
Segunda-feira, 27 de junho, 10 horas da manhã. Na Folha, estamos fechando edição, ainda na dúvida sobre o que entrar e/ou ser capa. Ainda com o café da manhã de havia duas horas, meu estômago já roncava. Ligo o rádio (quase sempre o primeiro a saber de tudo) para ver o que tirar de proveito.
-Atenção Tabuleiro... Atenção Povo de Tabuleiro!
Parecia coisa de filme - em que os mocinhos ligam o rádio exatamente no momento em que se anuncia a procura de algum abominável homem dos asfaltos, mas aconteceu.
Era o radialista, anunciando um fato que só tem desfecho mais de 10 horas depois, quando já era noite: “A polícia acaba de encontrar um corpo enterrado em uma casa”.
Sem muito rodeio e com muita fome, deixei imediatamente tudo o que estava fazendo, corri atrás da matéria, atrás da polícia. De Limoeiro sigo rumo a Tabuleiro do Norte, da morte. O tal corpo ficava em um tal quintal dentro de uma tal casa bem no centro da cidade. Local interditado, apresento-me como repórter. De início, não me deixaram tirar foto até que a perícia chegasse, o que só ocorreu cinco horas depois. Mas já se via a arcada dentária humana na boquinha de um buraco iniciado. Alguém estava lá.
Multidão na porta, quando saio na calçada todos me olham. “Ele viu, ele viu”, devem ter dito. Eu os via, eles me viam; e os policiais viam TV na sala da casa da vítima – não tinham nada a fazer a não ser esperar a tal da perícia chegar. Estrelando em Sessão da Tarde estava Roberto Benini, em “A vida é Bela”, que ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro desbancando “Central do Brasil” num ano desses. Enquanto isso, o centro da cidade formigava.
Enquanto ninguém chegava, comecei a redigir a matéria que deveria estampar os jornais do dia seguinte. Procurava (e não encontrava) certa frieza e palavras para descrever o que dois irmãos tinham feito: matado por asfixia em Fortaleza um homem de 27 anos, arrancado-lhe a cabeça, esquartejado todo o corpo, retirado o sangue e as vísceras para transportá-lo, sem chamar atenção, ensacado num bagageiro de ônibus numa caixa de computador e, chegando em Tabuleiro, enterrá-lo no quintal de casa. Meu estômago ainda remoia. Primeiro era fome, depois foi nojo. Estava diante de um ato macabro.
A Vida é Bela já chegava ao final, quando os nazistas eram aniquilados e o menino judeu que sobrava encantava-se diante de um tanque de guerra – “brinquedão”. Enfim, aparece a perícia e, com a equipe, um dos irmãos que já havia confessado o crime. Diante do “buraco da maldade” (aqui usado em sentido literal mesmo), Jardiê confessava e minimizava sua participação no crime do qual seria mais culpado o irmão, Jarliel: “Me senti foi mal quando comecei a cavar o buraco, sempre tive a vida limpa, não sou disso”, alegou. Fiz perguntas incisivas ao meliante, que me olhava incisivo. Motivo do crime: 300 reais restantes de outros 2500 emprestados pela vítima aos irmãos.
A narração do réu primário é acompanhada ao fundo pelo trabalho dos policiais. A fedentina toma de conta do local quando a escavação recomeça e a ossada é retirada. De olhos quase fechados, o policial militar puxava, com uma enxada, a cabeça da vítima, ainda ensangüentada, mas completamente desfigurada. Daí seguiram o fêmur e ossos menores, alguns sem carne alguma, outros até pingavam sangue. Já era noite e as muriçocas não deixavam ninguém quieto, ansiosas pelo “banquete” escondido.
A “monotonia” impera até a retirada total da ossada... E de todos.
Saio com a sensação (e só isso) do dever de repórter cumprido, mas não de ser humano. Tentava, mas não compreendia o que levava dois homens a matarem (e dessa maneira) outro. Loucos? Acho que não. Cruéis. Mesmo como futuro cientista social que pretendo ser, não enxergo nenhum discurso social que justifique (talvez explique) tal atitude. Os crimes macabros deixam de ser cada vez menos atos isolados. Hobbes não imaginaria que em pleno século XXI o homem fosse tão literalmente “lobo do homem”. A esse fato, seguem-se outros casos, separados apenas por alguns quilômetros e horas, de pessoas mortas ao fogo, outra a machadadas na cabeça e ocultada na fossa de casa, etc...
...E o fosso da maldade se aprofunda, e dignidade e amor ao próximo são cada vez mais raros, talvez enterrados em algum buraco a sete palmos... Ou numa fossa de lama e muita merda.
É meia noite quando chego em casa. Não sinto mais fome.