Desentender, para depois entender, ainda que nada seja de todo compreendido. Na dinâmica rotina, monotonia será só em pensar as mesmas coisas, sobre as mesmas pessoas e coisas - improvável. Quebra-se mitos, preconceitos e, de quebra, o dos outros. Foi mais ou menos o que aconteceu com meu anúncio: passarei uns dias numa aldeia indígena, fotografando, ouvindo os índios, escrevendo sobre suas reivindicações...
"E tem índios no Ceará?", ouvi diversas vezes. Só mudavam as vozes. Eu mesmo a proferi, anos atrás, antes das primeiras aulas de antropologia na faculdade - até porque raramente os jornais falavam de nossos índios. O segundo espanto alheio foi lá, quando anunciei aos índios que publicaria uma série de reportagem sobre eles.
Viajei para a Aldeia Cajueiro, em Poranga, sertão dos Inhamuns, divisa do Ceará com o Piauí. Não fosse o coletivo parar tanto, teriam sido oito, e não 12 horas de viagem até aquela cidade. Não fosse a estrada tão ruim e a ausência de transporte melhor, teria sido meia hora, e não duas horas e meia, nos últimos 38 quilômetros num pau-de-arara até a aldeia que leva o nome de uma frondosa árvore, em cuja sombra reuniram-se, como 14 anos atrás, centenas de índios de 13 etnias do Ceará, durante uma semana. Era a Assembléia Estadual dos Povos Indígenas.
Dormimos todos amontoados em redes ou finos colchões espalhados embaixo de árvores ou de galpões com estrutura suspeita. Terra dos índios tabajara e kalabaça. Nos primeiros dias, não havia água nem para suor, tamanha a sequidão em terra de um sol para cada cabeça. Uma vez no dia chegavam dois galões de água, para tanta gente beber. Quem tinha coragem, tomava banho com água enlameada de um pequeno córrego onde os bois matavam a sede.
Até aqui, nenhuma informação nova sobre a realidade da terra de caatinga e o sofrimento do sertanejo para conseguir água de beber - e qualquer dia será a grande agonia de todo brasileiro (ontem assisti ao lançamento "007 - quantum of solace", a primeira ficção arrasa-quarteirão que vi tratar do terrorismo em que água, mais que petróleo, é a carta do baralho vilanesco). É só o começo.
Os índios me surpreenderam com relatos de preconceito, luta, ameaças de morte, pelo fato de serem índios, mas também vi suas danças, suas alegrias, rituais e amores. Há séculos vivem em áreas hoje consideradas valiosas para os empresários nacionais e estrangeiros, como os litorais de Itapipoca e Itarema. Um deles quer implantar projeto para construir 14 resorts, 13 hotéis cinco estrelas, três campos de golfe e condomínios residenciais. Se o índio está naquela área, assegurada a eles pela Constituição Federal, única alternativa para expulsá-los é não reconhecê-los enquanto sua identidade indígena. É a luta dos Jenipapo-Kanindé, Anacé, Kariri, Pitaguary, Potiguara, Tabajara, Tapeba, Kalabaça, Tupiba/Tapuia e Tremembé e por aí vai...
A luta pela reafirmação da autenticidade étnica, a arte e a educação como formas de resistência, a briga na demarcação de terras e o desafio das novas gerações indígenas foram registrados na série de reportagens de quatro dias seguidos estampando a capa, numa maratona em que colhi documentos históricos, judiciais, ouvi antropólogos, lideranças indígenas, empresários, missionários indigenistas e organizações governamentais e não-governamentais. E algumas horas para fazer ensaio fotográfico para as quatro edições!
Só tenho que agradecer enormemente à dona Maria Amélia (Missão Tremembé), aos antropólogos Max, Joceny, Gerson e Sérgio, à amiga Bárbara Diniz, à outra amiga e cientista social Iana Soares, por algumas fotos, muitas informações e pela condescendência em eventuais deslizes; à potiguara Maria Germana, pelo colar de presente de semente de jatobá, que dá uma áurea antiinflamatória que vou considerar no meu tratamento dermatológico já cheio de coisa de farmácia. A maior gratidão aos movimentos indígenas, exemplo de luta e que me fazem sentir útil, nessas andanças de derrubada de mitos, quebra de preconceitos e tornam mais dinâmica minha boa e velha rotina.

Orações pedindo luz aos ancestrais (foto: Melquíades Júnior)
Ganhei um colar de índia Germana (direita) - (Fotos: Melquíades Júnior)
Joao Neto pinta o rosto com tinta da semante do jatobá (Foto: Melquíades Júnior)
O toré é a dança sagrada e alegre dos índios (foto: Melquíades Júnior)
Cacique Pequena, a primeira do Brasil (Foto: Melquíades Júnior)
Pajé Barbosa nas homenagens ao Pai Tupã (foto: Melquíades Júnior)























Leia este blog no seu celular