Blog do Mel - Entre e acomode-se


06/04/2008


Água em todos os sentidos

 

Açude castanhão com duas comportas abertas no dia 2 de abril

 

O ser humano tem uma relação obviamente intrínseca com a água. E nenhuma abundância é tão próxima quanto a chuva. O inverno – na verdade, verão chuvoso – que permeia o Ceará é o grande protagonista deste ano, enquanto não houver, ou quase isso, sol brilhando. O açude Castanhão está muito cheio. Sangrará? Arrombará? Já pensou o tanto de água invadindo cidades? Quando chove, e o céu esbraveja, é trovão. Outra enchente a la anos 80? Já disseram que quando a terra treme é um enorme dragão no subsolo tentando acordar. Para muitos, o Castanhão é só um monte de água. Para outros – falo dos mais puros sertanejos – é o que de mais vivo a natureza pode criar.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Garoto puxa barco no sítio Ilha, em Limoeiro (texto e foto: Melquíades Júnior)

 

A figura do nordestino sertanejo da zona rural é vista, pelos óculos do preconceito, como aquele sujeito analfabeto, pai ou mãe de muitos filhos, filho ou filha de pai nenhum, castigado pela ‘misère’ e, portanto, desprovido de maiores razões. Ele pode ser tudo isso, até desprovido de algum tipo de razão (a da tal ciência), mas nunca um ignorante. Existe algo maior que fé ou razão. E que pode explicar o universo que constitui a relação do sertanejo com água.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Barragem do Castanhão

 

Caro leitor, cara leitora, nada tão comum quanto a água nas bandas daí, e nas minhas bandas também, já que sempre tive água na torneira – embora minha mãe não possa dizer o mesmo de sua juventude. Mas “água muita”, para quem está acostumado a vê-la tão pouco, é motivo catalisador para o imaginário popular, que, qual nossa imaginação, felicita e amedronta. O sertanejo se permite imaginar o Castanhão, por exemplo, como um ser que de outro mundo passa para este e, em delírios prosopopéicos pode se comparar a um monstro, que, recentemente, acaba de acordar. Todos querem que fique feliz e tranqüilo, nunca com raiva.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Barragem das Pedrinhas inundada pelas águas do Jaguaribe

 

Fé e Razão encontram seus limites aquém da imaginação, esta reveladora de transcedentalidade. As verdades dos homens “de fé” e dos homens “de ciência” nem sempre cabem na realidade de quem consegue entender e dar diferentes significados ao que nos rodeia. E a imaginação (nem verdade nem mentira, mas equação do pensamento próprio) é o poder que une o sertanejo com medo de os rios, enfurecidos, descontarem suas mágoas-águas em nossas cabeças, fazendo vilão um todo cuja parte é o melhor que há, a Machado de Assis, capaz de ver “olhos de ressaca” de mar em sua Capitu, ou o cientista que não viu, mas jura em um “big bang”.

 

***

 

Água é a letra do poema, refrão da canção, insumo biológico, grito de guerra, grito de paz, matéria-prima da fé, da razão, ferramenta catalisadora da imaginação. Água é só isso e isso tudo.

 

Água de passagem pela comporta do Castanhão (Texto e fotos: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 10h29
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23/03/2008


A chuva em sete tempos

Estátua de São José é colocada no Bixopá (textos e fotos: Melquíades Júnior)

Por lógica ou ironia, uma das regiões que mais sofrem com a falta d'água no Ceará, a comunidade Bixopá, em Limoeiro, tem em São José o padroeiro da causa mais difícil: água na torneira. No chão não falta - logo atrás do paredão de terra há um pequeno açude, hoje cheio devido a chuva. Do alto, garotos observam a chegada da estátua do "santo dos sertanejos" logo em frente. Eles se colocam entre o presente e o futuro. Lá choveu no dia de São José - 19 de março -, felizmente.

 

O Céu nos prepara

Garotos observam o céu - distrito de Bixopá, Limoeiro (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

Se chove ou não é sempre uma dúvida. Tem vez de nuvem imensa e escura de tão carregada passar por cima das cabeças dos expectadores (de expectativa mesmo) e chover em outras paragens. Ainda no Bixopá conferir o céu “se fechando” é entender a razão da fé. Quem é criança, só tem que aguardar o “toró” d’água, “pra descer de bicicleta e tudo da ribanceira lamacenta”.

 

 

Chuva com sol

 

(Criança toma banho na calçada em frente a casa - Limoeiro - (texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Depois de aperrear a mãe para tomar banho de chuva (chora para não ir ao banheiro), Yasmim, a mais nova de minhas sobrinhas, bate os dentes de cima com os de baixo, na frieza da calçada molhada, esquentando mais um momento sublime de ser criança. Bom é brincar na terra fria.

 

 

 

A vaca foge do brejo

(Gado caminha na rodovia CE 377, entre Limoeiro e Quixeré (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

Quando a chuva é pra valer, muito cuidado nas estradas. Que a vaca foge do brejo em busca do asfalto “quente”. Nessa hora, a rodovia é dela, e qualquer motorista é um mero passageiro.

 

 

 

Para não parar

 

Poça d'água se forma no quintal de casa (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

De maduro, o limão cai justo nos últimos momentos de chuva. Talvez para prorrogar o banho e mergulhar - mesmo que com água só na “cintura” - nessa frieza.

 

 

 

Suspiros de vida

Poça de lama no quintal de casa (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

A folha que cai é morta, mas colorida. A lama parada reflete o aceno das que ficam em cima, plantadas, sombreando, alimentando e aguardando o momento e a vez dos também últimos suspiros de vida. 

Escrito por Melquiades Junior às 18h56
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Porque sempre irá chover

 

Tombada como Patrimônio Histórico Nacional, Rua Coronel Alexanzito (popular "Rua Grande"), em Aracati, refrega a ressaca da maior chuva já registrada no município (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

E quem vive depois que a chuva passa, passa o tempo esperando que vá embora, que a vida continua. Como nem todo mundo é peixe, é preciso nadar no seco. A chuva traz muita coisa boa, mas, de irresponsável, o homem – os nossos propalados governantes - nem sempre está preparado para ela. Esquece que a natureza ainda é a mãe desse grande fenômeno, que tem a cumplicidade do céu.

Escrito por Melquiades Junior às 17h52
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19/03/2008


Na chuva outra vez

“É agora, José! Tem que ser agora.” Tomei banho de chuva no dia de São José. Desculpe a redundância, mas cheguei em casa completamente molhado. Não queria, ou queria (é que passei a querer), mas fui.  Vaguei sem rumo, sem lenço e, felizmente, sem documento pelas ruas de Limoeiro. Tarde da noite e eu lá, ocupando o meio da calçamentada, de pingo em pingo, saboreando uma neblina de chuva que chegava sem jeito. A cena por si só era poética, mas tinha poesia nenhuma. Eu não pensava. Só pensava em tomar banho de chuva, assim, andando calmamente... Quem viu de longe pensou que “esse aí se rendeu, pra quê correr se, além de molhado, vai chegar cansado?” E naquela compassada caminhada, pra quê pensar se, além de molhado, vou chegar preocupado? Os pingos eram sortidos, mas tão distantes que não pareciam me banhar tão cedo. Talvez foi por isso que decidi enfrentar a neblina de quase meia noite, que parecia ser somente minha.

 

Vinte minutos de caminhada e fez-se a chuva, agora pra valer. Não tinha por onde correr. Literalmente, quem tá na chuva... Vaguei por ruas, avenidas, calçadas – mas fugi das biqueiras. A cachorrada latia e, eu, só no pensamento, cantava e dançava “singing in the rain”, o clássico do cinema hollywoodyano pra sertanejo ver. Para quem viu, parecia um louco, um bêbado. Mas chegou uma hora em que éramos somente eu e a chuva. Ela chiava, meu coração batuvaca. Mão nos bolsos da bermuda, camisa ensopada, andar compassado, eu só ia pra não sei onde, rindo com o maior prazer. De cima de mim tudo era festa, dançando e cantando com a chuva enquanto ela pôde ser...

 

Ps.: A câmera não é à prova d’água, mas assim que cheguei em casa tentei registrar um pedaço desse momento, nem que fosse um pedaço de calçada molhada. Para eternizar o brilho da chuva.

 

 

Escrito por Melquiades Junior às 23h59
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08/03/2008


No Dia Internacional da Mulher

Dona Maria da Conceição e seu Valderi. Mãe e esposa, mulher guerreira e sofredora que conheci no Dia Internacional da Mulher (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 Declaro, para os devidos fins, que Maria da Conceição Gomes, 49, mãe de dois filhos, casada, moradora do Sítio Espinho, em Limoeiro do Norte, é uma mulher guerreira e, como todas do seu gênero, de uma força que surpreende o mais forte dos homens. Ela não é muito diferente de muitas mulheres que conheço. A diferença foi conhecer sua história em pleno dia da mulher.

 

Foi abandonada pelo marido quando o filho mais novo, hoje com 20 anos, ainda estava de braço. Sozinha por quase dez anos, arrumou outro homem da sua vida. Com José Valderi Rodrigues, que hoje tem 41 anos, reavivou a esperança de uma companhia que lhe cuide bem até a velhice.

 

“Valderi é um homem tão bom” - ela me testemunha, sobre o homem, natural de Pereiro (também no Ceará), regresso da vida “que não deu muito certo” na São Paulo dos anos 80. Os dois moram numa casinha tão pobre quanto indigna. Hoje os filhos estão casados. O mais velho – tem 25 anos - já lhe deu um neto. Tirando alguns favores que fazem à mãe, só ganham mesmo para tirar o próprio sustento. “Meu mais velho sabe lê e tem carteira de motorista, podia ter um emprego melhor” – carrega sacos pesados.

 

Maria da Conceição recebeu meus dois parabéns: pelo dia internacional da mulher e porque “daqui a dois dias completo 50 anos”. “Mas tô tão cansada”, completa. De fato, meu espanto foi ela dizer que mal tem essa idade, tamanha é a cara de velhice e sofrimento.

 

Agricultora “desde nascença”, foi também essa a profissão de Valderi, não é mais. Há três anos contratado para trabalhar numa empresa produtora de banana na Chapada do Apodi, em Limoeiro, hoje o maior pólo agrícola do Ceará, o “homem bom” não durou um mês na plantação, onde era encarregado de espalhar veneno agrotóxico para evitar problemas às bananeiras e, claro, ao empresário. Nas primeiras duas semanas sem Equipamento de Proteção Individual (EPI), foi de chinela, calção e camiseta que se armou o homem.

 

Bastou poucos dias para o veneno ferir um dedo do pé, depois o pé, daí à canela foram só mais alguns dias para o esposo de Maria da Conceição perder metade da perna direita. O que sobrou do membro é um sofrimento cotidiano. Inflamada e cada vez mais desgastando-se, o resto de perna causa gritos de dor ao homem.

 

Sem poder trabalhar, Valderi é cuidado pela esposa, que precisa limpar diariamente os ferimentos. Dizer que estão no aperreio é pouco: o homem não conseguiu se aposentar, ela não tem emprego. Com exceção de um temporário auxílio doença, sobrevivem do que recebem das pessoas. Mês passado, pagou R$ 50 de aluguel, R$ 70 da luz (para o próprio espanto) e “fiquemos sem comer. Já não vendem mais fiado, porque não confiam que a gente vá pagar, num temos trabalho mesmo”, lamenta Maria, que para hospital consultar ou emissora de rádio pedir esmola coloca o marido na garupa da bicicleta e sai empurrando por mais de dez quilômetros. Ele para ela, e ela para ele, que, embora a tenha por esposa, não encontra melhor palavra para chamá-la do que de “mãe”. 

 

 

 

 

E outras mulheres...

Mulheres da Via Campesina protestaram na entrada da Fazenda Delmonte, em Quixeré, no Dia Internacional da Mulher.

 

 

 

 

Caras, bocas e sonhos...

A mulher estuda, casa, tem filhos, trabalha, protesta. Como ninguém, sabe o que é a injustiça humana. De um jeito ou de outro, toda mulher nasce mãe.

 

 

 

 

Olhares na luta...

Como numa guerra em silêncio, elas olham, sentem, e são capazes de explodir a bomba de todas as mágoas no próprio estômago, para depois proverbiar palavras amenas.

 

 

 

Num sorriso discreto...

No fim, um sorriso discreto e verdadeiro, de quem é mais forte do que o sofrimento e está sempre pronta para a luta, do tamanho que for.

Escrito por Melquiades Junior às 23h03
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04/03/2008


Da arte de afinar sanfona

Zecildo toca o instrumento, afina, reconstrói e toca a vida de acordeom em acordeom (texto e fotos: Melquíades júnior)

Se já não é qualquer um que sabe tocar um acordeom, também é quase ninguém especializado na arte de afiná-lo, deixar com a sonoridade certa para quem quer “puxar o fole”. No Interior do Ceará, são poucos os afinadores de sanfona. Alguns remontam e até fabricam, com peças de sucata, um acordeom inteiro. O trabalho tem poucos seguidores, mas a demanda é grande, principalmente das bandas de forró, que após cada turnê correm atrás dos verdadeiros “luthiers” da sanfona.

Um deles foi agricultor, passou para sanfoneiro e, porque “não deu muito certo”, apurou o ouvido para afinar a sanfona e, quando é necessário, ressuscitá-la. Passa horas sentado no chão da sala ou na frente de casa, que já foi construída com dinheiro da afinação. Como não seria diferente, tem trecos de sanfona para todo lado.

Alguns instrumentos estão com simples ferrugem e com os teclados precisando afinar suas “cordas vocais”, outros nem fole ou teclados têm, mas os donos ainda fazem questão de chamar de acordeom, que só volta à vida depois de chegar às mãos de Zecildo de Oliveira, 35 anos, mecânico da sanfona em Tabuleiro do Norte, na região jaguaribana, que atende a sanfoneiros de vários Estados.

Zecildo começou a atividade “de repente”. Toca sanfona, mas não é lá essas coisas, precisou consertar o próprio instrumento, “e peguei o jeito da coisa”, diz. Em apenas seis anos de afinação, diz que já trabalhou com pelo menos 600 sanfonas. Bandas de forró e acordeonistas da região jaguaribana, Rio Grande do Norte e até do Maranhão socorrem a peça fundamental de um bom forró a qualquer hora do dia, pedindo-lhe o conserto “para ontem”. A casa do afinador já recebeu sanfoneiros como Redondo e “Chiquinho do Acordeom”, atualmente da banda Mastruz com Leite e um dos grandes apoiadores do afinador, ajudando na aquisição de peças e clientes.

Afinação

Uma afinação simples leva cerca de dois dias e custa pelo menos R$ 200,00. “Mas se a sanfona vem toda ‘quengada’”, sem fole nem teclados, pode ir para R$ 700,00. Daí é usar a criatividade, nesse caso leva mais de mês para ficar pronta. O fole é feito com uma espécie de papelão industrializado; os teclados são feitos de canos de PVC fundidos, e “fica igualzin”, atesta o mecânico, que recebeu a reportagem sem parar o trabalho de afinação das notas no cavalete da sanfona. Para deixar na medida, movimentava a licha com um motor de máquina de costura doméstica. “Aqui é tudo na base do aproveitamento”.

Meio século

A juventude de Zecildo contrasta com a idade de outro afinador de sanfona, mas se funde no talento para ser todos ouvidos para o instrumento. Ano passado completou 50 anos que seu Raimundo Zacarias, de 76 anos, “véve” de afinar sanfona. Não dá conta de quantas já deixou “sadia pra tocar”.

Ele não só afina, mas toca. E lamenta que no distrito de Lagoinha, no município de Quixeré, não tem ninguém interessado em seguir a profissão. Nem na família, que já nasceu com um pé na música – todos os dez irmãos e irmãs tocavam instrumentos.

“A minha afinação eu não quero que aperreiem, só entrego com um mês, mas a bem dizer é um negócio bem feito que só vendo”, afirma Zacarias. “Eu cobro barato” – R$ 300,00 para afinar a sanfona. O preço aumenta quanto maior for a ferrugem. A demora é que só pode trabalhar à noite, “à mode a zoada do dia, o povo e os carros passando, que atrapalha o trabalho da gente, aí só quando tem sossego é que trabalho”. Comenta, citando que já afinou as sanfonas de João Bandeira e Paulo Ney. “Mas ele tá que adoece toda vida que pega uma encomenda. É a poeira da sanfona, aí fica respirando aquilo, quando dá fé tá com gripe”, afirma Maria Santa, esposa do afinador. Eles moram com filhos e netos.

Raimundo Zacarias é intitulado mestre pelos admiradores da região jaguaribana. Tem vontade de conhecer Zecildo Oliveira, que tem a metade de sua idade e parece ser o único seguidor, na Região, de sua arte de afinação, que já tem meio século de existência.

Seu Raimundo Zacarias e a timidez de quem completa 50 anos afinando sanfona

Escrito por Melquiades Junior às 22h25
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21/02/2008


Entre o céu e a terra

De repente o céu se fecha, vira um teto de escuridão. O vento forte bate portas e janelas. Descargas elétricas irradiam luz em fração de segundos, seguem-se volumosos estrondos, comparáveis a um leão furioso. As pessoas correm para todos os lados em busca de refúgio, crianças correm para as mães choramingando apelos. Os mais velhos, calmos, só olham para cima. E sorriem.

Eles estão certos: é a chuva que está chegando no sertão, mudando o clima e orquestrando a paisagem com seus trovões iluminados, para apelos pidões da garotada doida para tomar banho de chuva. Inverno bom ainda é dúvida, mas qualquer agricultor reconhece uma boa chuva, quando é o jeito se render aos apelos da esperança, correr para o terreno e jogar a semente na terra, como se cada feijão fosse a peça de um rosário enterrado em oração. E a chuva também toca o asfalto, que, todo molhado, brilha, refletindo o próprio sol, como que a água a dizer: “olha como você é lindo! Mas agora é minha vez”. Então que chova, pois quando tudo acabar eu vou para o meio da estrada, tentar entender o diálogo entre sol e água no meio do asfalto.Rodovia CE 377, que liga Limoeiro a Quixeré, depois da chuva da última terça-feira (Texto e foto: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 13h36
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Números da fartura

São 15 quilômetros, 76 anos e uma bicicleta de 30, empurrando 10 kg de feijão, 10 kg de milho, e esperança sem medida até a comunidade de Lagoa das Carnaúbas. É seu Antônio Clímaco voltando para casa, depois de amarrar bem amarrado seu saco de sementes compradas no escritório da Ematerce. Agora só falta o inverno “dar certo”, que vontade não falta. Oração de agricultor começa com a mão pro céu e termina com a mão no chão, para plantar e colher frutos e números.

Seu Antônio Clímaco amarra as sementes para casa (Texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Escrito por Melquiades Junior às 13h19
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Enxada na mão inchada, obrigada

Edílson Salgado, da comunidade do Sítio Bom Fim (texto e foto: Melquíades Júnior)

E o inverno, será que vem? Seu Edilson Salgado não espera pela chuva - agustia. Antes de plantar, foi preciso passar o dia arrancando o mato que, ao contrário do verde da plantação de milho ou feijão, é apenas o 'verde-enganação' da natureza. Quem sabe o mato seja fruto do egoísmo (ou também angústia) da natureza, pois só serve mesmo a ela, que, pelo visto, se contenta com tão pouco. Enquanto a reflexão é minha, o homem mata o mato em busca da própria sobrevivência.

Escrito por Melquiades Junior às 13h12
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18/02/2008


A parte que cabe à arte

Garotos e garotas saltam no amanhecer da Barragem das Pedrinhas

 

Um passo pra lá, outros pra cá; suor já na sessão de alongamento. Noite de segunda-feira de carnaval e a moçada de cara melada, mas de tinta, para compor a máscara do espetáculo. Era só mais um ensaio, mas tinha como diferencial a minha visita, ou melhor, da reportagem, que os meninos sairiam pela primeira vez no jornal. “Vamo apressar pessoal?!” – professor “Chiquinho” tentava apressar a turma, que há quase uma hora se maquiava.

 

A primeira vez que vi o “BioArte Show” foi no Encontro dos Mestres do Mundo, em Limoeiro. Faziam estripulias no tablado montado ao lado da igreja. Misturando teatro, ginástica olímpica e rapidez com malabarismos, a moçada, toda de preto, cara pintada e olhar sério, construía montanha de corpos, dava saltos mais que mortais, desafiando a gravidade e a força de quem ficava em baixo, segurando um, que segurava outro e mais outro. Meus olhos brilhavam de alegria – e medo, naquela desconfiança de que algo podia não dar certo. Mesquinhez de quem não acreditava direito no que os conterrâneos eram capazes. Engano, felizmente. Ao final, só aplausos.

 

A segunda vez que vi a, agora, Companhia de Arte e Cultura BioArte Show foi na dita segunda de carnaval. Um auditório enorme, antes abandonado, era o cenário. Lá passam horas ensaiando com os equipamentos que estão ao alcance: colchão improvisado de ex-academia de jiu-jitsu do professor Antônio, cama elástica de arquivo do professor de ginástica “Chiquinho”, e o resto os meninos que levam.

 

Entrevistei, fotografei, escrevi a matéria, anotei o que têm de bom, no que podem melhorar e, claro, a uníssona reclamação pela falta de apoio da sociedade local. “Sendo futebol eles apóiam”, comentou o treinador, indignado com a realidade.

 

Já a terceira vez que vi os espetaculares – apresentam o “Equilíbrio”, inspirados em “Alegria”, do Cirque du Soleil – foi na Barragem das Pedrinhas, para mais uma sessão de fotos dos ensaios. Cá atrás da lente, fiquei pensando no futuro daquela garotada, entre 10 e 22 anos.

 

Alguns dos “bioartistas” já fizeram vestibular, outros estão distantes, mas já querem ser advogados, farmacêuticos... Um ou outro quer ser dançarino, ator, artista circense como são agora, nada mais. Arte é só uma fase? Um bem estar da idade?

 

Mas foi editando as fotos, no dia seguinte, anterior ao da matéria com os circenses, que uma imagem valeu por mil respostas. Era o esforço (numa foto) e o sorriso (noutra) de uma garotinha simpática, a mesma que dava saltos mortais numa ‘torre’ humana. Foi a mesma garota que vi, um ano e meio atrás, segurando faixa pedindo justiça, no meio da Caminhada Pela Paz e a Não Violência Contra a Mulher.

 

O papel trazia a foto de uma mulher. Era a sua mãe, a professora encontrada morta há dois anos num matagal, horas depois de ter ligado para uma amiga pedindo socorro. Ela e a irmã mais nova são cuidadas por outros familiares. Naquele dia, do manifesto, vi sua expressão triste e desoladora – em plena infância, havia perdido o gosto de viver, bem diferente do sorriso ‘metálico’ de contente em fazer arte. Sâmara – é seu nome - ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas seu sorriso reencontrou o caminho da felicidade, por meio da arte.

Samara, à direita, e demais jovens da Companhia de Arte BioArte Show - texto e fotos: Melquíades Júnior

A reportagem sobre o BioArte Show pode ser conferida nestes links: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510792   continuando em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=510802

Escrito por Melquiades Junior às 18h51
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06/02/2008


Meninos, eu li

Neste blog, costumo, não por egoísmo, mas por justiça, publicar tão somente os textos de minha autoria, tentando fazer o mesmo, quase sempre, com as fotos. Mas o texto abaixo não é meu, é de um verdadeiro escritor, com livros publicados e tudo. Nem a foto é minha. Fala de um "anjo" que até mês passado mendigava pelas ruas de Fortaleza. Poucas vezes vi um final tão feliz. Não pensei duas vezes em republicá-lo, sob pena de cair na mesma inércia e comodismo social de quem olha, mas não se vê dentro do outro, só quando o outro é um espelho. Quem leu até aqui, que leia a crônica de baixo, se for capaz. É de Pedro Salgueiro, mas, principalmente, de Sílvio Tadeu.

 

Anjo das ruas

Sílvio Tadeu viveu por dez anos pelas ruas de Fortaleza

Pedro Salgueiro

Faz uns dez anos que perambula pelas ruas de nossa sonsa loirinha descabelada pelo sol um negro alto, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos, às vezes vestida sobre outra já em tiras. Distingue-se pelo porte altivo, cabeça levantada e pelo quase silêncio que o acompanha: poucos escutam as palavras que pronuncia baixinho, não raro esbraveja com alguém imaginário ou faz estranhos cálculos matemáticos.

Não pede esmola, mas lhe dão dinheiro, roupa e comida; quase sempre redistribui ou deposita as cédulas amassadas e rabiscadas com números em baixo de cones, desses usados em sinalizações de trânsito, e de papelões de outros moradores de rua, nada guarda para o dia seguinte. Come pouquíssimo e toma café e fuma em abundância (que lhe dão sem ele ao menos pedir).

De dia freqüenta os logradouros no centro: Praça Murilo Borges, rua Assunção, praça Coração de Jesus e uma calçada de estacionamento na Duque de Caxias, onde passa a maior parte da tarde acocorado em silêncio; de noitinha vai em direção à Praia de Iracema até a avenida Aquidabã, lá fica também acocorado em uma calçada em frente a um posto de gasolina. Não se sabe onde dorme, como faz suas necessidades fisiológicas, muito menos o que pensa e balbucia em quase preces noturnas.

Cumpre há uma década o mesmo ritual de sempre, dizem que ele faz as mesmas coisas, nas mesmíssimas horas (até para atravessar as ruas é sempre em locais determinados), o exato itinerário, quer faça chuva ou sol: o mesmo porte altivo, o olhar contemplativo de superioridade e paz. Não se apressa nunca, nem altera o semblante; nem se importa se ao seu lado passa uma bela jovem (que quase sempre aperta a bolsa e desce a calçada) ou um outro morador de rua.

Já apareceu em diversos ensaios fotográficos sobre o centro da cidade e foi até personagem de crônica de Airton Monte: faz parte, definitivamente, da paisagem dessa Fortaleza de Todos os Perdidos-Anjos.

Pois bem, acho que cumpriria este seu eterno ritual de perambular pelas calçadas, de se esgueirar pelos becos, de se acocorar pelas calçadas, até o final dos tempos, não fosse a alma enorme e boa do meu colega de repartição (e ex-baixista da banda de regue Rebel Lions) Jânio Alcântara, que puxou conversa, com uma paciência de Santo, com nosso personagem: descobriu o nome de sua cidade natal - Paranapanema, São Paulo) e o nome da mãe, Jandira Aparecida da Cruz (completo e com seu nome de solteira e de casada).

O novo amigo foi a Internet pesquisar e conseguiu falar por telefone com a mãe, uma senhora forte e saudável morando no interior de São Paulo; em poucos dias se encontrava em nossa cidade a mãezona (que há dez anos não sabia o paradeiro do filho) e a irmã mais nova, Sidelça, uma bela jovem parecidíssima com o nosso herói-de-rua.Jânio não ficou por aí, conseguiu internamento e tratamento dignos para o agora ex-morador das ruas sujas de nossa meretríssima loirinha descamisada pelo sol.

Moral de nosso conto de fada: se uma pessoa de boa vontade (com a ajuda de outros anjos bons) consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade, competência e solidariedade.

P.S.: Para não deixar o leitor curioso com o destino de Silvio Tadeu da Cruz, ele está internado, limpo e bem vestido. A família o espera para levá-lo de volta, pois sua avó de 99 anos de idade há dez anos não se cansa de perguntar toda noite por ele. Duas de suas irmãs moram na Europa, os outros vivem bem em Paranapanema (SP). A mãe diz que seu descontrole começou quando ele presenciou a morte, em acidente de automóvel, do irmão de que mais gostava, depois agravado pela dificuldade em pagar a faculdade de engenharia que cursava já no 2º ano, após ser despedido do banco em que trabalhava. Diz-me (agora sua belíssima irmã) que ele era o mais inteligente da família, também o mais vaidoso
...

Pedro Salgueiro é escritor. Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas. A fonte da qual extrai seu texto (O Povo) e foto (autoria do fotojornalista Sebastião Bisneto) pode ser conferida no link:http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/761979.html

Escrito por Melquiades Junior às 12h05
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21/01/2008


Por dentro da chuva

 

Todo sertanejo que se preze é, antes de tudo, um fã de chuva. Eu gosto do seu gosto, seu cheiro, sua paisagem. E gosto da lembrança dos tempos em que, quando criança, não pensava duas vezes para mergulhar no céu-chuveiro. Tirando ter que pedir a minha mãe pra deixar tomar banho na chuva, depois do “pode” cheio de recomendações nada mais me segurava. Só a chuva. E chovia sorriso, chovia alegria, trovejavam murmúrios tremidos de frio. Chuva é bom, melhor se participar dela.

Da minha casa até a esquina são pelo menos três ‘biqueiras’, embaixo das quais já estive uma, dez, centenas de vezes, quantas dezenas de banhos pude tomar. E um dos melhores momentos de quando chove é, subitamente, lembrar-me de andar naquela mesma calçada, naquela mesma estrada, em dias na maioria tórridos, causticantes, de um sol para cada cabeça. Daí a voltar para o pensamento real – “estou na chuva” – era como se chovesse de novo, uma chuva dentro da outra.

Cresci e não perdi o gosto por esse momento tão ímpar deste semi-árido. Mas são cada vez menos banhos de chuva, a gente cresce e, também, vêm as nóias completamente factíveis de gente grande. Passei a ter medo dos raios, que realmente podem cair em mim e me machucar, medo de uma árvore desabar. Mas isso não é nada. Passei a ter medo de entrar na chuva e não querer mais sair de lá e, como que numa regressão involuntária, eu voltar (passagem só de ida) aos meus tempos de infância...

Mas o tempo passa, e se Guimarães Rosa disse que o sertão é universal, porque não a chuva? Dentro ou fora me sinto dentro dela. Nem que seja pela lente da câmera, que mira os olhos das minhas sobrinhas pequenas, que tomam banho de chuva como se fosse eu há muito tempo. E agora mesmo.

Escrito por Melquiades Junior às 23h53
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08/01/2008


Os saltos do garoto Josué

 

Não tem nem dois anos que a vida de um jovem de Russas, no Vale do Jaguaribe, dá saltos que ele mal imaginaria, fosse pensar nos obstáculos. O garoto Josué Lima da Costa, de 14 anos, campeão sul-americano de salto em altura, virou orgulho da cidade e vai representar a América do Sul no mundial dos Jogos Olímpicos Escolares, neste ano na China. Morando na comunidade de Lagoinha, o atleta, que mal saía do próprio município, tenta se acostumar com a volta ao mundo em alguns pulos.

Mas por esses dias Josué não pula nada. Está se recuperando de uma contusão na coxa esquerda. Se vida de atleta não é fácil, que dirá de família agricultora, pois foi carregando uma saca de mandioca, que planta com os pais, que há duas semanas o menino deu um jeito na perna, "mas já fui ao médico, e em alguns dias estarei ótimo e voltarei aos treinos", afirma tranqüilo o atleta, observado pela mãe-coruja, que faz questão de não largar o pé do filho.

Quem via o rapaz de 14 anos com 1,74 metros de altura, desengonçado, que não gosta de jogar futebol e só às vezes praticava vôlei, pouco enxergaria nele um dos mais destacados atletas cearenses da atualidade, logo na modalidade pouco conhecida que é o salto em altura. Os títulos de campeão foram obtidos nas Olimpíadas Escolares, que começam colégio contra colégio na mesma cidade, os melhores disputando o estadual, o brasileiro e o sul-americano - em todos eles Josué foi pulando de primeiro em primeiro lugar, em sua categoria 12-14 anos.

O garoto só vai para a China (data indefinida), onde disputará o mundial, depois da emocionante vitória no sul-americano das olimpíadas escolares no Chile, em novembro do ano passado. "Saltando uma altura de 1,84 m, o brasileiro Josué Lima da Costa conquista o primeiro lugar e garante a vaga para o mundial na China", noticiou a imprensa chilena. Toda a disputa faz parte dos diversos níveis de competição nas olimpíadas escolares, desde a municipal, estadual (em Fortaleza), brasileira (ocorrida em Minas Gerais), sul-americana (Santiago, Chile) e mundial (que ainda acontecerá na China).

E o que a mãe acha disso? "Eu fico muito preocupada com ele, sempre ficou aqui com a gente e de repente vai para esses cantos longes, nem sempre dá pra ir com algum adulto conhecido. Eu não queria largar meu menino assim não. Por mim ele nem fazia essas coisas, mas é do que ele gosta, né?", lamenta mas orgulha a dona de casa Maria do Carmo Lima da Costa, mãe de Josué (segundo mais novo) e outros cinco filhos. Quando o garoto viaja (a viagem para o Chile durou 10 dias), fica com o coração na mão; quando dá fé o menino chega, após dias de viagem, com medalhas na mão e a bandeira do Brasil no peito.

Em Russas, quando tem algum evento festivo chamam logo Josué, a grande sensação municipal, que no último natal apareceu numa caixa de presente. Quem é famoso assim não é difícil de ser encontrado, mesmo morando numa comunidade rural a 12 km da sede. Chegando à localidade de Lagoinha pergunte onde mora Josué que a resposta do caminho é certeira e ainda termina com "tem errada não". E não tem mesmo.

"Eu adoro saltar, vejo meu futuro sendo um grande atleta, melhor do que estar fazendo coisa ruim", confessa Josué, orgulho da Escola de Ensino Fundamental Francisco das Chagas e do treinador Jackson Guimarães, o principal referencial do jovem atleta, que, depois da fama de saltador, ganhou o apoio da Associação Atlética e Cultural de Russas (AACR) e da secretaria de educação, que patrocina o garoto, custeando suas despesas em treinamentos e viagens para as olimpíadas escolares. Mas isso não é tudo, e o rapaz vê-se na obrigação de ajudar a família em casa na plantação de milho, feijão e mandioca.

"Ainda sonho poder ganhar dinheiro com as competições e ajudar a minha família. Por enquanto o salto mais difícil ainda é sair de casa", afirma Josué Lima da Costa. Assim que sarar da perna retomará a rotina de três horas diárias de treinos, pulando corda e fazendo trabalho de força nas pernas, o mais importante instrumento do jovem saltador.

 

Escrito por Melquiades Junior às 01h57
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24/12/2007


A Cabeleireira e o Natal

Poucas vezes saio da rotina de trabalho para um compromisso mensal que não é trabalho nem diversão para me sentir tão bem quanto ir à cabeleireira. Quando chego ao salão, não tenho muita frescura. “Apare essa moita e estamos resolvidos”. Uma coisinha aqui, outra ali e sai como eu quero - só diminuir a cabeleira, não passando a máquina que pela nem deixando aquele topete ridículo – que a juventude de cabelo crespo feito o meu tem feito...

 

Faltando menos de dois dias para o Natal e sem cortar a cabeleira, era quase impossível arranjar um lugar, não fosse uma cabeleireira acolá abrir mão de uma hora do seu domingo à noite. Papai Noel chegou antes e usa tesoura. Não sei o que mais cansa nela: se as mãos que cortam ou a boca que não pára de falar. Não, não falo de uma tagarela, fofoqueira ou coisa assim. É como se eu pedisse “corte meu cabelo e qualquer idéia suicida que possa passar por minha cabeça”.

 

Essas mulheres nos dão uma injeção de ânimo, de exemplo de vida. Graças a Deus tenho minha auto-estima lá em cima, mas o que emocionava na conversa de salão era que só fluía uma simplicidade, sinceridade, embora não houvesse testemunhas – continuará não havendo.

 

Quatros meses depois de perder a mãe e o mesmo período sem ver o único filho, aquela psicóloga de navalha contaminava o salão de felicidade. Só usou a palavra problema quando lhe foi perguntado, mas “a vida é difícil para todo mundo, mas acha que vou ficar me lamentando enquanto trabalho? “De primeira eu me fazia de forte e ia chorar lá dentro, por conta dos problemas, pois é muito difícil perder quem se ama tanto. Mas isso aqui é bom. Eu me sinto é bem cortando cabelo. Cansa, mas faz bem”, foi mais ou menos o que me disse a guerreira (pelo que me a memória me ajuda a recordar).

 

Ampliou o salão e quer aumentar mais, tem um filho se dando bem em Brasília e parece que vai ficar melhor ainda. Agradece a Deus pelo dia que passou, “pois meus dias todos têm dado certo”. Terminar o rojão de trabalho até meia hora antes da ceia natalina (e as cabeleireiras são as últimas a ir às festas, quando vão) pensa em ir dia seguinte para a praia, descansar mãos e mente com a família. Diz que vai com a sensação do dever cumprido e recuperar as energias para a quarta-feira. Isso que é um Feliz Natal.

Escrito por Melquiades Junior às 03h03
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Êê... Boi da Faceira

“Lá vem boi, aiá, vem boi nós queremos ver”. E quando dá fé o boi já vai longe, e fica registrado para ninguém esquecer que o Boi Pai do Campo da Faceira chegou para ficar, ir, passear e voltar. Agora Mestre Chico e sua turma deram de aparecer na televisão, na tela do cinema. O documentário Brinca Faceira, produzido e recém-lançado em Limoeiro do Norte, pelo programa Petrobrás Cultural, mostra a história, canções e precursores do bumba-meu-boi da comunidade limoeirense de Faceira. A produção audiovisual faz um dos poucos registros que se tem do reisado de mais de dois séculos nas ribeiras jaguaribanas.

 

Feito a água do rio que desce, a brincadeira do Bumba-meu-boi foi passando de geração para geração, povoado para povoado, até bater no município de Russas e, daí, para onde hoje é Limoeiro do Norte, na localidade de Faceira. Foi quando João Caboclo construiu com suas próprias mãos o boi, feito de ripa de madeira assada. João é o tio do atual Mestre da Cultura Chico Nogueira e o principal incentivador do auto do boi no lugar. “Lembro quando vi pela primeira vez, com medo do dotô e da Catirina, subi na biqueira de uma casa com medo dela. Era uma grande algazarra, num tinha criança que ficasse parada, todos corriam em disparada louca”, conta o brincante João Caboclo - poucos anos antes de morrer - em entrevista em fita cassete ao compositor Eugênio Leandro, também de Limoeiro do Norte, produtor e principal idealizador do documentário.

 

O filme começa no ano de 1995, quando Eugênio visita a comunidade de Faceira já decidido a fazer daí um grande projeto audiovisual. Até então vivo, João Caboclo, “rapaz velho” (como chamam os homens ‘de idade’ que nunca casaram) respeitado pela comunidade Faceira, conta como começou o boi pai do campo e as brincadeiras com os rapazotes Manoel Chico, João Claudino, Geraldo Claudino, finado Otávio, Raimundo Feitosa, João Lúcio, Manoel Lúcio, Chico chico, João Guilherme, Zé Chico, Abel, Raimundo Claudino, Zé Nogueira (pai de mestre Chico), Chico Romão, Bessinha e Zé Augusto. Era tudo menino dançando no terreiro, animando festa de casamento, festa junina, ou somente a própria alma, quando não tinha o que comemorar.

 

Enquanto mostra um por um dos atuais integrantes do boi-bumbá, o documentário insere pesquisadores da cultura local como padre Francisco Pitombeira, escritor Gilmar Chaves (atualmente secretário da cultura de Limoeiro), professor (hoje vice-governador) Francisco Pinheiro, o pesquisador das expressões culturais do mar de terra batida e lascada Osvaldo Barroso, sociólogo –“o boi faz parte do inconsciente coletivo da comunidade”. É na frente da câmera que também se dá o diálogo de brincantes de comunidades diferentes, quando Chico Nogueira e Antonio Manoel, do boi-bumbá do município de Quixeré, relembram como era o boi de antes, para o de agora.

 

Foi trabalho de pesquisa e suor situar as singularidades do boi-bumbá da Faceira, em meio a tanta boiada de reisado pelo país. Ainda assim, conforme o professor Pinheiro, “não encontramos cultura do boi sem a cultura da pecuária”. E gado era o que não faltava pelas paragens do Rio Jaguaribe, visto que em 1763 estavam registradas mais de 600 fazendas de gado nos terrenos marginais. Se o boi historicamente esteve inserido na economia migratória (interiorizando o sertão, a pecuária difundiu-se pelos povoados), não é difícil entender que entrou nas expressões culturais de seus dependentes, o que pode ser conferido nos bois de Manaus, Maranhão, Ceará, sempre com um pé na cozinha, ou na oca, e o outro na sala (nos anos 1600, o “boeuf-gras” francês, depois restabelecido por Napoleão Bonaparte, saía coroado em cortejo pelas ruas, homenageando pessoas nas portas de suas casas).

 

Brinca Faceira é o primeiro documentário de Eugênio Leandro e Vera Costa, sua irmã e co-produtora do filme. Mais do que a qualidade técnica do trabalho (com alguns pequenos erros primários), seu maior mérito está na preocupação com o registro histórico do tradicional reisado, que nos alimenta a esperança no flagrante de crianças tão pequenas cantando e fazendo valer o boi. Mas não basta filmar, tem que interagir com o filme: o programa Petrobrás Cultural, que contemplou 171 entre 3.380 projetos de audiovisual de todo o país, dá a mão, mas exige contrapartida. Uma delas foi a realização de oficina de construção da indumentária do boi para a comunidade.

 

E Boi Pai do Campo da Faceira não sai da tela, mas vai para todo lugar. É um verdadeiro cortejo circular da comunidade limoeirense que teima em preservar o boi, cantando a sátira, o trabalho, a terra, o amor. Os versos curtos rimados da boca sem dente de Zé Romão caem no inconsciente musical popular: “Eu tenho um ‘botão’ de açucena/ para dar a uma morena/(...)Quero ser dono/ da minha terra, ô morena/Quero morrer nos braços dela...”

 

Vai boi, vai catirina, mateu e o jaraguá, os percussionistas e gaiteiros. Aquele remendado de pano, arames e cano PVC faz que vai-não-vai para cima do povo, mostra que dentro de todo boi há um homem. Ou que principalmente dentro de cada homem há um boi.

Escrito por Melquiades Junior às 02h49
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19/12/2007


Fogosa é tradição de fim de ano


 

 As ceias de natal e as festas de fim de ano no sertão jaguaribano são cheias das deliciosas e mais famosas ‘bolinhas’ prensadas de farinha. As ‘fogosas’, como são conhecidas, são fabricadas e vendidas principalmente nesta época, em que famílias inteiras põem, literalmente, a mão na massa para abastecer as mesas de fim de ano. Em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, casa que tem farinha espalhada do chão ao teto é, na certa, casa de fogoseiro.

No dicionário, fogosa vem de fogo, algo ardente, metaforizado em “mulher ardente”, “moça fogosa”, ‘quente’ e sensual. No Vale do Jaguaribe, fogosa é sinônimo de festa da padroeira, natal e dezembro. De quando o menino aguarda os pais chegarem da festa à Nossa Senhora da Conceição ou das compras nas barraquinhas lá da praça matriz de Limoeiro, após as “bombas” da “passagem do ano”. Chega com um monte de saquinhos cheios de fogosa.

Isso porque é neste período quando seu Francisco de Assis junta a família, que não é pequena, para trabalhar dia e noite produzindo o enroladinho açucarado de goma com coco. A casa vira uma fábrica, filhos e netos são operários, e o tempo transforma tudo isso em tradição. A mesma que leva o comerciante Fernando Holanda a comprar todos os anos, desde menino (e isso faz mais de 30 anos), os saquinhos de fogosa no galpão dos feirantes de Limoeiro. “Quando era menino, no fim de ano não via a hora de comprar fogosa. Comia até não poder mais, cheguei a passar mal de tão cheio”, conta o comerciante, agora fazendo as compras para toda a família.

A família de Francisco de Assis Ferreira Leitão trabalha há mais de 30 anos na atividade, e não só na fogosa, como broa, grude, pé-de-moleque, ‘quebra-queixo’ e “doce do que você imaginar”, ressalta Maria de Lourdes Araújo Leitão, esposa de seu Assis e filha de Maria Cecília, a fogoseira mais antiga de Limoeiro – 92 anos. Hoje, a matriarca da fogosa acompanha com os olhos a correria dos fabricantes e faz os serviços mais leves. E em casa de fogoseiro não tem folgado, é todo mundo em pé ou sentado e “mãos à obra”, embora dê tempo de uma prosa enquanto trabalham, “para distrair e o tempo passar melhor”. Assim fazem Liduína, Socorro, Cecília, Luciene e Luis Fernando, da família Leitão.

A casa de Seu Assis termina onde começa a vida dele. Com um forno a lenha e de bom tamanho para cozinhar da fogosa ao pé-de-moleque. “Isso aqui é minha vida”, resume, sem parar um só minuto para conseguir dar conta do serviço - é dezembro e o mutirão todo é para aprontar tudo para a feira de natal. De cinco da manhã a meia noite do dia 24, a feira popular movimenta a cidade, que mesmo após a missa da noite vê seu povo comprando as fogosas para o café da manhã, “que dia seguinte, feriado, é tudo fechado”, retrucou uma compradora. Passar natal e chegar "noite de ano", a labuta de Assis será a mesma: Vender o fabricado da semana, “para entrar 2008 de bolso cheio”. Cada saquinho de fogosa é vendido a um real, mas se o cliente comprar muitos ainda ganha um desconto.

“Mas de primeiro, quando dava meia noite, isso aqui tinha mais gente. Agora diminuiu muito, o povo sai da missa logo pras festas”, reclama Assis. Na mesma labuta fogoseira está o casal Francisco Maia e Maria Lousa, esta que trabalha com fogosa “desde que nasceu o primeiro dente”. Vieram de Tabuleiro do Norte, outro município com tradição na produção de fogosas. E mais um famoso em Limoeiro é José Rebouças de Oliveira, o ex-agricultor e hoje “Zé da Broa”. Há 29 anos no ramo fazendo mais de seis mil fogosas por dia, “para vender até o derradeiro dia do ano”. E eu comer até o ano novo chegar.

Escrito por Melquiades Junior às 20h35
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