Blog do Mel - Entre e acomode-se


22/07/2005


No mundo da Lua...

 

Não precisei ser romântico para me inspirar na lua. Não precisei me sentir um poeta para fazer da brisa a brasa romântica que aquecia o meu corpo. Ontem aconteceu uma breve prévia para o Luau Som das Águas, que adocica meu limão Limoeiro há vários anos. Não ia, mas fui e me encantei. De fato, era preciso mais imaginação do que um ambiente planejado poderia fazer. O ambiente, de ruste, parecia hostil – só parecia. Mas já era uma catálise das brabas o som das águas, como a lua cheia, cheia de inspiração. O vento frio, que passava em meandros pelas pessoas, chamava para um aconchego, um abraço apertado sob a trilha sonora “Ceciliana”, plagiada e depois adaptada pelo fenomenal Raimundo:

“Quando penso em você,

Fecho os olhos de saudade...”

E eu abria os olhos e olhava a lua à espreita, perfeita.

Era pau, era pedra no meio do caminho. A primeira, simbolizada num pé de oiticica, que em plena noite de quinta fazia de primeira a sombra da luz da lua; a segunda, segundo meus botões dramáticos, era o sentimento de solidão que o frio causava, este que logo desaparecia devido à companhia lua-eu-água-música numa perfeita harmonia. E é porque eu não ia: em casa, a minha rede eu não largava, dizia antes das 10 da noite. Mas daí à sede de não sair de perto daquelas águas barradas já passava de meia noite. As conversas, gargalhadas, o trânsito de pessoas entre uma mesa e outra não foram capazes de me perturbar o sonho acordado. Estava cansado do trabalho, acostumado e bitolado entre quatro paredes em resistir à idéia de ter a lua como cúmplice dos meus desejos. E a olhava à espreita, perfeita.

O coquetel me traçou um painel do que o Luau me produziria. Errei por, de início, não querer ir; acertei por me arrepender... De não ter ido mais cedo e voltado mais tarde. Pois me sentia aliviado, aconchegado e deslumbrado com o som das águas que, de um lado a outro, iam, na Barragem das Pedrinhas. A noite era mais fria. Eu sonhava acordado, feito um romântico, e não sabia. Não me sentia desacompanhado, já que o quarteto lua-eu-água-música era fantástico, porque tinha harmonia.

Fui ao pré-luar, mas eu não ia.

O violão poderia estar desafinado, a bebida quente e até a noite mais fria, que a brisa ainda era a brasa da chama romântica que me aquecia.

Eu continuava a olhar a lua, à espreita, perfeita.

Eu era feliz... E sabia

Escrito por Cuspido por mim às 12h00
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18/07/2005


Sem fonte luminosa ou de inspiração

 

Sob o sol escaldante da tarde de hoje, o trator, máquina mortífera, eliminou da face da terra a “fonte” que “adornava” a “praça” central em Limoeiro. Mais do que qualquer outra coisa, aquele monte de concreto era fonte de comentários os mais indiscretos possíveis. Dos diálogos político-partidários à sensatez, passando pelo surrealismo – segundo meus botões tendenciosos.

 

Que diabos é isso”, diziam. Primeiro foi pela “nova” praça, depois pela nova “fonte”.

Remanescente da fonte luminosa (essa sim, uma fonte) que enfeitava a antiga praça (essa sim, uma praça), o concreto redondo e ex-cuspidor de água não conseguiu ser o mínimo de fonte nem de inspiração para os românticos. Nada de uma foto errante de um casal de namorados, tampouco a alegria de uma criança ao ver a água colorida subir - pelo contrário, os pais tinham medo de que os moleques se aproximassem da cratera cerâmica de fios e canos à mostra em pleno espaço-única-alternativa de lazer noturno. Nada de jogar moedas na água e tentar a sorte. Aquilo mais parecia “pé-frio”. Logo o que deveria surtir um efeito celestial, que une chuva e arco-íris (um anti-dilúvio).

 

A noção de uma fonte luminosa de brilho sobrenatural, como sugere a idéia da própria razão moderna, relembra a descrição do reino dos céus transfundido pela flama divina. Nada disso. Nem de longe se vislumbrou uma intenção nem minimamente de entretenimento. Apenas deveria existir ali (toda praça que se preze tem).

Em se tratando de praça de Interior, o comportamento humano, por vezes mundano, fez das praças que já existiram nesta cidade um efeito menos cultural e mais histórico: ao invés dos galanteios líricos frente às águas saltitantes, é bem verdade que a boemia filha das tradicionais famílias banhava-se nas águas da fonte luminosa, bêbados que estavam os festeiros na volta para casa. Mudando de século, status, mas não de fonte, teve um gentil vigilante para aquelas bandas que me disse ter flagrado cenas de sexo nas águas da antiga luminosa, lá pelas 3 da madrugada, quando a água em lançamento oblíquo dava lugar a outras ascensões, também de lançamentos oblíquos.

 

A nova ex-fonte foi eliminada e, com ela, qualquer intenção arquitetônica incoerente. Será? Não seria mais viável que fosse reformada? Não haveria arquiteto descente para isso? Diz-se que dará espaço às pessoas que por lá transitarão em importante evento do próximo mês. Digo que mais uma vez o dinheiro público (portanto meu também, daí me sentir no direito de falar) foi jogado para cima e esvaiu-se por água a baixo. Primeiro naquela construção, depois na demolição. Ao final, erra-se do mesmo jeito, pois mais do que uma fonte luminosa, faltou fonte de inspiração que iluminasse os nossos comandantes, que, feito o povo, cospem para cima.

Melquíades Júnior

Escrito por Cuspido por mim às 22h42
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