Tinha merda no meio do caminho. Isso mesmo, sem rodeios - merda, bosta, cocô, caca, etc. Carlos Drummond teve sorte quando disse que tinha uma pedra no meio do caminho. Se pisasse ou chutasse a pedra...nada mais que uma dorzinha física teria... Mas o que ele diria de merda no meio do caminho, ou melhor, bem no meio da calçada? Nenhuma sinestesia seria suficiente para descrever a "beleza daquele fedor". A situação é verídica, rotineira e das mais deprimentes...
Como tudo começa _ No bairro de fátima, onde moro em Fortaleza, todos os dias cedo as madames descamisoladas e senhores e suas sandalhas de couro passeiam alegremente pelas calçadas ao redor de seus respectivos condomínios. Pequenos, grandes, peludos, pelados..pretos, brancos, marrons, de todas as cores e tamanhos e raças os caninos transitam encoleirados...forçosamente aconpanhados pelos donos. Mesmo amarrados, é o momento de glória destes "amigos" do homem. Passar o dia preso em um apartamento ninguém merece, ainda mais ter que fazer todas as necessidades em poucos centímetros quadrados. Portanto, a calçada é o momento de libertação..e libertinagem também. Os infelizes caninos param de repente. Com as patas de ponta erguem-se em vertical e dão uma ligeira ré...é o excremento que anuncia a chegada. Do chão não passa, nem sai. O dono olha como quem não vê e, bem naturalmente aguarda o fim do serviço. Em seguida, a caminhada continua, como nunca que tivesse parado.
Para variar, as calçadas do bairro ficam impregnadas de...merda no meio do caminho. Ao sair de casa, só me resta andar de cabeça baixa, desviando-me da merdinha da merda -ow shit!.
Mas não pensem que nunca pisei na m... Dia desses estava em um cibercafé com uma malcheirosa sensação. Cheguei a ponto de levantar-me e examinar a cadeira em que estava sentado - bem, alguém poderia nao ter tido tempo suficiente de se levantar para o banheiro e ainda tivesse manchado a linda cadeira. Olhei para os lados, como quem quer encontrar o engraçadinho que peidou e fazer expressão de desgostoso. Para não encumpridar mais, o momento epifânico veio quando saí do cyber e percebi que a catinga (isso, bem nordestino) me acompanhava. Levantei o pé, examinei o solado da sandalha. Lá estava um excremento amarronzado piscando o olho pra mim... tudo porque no meio da calçada tinha merda...tinha merda no meio da calçada. Que merda!!!




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