
“Tem dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu...”. Chico já deve ter passado por isso: um estado letárgico, litúrgico ou, como disse um deputado corrupto (o que hoje em dia é quase redundante), de “inércia psicossomática”. Sem muito palavreado, um estado de “vagabundagem adquirida”, de não fazer nada mais do que nada. De sentir-se só e não estar nem aí com isso, quando nada mais do que tudo é difícil de realizar. Nada de pessimismo nem baixa auto estima – é possível ser vagabundo sem melancolia, na boemia ou nem isso tudo. Mas hoje acordei dormindo, numa vontade involutária de me esquecer, de esquecer e ser esquecido. O mundo deveria parar ali mesmo, até segunda ordem. Para uns, isso é depressão, para outros, metafísica pura, mas não precisa ser nada; aliás, quem disse que o é?
O galo canta no despertador do celular, a luz na cara evidencia o dia, nem ao menos um segundo de silencio na rua para que pudesse achar que ainda não seriam seis (quando doze) da manhã. Cancele-se tudo que ainda nem foi agendado, dizia sectário, como se alguém estivesse por mim. Não tenho problema algum, ou tenho tantos que não posso me preocupar. A vida não precisa estar boa nem ruim, não precisa estar. Pelo menos por hoje...
Tem dias que a gente não sente...
Partir e morrer podem ser sinônimos ou antônimos: morrer, como quem parte dessa para melhor (ou pior, nunca se sabe); já partir pode ser um alívio para mim, e eu morrer tranquilidade para os outros, mas não precisa de tudo isso. Hoje acordei e pronto. Não preciso levantar, olhar a cara inchada no espelho, olhar para onde as muriçocas me sugaram desta vez, ver a espinha do dia, tirar as remelas dos olhos, coçar o saco que não coça ou pura e simplesmente me dar um bom dia. Que ninguém me veja ou procure, espere, ou conte comigo. Que ninguém me encontre. É preciso não me amar, tampouco odiar, pois não preciso. Pelo menos por hoje...
Estou com sono e assim quero ficar, quero dormir e assim muito tempo sonhar, só e somente. Quero ficar no meu lugar - como este texto, que não vai a lugar algum - sem alta ou baixa estima, pois não preciso de tudo isso. Tudo o que quero é não ter nada para fazer, nem dizer. Nem com o que me preocupar. Que a porta se feche e o dia anoiteça, que até isso pouco importa. Hoje, não.
É que hoje acordei vagabundo...
Melquíades Júnior