Antes que o ano acabasse, tomei chá de coca, lembrei-me da grande viagem; tomei sorvete, lembrei-me das grandes companhias, dos momentos, tantos e tão vividos. Escrevi um cartãozinho, mas não sabia para quem. Sabia, mas não queria dizer. Foi para ela. Coisa mais ilógica, né?! Depois de tudo. Mas nesse momento tudo vira nada, no período em que o serviço público tira recesso também é de se andar com o espírito desarmado. Pois escrevi. Ela pode não receber, mas vai ler - pensei.
Palavras sinceras, verdadeiras, boas, aqueles desejos de um bom futuro, que esperança nunca é demais, principalmente quando se deseja assim, sem esforço e com todas as forças. Mas se eu me entregasse um pouco mais àquelas palavras diria algo que ficou oculto, nem para as entrelinhas quis deixar escapar. "Adoro, apesar de você?". Não. "Odeio, você não faz o que diz"? Também não. Mas porque ocultar? Orgulho? Não sei, até acho que não. Amor próprio? Talvez, acho que sim. Em manuscrito azul, lá estavam os dizeres, papel dobrado, personalizado, com uma fadinha ou anjo de pedra, desses que se compra nas livrarias.
Cheirei o cartão. Não que fosse cheiroso, era um típico papelzinho de natal, sem cheiro especial - ainda bem que existem as palavras e figurinhas que colorem o tal. Mas que seria o mesmo cheiro que entraria pelo seu nariz, e dessa forma que nossos corpos compartilhariam alguma coisa - depois desejei esquecer esse pensamento. Quando terminei, envelopei e decidi entregar, já era a própria noite de natal. Fiquei tão nervoso quanto na época do vestibular, em que se vai à mesa deixar o gabarito sem saber o que pode voltar daquilo tudo. Quem me fiscalizava em câmera lenta era o meu mundo, observador atento.
Saí pelas ruas, as casas cheias de luzinhas pisca-pisca, que as crianças apontam e resumem simplesmente: "natal". Eu carregava palavras... As últimas? Talvez, tudo indica que sim. E nem por isso tão completas, faltava alguma coisa, ou várias. Mas já era tarde, não porque já poderia nem estar em casa, ter saído com a família, com os amigos, mas porque tanta coisa já foi dita, tanta coisa não foi feita. Um dia aquele percurso me trazia alegria; em outro, raiva; mas hoje era só medo. Dúvida, mas medo.
Não quero me lembrar do resto, mas o natal se foi, chega o pré-ano-novo, e meu desejo era poder dizer, agora, mais uma vez, a pretexto do ano que virá, "quer passar o reveillon comigo?". Tanta coisa aconteceu, tantas outras estão acontecendo, comigo, contigo. Mas eu não consigo me despedir de um ano sem me lembrar do que ele trouxe de bom, de melhor, assim, logo em seu começo, fazendo eu pensar que não mereço tanto, como quem ouve o dedo de Deus: "taí, que seu ano comece em janeiro". Dá vontade de não parar de ouvir "Blue Moon", "Chega de Saudade", e achar que você escuta o mesmo me atenta que - quem sabe? - também esteja, se não sentindo, pelo menos entendendo perfeitamente o que é isso.
Amanhã tem réveillon, e vai continuar faltando alguma coisa. Vou me lembrar do cartão de natal, e de que faltou dizer: "...e eu continuo te amando..."; e quando em uníssono proferirem feliz ano novo, braços para cima, fogos no céu, eu vou dizer, brilhando em silêncio, "feliz 2010, meu melhor presente", onde quer que esteja, seja feliz...
E então quero estar pronto para um novo janeiro.




















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