
"Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei"

"Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei"
João, 33, analfabeto, casado, pedreiro desde criança, dá última colherada de massa na parede do prédio que está construindo com mais 11 trabalhadores, todos pais de família. Sexta não trabalha. É pecado. É sexta-feira santa. Ele não era de ir à missa ou rezar em casa, até não concordava com algumas coisas que diziam de “Nosso Sinhô”. Mas tinha coisas que respeitava e sexta-feira santa é dia em que comer carne só se for de peixe e a bebida “sagrada” é o vinho.
Amanhecido o dia, beijo na filha, na mulher. Disse que botasse o feijão e o pirão no fogo que não demorava. Para a filha, traria um “negócio”, ou melhor, um ovo de páscoa - e ovo de páscoa de verdade tem que ser de chocolate, não o de granja cozido e pintado em guache do ano passado.
Desceu morro abaixo, com o cuidado de não escorregar no chão molhado pela chuva (a vizinha, coitada, já havia caído e quebrado o braço, o baço, a clavícula...).
- João!
Era Pedro, pedreiro e amigo de prosa, farra, trabalho.
João acena, para dizer que ouviu. O sorriso no rosto: estava chegando no Bar da Ressurreição (o cara cai de porre, mas no dia seguinte tá vivo em folha). Com João, eram 13 homens. Comeram muitos tucunarés bem assados e beberam vinho, muito vinho. Até não querer mais. Não tinham mais contas de quantas garrafas. “Sangue de Cristo tá no ponto”, já disse Pedro.
Ficava tarde. Era 15 horas, 8 de bebedeira. João estava bêbado (o vinho estava muito bom).
- Minha mulher, macho!
Era o resmungo de João, trôpego nas palavras, como se só agora lembrasse que já devia estar em casa.
-Hora dessa negão deve tá lá, ironiza Pedro.
- Tu tá vascilando doido? Minha mulher num é vadia como a sua não.
Pronto. Foi o suficiente para os ânimos se exaltarem.
E João pega a Dom Bosco, quebra uma, duas, três vezes...até só ficar o gargalo da garrafa.
15 segundos bastam para João esquecer a amizade e cravar o vidro da garrafa de vinho no rosto de Pedro, caído, ainda negando ter dito qualquer coisa.
Sangue e vinho se confundem...
- Quer saber? ‘Deixtar’ seu filho de uma égua.
Assim João despediu-se e bateu em disparada. Queria ir para casa.
A avenida que atravessara manhã cedo parecia mais larga – quase sem fim. Tudo girava a seu redor.
Pausa no meio da rua - as pernas tremiam.
De repente, não mais que de repente, pessoas na calçada começaram a gritar em aceno a João. Totalmente sem noção, ordenou:
- vão pra puta que pari...
Não deu nem tempo de fechar a boca. Foi colhido por um caminhão.
Logo um enxame humano se formou ao seu redor.
E João, 33, pedreiro, pai de família, morreu de braços abertos. No meio da rua. E assim ficou por muitas horas, até que o rabecão apareceu. E João desapareceu. Para sempre.
Que Dom é esse? - Salvem a estatuazinha - vândalos não deixam estátua zoiar

Vida de homenageado póstumo não é fácil. Todos os dias em pé, sem descansar um só momento, vigiando a avenida que tem seu nome, a estátua de Dom Aureliano Matos está sendo judiada. Depois de antigas pichações e depredações, ter passado por por retoques de maquiagem, a imagem do primeiro bispo de Limoeiro não pode mais ver quem passa. Seus humildes óculos foram retirados do lugar. Alguns até disseram que não precisava mais, a estátua já usava lentes de contato (oferecidas pelas inúmeras óticas da avenida) mas não conseguia se livrar dos seculares óculos, bem fora da moda. Já estava entediada e queria alguém para arrancar-lhe a breguice. Outros disseram que o bispo estaria cansado de ver o trânsito desorganizado, com mão dupla na altura do sinal, oficializando local das quedinhas de Bis. "Aff...chega", dizem que disse.
Mas não, o pobre velhinho foi atacado pelos vândalos. O pior será quando os óculos sairem de vez. Aí que a depredação estará feita. Eles ainda não têm coragem de bater em estátua de óculos...
Semana Santa X Semana Profana: Polícia prende, justiça solta
Beba vinho e solte a franga!!!
Estamos na semana Santa, santa semana! Infelizmente não tão diferente das outras, a não ser a ocorrencia do "feriadão". Aliás, tem gente que só pensa mesmo e vê a perspectiva de feriadão, nem importando tanto o período sacro. Tá certo que o período litúrgico vale para os católicos, mas é desses mesmo que estou falando. POis muitos, desengajados em termos cristãos, nada vêem de melhor que não seja o feriado - muito vinho no "bucho". E a semana começa dramática por essas bandas em que me encontro, com direito a decisões intrigantes. Para entender melhor basta citar um assassinato na madrugada de domingo para segunda última. Após bebedeira, marido e mulher discutem e a moça, de apenas 24 anos enfia uma faca no peito do marido, este que andou por segundos até tombar sem vida. Ela, fugiu matagal adentro, sendo capturada um dia depois, por soldados militares. Até aí, tudo normal, poderíamos pensar, afinal infelizmente isso acontece todo dia. Mas a coisa não pára por aí. A assassina, de nome Cícera e que de romeira não tem nada, confessa à polícia que matou o companheiro e pronto. Alegou que sofria agressões do marido, borracheiro no centro da cidade.
Um dia depois de capturada, suja e enlamada pela fuga, Cícera foi liberada por ordem judicial. Voltou para casa, como se nada tivesse acontecido. A polícia prendeu e a justiça soltou. Dentre as alegativas, é réu confesso, não tem antecedentes e tem residencia fixa no Sítio Ilha, aqui em Limoeiro.
Leigo que sou, só tenho a estranhar e pelo menos à primeira vista me indignar com tal decisão da Justiça. Ora, isso abre precedente, por que não, para que outras pessoas que queiram se livrar de alguém fazerem o mesmo. Basta que nao tenha antecedentes, tenha confessado o crime e tenha residencia fixa.
Enquanto isso, na delegacia de Limoeiro morfam, justamente ou não, dezenas de presos, alguns com furtos mas sem homicídios na ficha criminal. No caso acima, quem poderá prever uma suposta vingança por parte da família da vítima, o borracheiro?
Na medida em que está em liberdade, a própria assassina confessa está sujeita às indignações da família do borracheiro. Afinal, a quem a justiça quer proteger?
São decisões como essa, em que mesmo a polícia fica atônita - o Major Tibúrcio ficou desanimado com a decisão - que a justiça é desacreditada. E os policiais também. Tanto é que quem está na linha de batalha, até mesmo da opinião pública é a polícia militar. Se a cidade está violenta, é culpa da polícia - dizem. Mas quando a polícia prende a justiça solta. A verdade é que a liberação de pessoas que praticaram crimes fatais, e que por sua vez já demonstram a incapacidade de resolver conflitos sem ter de tirar a vida de outrém, abre precedentes para, se não aumentar, manter o nível de violencia e desordem em que está o nosso mundo.
Em plena semana santa, só resta orar e confessar a Deus os meus pecados, vai que sou perdoado também, não é?
"Perdoe-me Senhor, mas será que eles sabem o que fazem?!"
Confira a matéria no link abaixo
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=234655
Classificação: 
A comunidade do município de Quixeré encena Paixão de Cristo. Um espetáculo de fé, devoção, sofrimento cristão, em que a vida-morte-ressurreição é retratada na atmosfera religiosa que envolve o povo na história de Jesus Cristo. É dessa atmosfera cristã que mais de oito mil pessoas participam todos os anos no período da Semana Santa, através da encenação da Paixão de Cristo de Quixeré, Município a 198 km de Fortaleza.Confira matéria que fiz sobre o tema, para o Diário do Nordeste. Tudo de bom para os irmãos quixereenses e em especial o Antonio Melo, que tão bem me recebeu para a entrevista.


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