente e até a noite mais fria, que a brisa ainda era a brasa da chama romântica que me aquecia.
Eu continuava a olhar a lua, à espreita, perfeita.





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