Eles são antigos representantes da cultura popular. Seja com o talo da carnaúba, o barro, a matéria rústica do coco seco ou com as figuras folclóricas, carregam no tempo a tradição que vem passada de geração em geração. De origem e, provavelmente, fim muito humildes, resistem ao tempo, ao sol, à seca, às intempéries do destino, na luta de transformar a matéria bruta em arte, ou mais exatamente arte-sobrevivência. Disputando o título de Mestres da Cultura Popular do Estado do Ceará, seis artistas populares de Limoeiro do Norte buscam o reconhecimento de sua arte, com a chance de não só serem como sentirem-se Mestres da Cultura Popular. Em 2004, o concurso premiou a artesã limoeirense Lúcia Pequeno. Para o município, a chance de novamente representar o Vale do Jaguaribe, considerado um oásis de cultura.
Falta muito pouco para sair resultado do concurso Mestres da Cultura Tradicional Popular do Ceará, que desde o ano passado homenageia 12 mestres no Estado. Ontem estive conversando com fortes candidatos: Seu Brota e dona Maria dos Macacos. Em cada um, a esperança. Não necessariamente de “aparecer” na mídia, óbvia conseqüência. Pode nos parecer triste, até constrangedor, mas a melhor (principal) parte da premiação será o salário mínimo, mas vitalício. Trezentos reais que ajude a melhorar a agonizante vida desses sofridos sertanejos. Eles não querem fama, luxo, riqueza, poder. Eles só querem reconhecimento, que principalmente se reflita no auxílio financeiro, pois são muito pobres. Entre os candidatos não há concorrência, mas a maior prova de humildade: “eu quero muito ganhar este prêmio, mas se apenas um do município for escolhido, quero que seja Seu Brota, pois precisa mais que eu, que já tenho filhos que me ajudam, e ele é sozinho para sustentar a família só do ganho de sua arte”. O honroso comentário foi da dona Maria dos Macacos, concorrente ao título. Seus olhos brilham de ansiedade quando fala do concurso. “Melquíades vá lá em casa, você precisa ver a gente fazendo os trabalhos para colocar no seu jornal”. Terei sim, um imenso prazer!
A saga de dona Maria dos macacos
Com uma matéria prima um pouco mais peculiar que as outras, o coco seco, a popular Maria dos Macacos recebe no nome o principal personagem de sua transformação da rústica matéria bruta do coco seco. Os macacos de dona Maria ganharam repercussão em todo o Estado. Usando a criatividade, a artesã molda a natureza morta não só na fisionomia animal como também preocupa-se com as expressões corporais e faciais dos mesmos, daí a originalidade de sua obra. Para conseguir tirar o sustento da família, leva marido e filhos à capital para divulgarem sua arte nas feirinhas livres. Dona de uma técnica invejável, personaliza cada obra, com macacos namorando, bebendo em mesa de bar, ou tocando tambor. A “brincadeira”, que começou há 29 anos, rendeu a Maria dos Macacos o respeito e a admiração da comunidade artística de Limoeiro do Norte.
Seu Brota e seus talos - Arte-sobrevivência
Em todos os artesãos, é comum o uso de matéria prima local e tipicamente nordestina, dessas que se encontra na “porta de casa”. É o que faz o limoeirense João Brota da Silva, o Mestre Brota, que transforma o talo da carnaubeira, palmeira bastante encontrada no Vale do Jaguaribe, em arte. As obras vão do utensílio doméstico, como os baús, muito usados para se guardarem relíquias de família, às cestas, jarros ornamentais. Desde os 14 anos seguindo os passos do pai, hoje, com 49, Seu Brota não cansou da rotina semanal: ir ao carnaubal, colher os talos da árvore, coloca-los de molho para amolecer, e dar seqüência aos cortes e montagens que se transformam em vistosos artefatos de madeira. Para agregar valor à obra, busca diferentes modelos de objetos, todos ao final envernizados, realçando o brilho do produto. A vida de Mestre Brota não é muito diferente dos outros artesãos no quesito resistência: “as peças são vendidas muito baratas, se a gente cobrar um pouco mais ninguém compra, tenho que rodar feiras de vários municípios por conta própria, em minha bicicleta, enfrentando muitas dificuldades, mas só assim posso dar de comer a minha família”, diz o artesão, casado e pai de uma filha portadora de deficiência física. Com 36 anos de serviços prestados, o artesão lamenta nunca ter tido o devido reconhecimento.
ALÉM DESTES, HÁ OUTROS BELÍSSIMOS TRABALHOS E SEUS AUTORES, TAMBÉM CANDIDATOS A MESTRES...QUE JÁ SÃO. TORÇO POR TODOS, PREMIADOS QUE SEJAM PELA VIDA...