Blog do Mel - Entre e acomode-se


30/12/2009


Ao fim de mais um ano

Antes que o ano acabasse, tomei chá de coca, lembrei-me da grande viagem; tomei sorvete, lembrei-me das grandes companhias, dos momentos, tantos e tão vividos. Escrevi um cartãozinho, mas não sabia para quem. Sabia, mas não queria dizer. Foi para ela. Coisa mais ilógica, né?! Depois de tudo. Mas nesse momento tudo vira nada, no período em que o serviço público tira recesso também é de se andar com o espírito desarmado. Pois escrevi. Ela pode não receber, mas vai ler - pensei.


Palavras sinceras, verdadeiras, boas, aqueles desejos de um bom futuro, que esperança nunca é demais, principalmente quando se deseja assim, sem esforço e com todas as forças. Mas se eu me entregasse um pouco mais àquelas palavras diria algo que ficou oculto, nem para as entrelinhas quis deixar escapar. "Adoro, apesar de você?". Não. "Odeio, você não faz o que diz"? Também não. Mas porque ocultar? Orgulho? Não sei, até acho que não. Amor próprio? Talvez, acho que sim. Em manuscrito azul, lá estavam os dizeres, papel dobrado, personalizado, com uma fadinha ou anjo de pedra, desses que se compra nas livrarias.


Cheirei o cartão. Não que fosse cheiroso, era um típico papelzinho de natal, sem cheiro especial - ainda bem que existem as palavras e figurinhas que colorem o tal. Mas que seria o mesmo cheiro que entraria pelo seu nariz, e dessa forma que nossos corpos compartilhariam alguma coisa - depois desejei esquecer esse pensamento. Quando terminei, envelopei e decidi entregar, já era a própria noite de natal. Fiquei tão nervoso quanto na época do vestibular, em que se vai à mesa deixar o gabarito sem saber o que pode voltar daquilo tudo. Quem me fiscalizava em câmera lenta era o meu mundo, observador atento.


Saí pelas ruas, as casas cheias de luzinhas pisca-pisca, que as crianças apontam e resumem simplesmente: "natal". Eu carregava palavras... As últimas? Talvez, tudo indica que sim. E nem por isso tão completas, faltava alguma coisa, ou várias. Mas já era tarde, não porque já poderia nem estar em casa, ter saído com a família, com os amigos, mas porque tanta coisa já foi dita, tanta coisa não foi feita. Um dia aquele percurso me trazia alegria; em outro, raiva; mas hoje era só medo. Dúvida, mas medo.


Não quero me lembrar do resto, mas o natal se foi, chega o pré-ano-novo, e meu desejo era poder dizer, agora, mais uma vez, a pretexto do ano que virá, "quer passar o reveillon comigo?". Tanta coisa aconteceu, tantas outras estão acontecendo, comigo, contigo. Mas eu não consigo me despedir de um ano sem me lembrar do que ele trouxe de bom, de melhor, assim, logo em seu começo, fazendo eu pensar que não mereço tanto, como quem ouve o dedo de Deus: "taí, que seu ano comece em janeiro". Dá vontade de não parar de ouvir "Blue Moon", "Chega de Saudade", e achar que você escuta o mesmo me atenta que - quem sabe? - também esteja, se não sentindo, pelo menos entendendo perfeitamente o que é isso.


Amanhã tem réveillon, e vai continuar faltando alguma coisa. Vou me lembrar do cartão de natal, e de que faltou dizer: "...e eu continuo te amando..."; e quando em uníssono proferirem feliz ano novo, braços para cima, fogos no céu, eu vou dizer, brilhando em silêncio, "feliz 2010, meu melhor presente", onde quer que esteja, seja feliz...


E então quero estar pronto para um novo janeiro.

 

Escrito por Melquiades Junior às 19h15
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18/12/2009


Pelas pedras

Caminha todos os dias por entre as pedras. Os grãos de areia enchem-lhe os sapatos. Quando não está com a neta carregada nas costas, são os mantimentos de artesanias vendidas para os curiosos. Não entende porque tanto interesse dos estrangeiros, mas pouco importa se é o que lhe sustenta. Nunca se confundiu dentro do labirinto Inca. As principais confusões acontecem na última reta para casa, quando a avista "pequena, feia, simples, sem cor". Não entende, e já pouco importa, porque é tão pobre e, ao mesmo tempo, tão feliz.

 

Foto em Pisaq, durante a inesquecível viagem pelo Peru

Escrito por Melquiades Junior às 02h19
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17/12/2009


Ao fim de mais uma luz

Nas primeiras vezes em que nos vimos, tudo era diferente. Normal: não parei nem para pensar se era bonita, não olhei para o bumbum quando deu meia volta – o nervo óptico instinto-macho devia estar desligado; não achei nada demais, tirando os olhos pronunciados. Quando tudo virou de pernas para o ar, assim literalmente, foi que vi o que não via antes. E o mais normal era achar que fosse tudo diferentemente bom. Eu não a achei linda, a essa altura já tinha certeza. Não olhava para seu bumbum, não só para ele. Eu nem só mais olhava.

Mergulhei numa cachoeira de encanto da qual já tinha me despedido e com vistas de não me molhar nela tão cedo: e me apaixonei. Assim, de novo, outra vez. Não queria admitir, eu vivendo quase um surto eunuco, ou, no mínimo, de monges em início de carreira. Mas aí aconteceu. Senti-me eu, grande, iluminado, fui completado. Fazer o que se o tempo não para, o coração não para, o ‘pulso ainda pulsa’, e o meu endereço e profissão são os mesmos?

A gente foi se chegando, instalando, entrando. Como toda paixão que se crê nascida em berço de rosas, a amizade foi nosso primeiro ingrediente. E o principal. Um desses televisores longe da era digital, que ofuscam entre o preto-e-branco e o colorido, a cada batidinha, assim virou nosso namoro-amizade. Mais amizade, para ressaltar a tal da independência, ou descompromisso – dois saídos de amores que um dia se perderam no caminho e cheios de razão de que ‘agora’ precisam é viver, como se isso significasse não namorar tão cedo, como se isso tivesse a ver com “prisão” – precisamos nos desprender desses pragmatismos.

Mas essa atração apaixonativa deu rumo ao “era disso que eu estava precisando”. Ainda que eu não soubesse do que precisava. Mas se eu estava feliz, rindo até para o dia abafado e sem vento, fazendo planos aventureiros – dessa vez a dois, uma, duas, três, quantas vezes fosse preciso – e sentindo que além de iluminar a minha vida, estava estupidamente contente ao iluminar a dela, eu senti que paixão era pouco, e depois de entender que não estava bêbado isso era amor, mas sem querer me prender a essas escalas gradativas de sentimento. Sem saber o que é, aquilo só bastava ser.

 Até hoje não sei se (por quê) ainda quero, ou o que ela realmente quer quando está querendo. E a vida de vírgulas encontrou reticências, e qualquer afirmação é em tom de dúvida.  Sem colorido ou preto e branco. Acabou. Mergulhei na cachoeira do desencanto, da decepção. De novo, invariável. De ver o precipício da beleza nua e encontrar... Não encontrar nada onde se prender, agarrar, uma esperança – outrora tão gorda de alimentada, em vão. Eu quis iluminar sua vida e caí em minha própria escuridão e, novamente, não vejo mais nada, até voltar a ver nisso alguma coisa, só mudando nome e endereço.

Escrito por Melquiades Junior às 23h12
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10/12/2009


Não me veja chorar

Quando a vi pela segunda vez, nem pareceu que na primeira, três segundos antes, estava aos prantos, chorando como quem sofre.  E mesmo quando ri, tem sofrimento. E mesmo quando chora tem beleza. Nos olhinhos puxados a marca de suas raízes, na bochecha em tom levemente rosado, o signo de onde vem - frio.

Em seus olhos a intimidade, mas a estranheza, ou incômodo, de sentir-se vista. Talvez tivesse vontade de continuar chorando, talvez o choro fosse tão insignificante que não deveria ser fotografado, ou justamente pelo contrário disso não ter que ser registrado. Chora, menina, se tem vontade. Que quando vi seu choro, foi o meu que vi. Quando mirei com a minha lente, foi para me ver espelhado. Se de alegria ou tristeza, não sei. Mas o choro seria nosso bem comum, ainda que do seu caíssem lágrimas e as minhas pupilas só brilhassem, eu talvez mais tímido que você.

Se eu não tivesse visto, ou você não tivesse me percebido, teria chorado sinceramente, e dito coisas entaladas, e entoado sons discordantes, mas em uma incontinência de quem precisa chorar. Se você não tivesse me visto, e tivesse continuado em seu choro, talvez tivesse visto o meu, silencioso, mas gritante. Teria visto uma lágrima que cai tão lentamente quanto é forte a resistência em saber porque chorar. Quando eu choro, me lembro de você, e de que talvez alguém me esteja mirando, e também chorando, vendo que dentre todos os bens o mais comum é sentir que quando há sentimento, choro e sorriso são mais fortes se compartilhados, até que os olhos se percam em nosso infinito particular.

 

 

Escrito por Melquiades Junior às 19h23
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08/12/2009


Embolado

 

Quando pensou que o seu mundo era do tamanho do mundo, entendeu que não conheceria metade da metade da metade do que pudesse imaginar sobre o que seria o todo. Mas foi assim mesmo, caminhando mais rápido que o giro do mundo ao redor de si. Teve a fabulosa lembrança de que o mundo é redondo, mais que chato, brilhante, mais que escuro. E continuou caminhando. Conheceu quadrados, triângulos, trapézios, círculos, e formas sem forma alguma. Uma nova forma de ver o mundo. E foi fotografando tudo.

 

 

Do que a gente precisa

 

Uma nova forma de ver o mundo é fechar os olhos. Faço isso sempre que posso, em quase todos os banhos. Deixar a água cair sobre minha cabeça, fazendo um barulho estranho, a água escorrendo por meu corpo. Aí me sinto tomando banho de chuva, aí me sinto num dos meus sonhos acordados, de menino. Só não posso demorar, para não dar tempo de o medo chegar, e me fazer abrir os olhos não porque eu queira, mas porque foi a hora de desligar o chuveiro, para não pagar mais caro a conta de água ou não deixar que o meu medo me morda como nos pesadelos debaixo dágua. Para fugir, só mesmo abrindo os olhos, mas não antes de tê-los fechado longamente...

Escrito por Melquiades Junior às 17h22
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Olhos

 

Existem mais coisas entre dois olhares que entre o céu e a terra. Um portão? Uma passagem entre mundos? Às vezes só a sinceridade de olhar para dentro de quem vê. E por trás dos olhos existem janelas, que nos levam a almas, pequenas, grandes, mas nenhuma é má, se não tem controle sobre as atitudes de todos os sentidos. O olho aproxima, liga, enlaça. Ajuda a mergulhar nos olhos alheios, para tentar encontrar a si mesmo. Olhares podem dizer mais que quaisquer outros gestos e palavras.

Olhares inocentes, pensamentos vãos, janelas que se comunicam sem uma saber da existência da outra. Ou não. Comunicam-se por se sentirem presentes. “Vamos brincar?”; “não, eu não posso”, “você é estranho”; “estranhamente bom ou estranhamente mal?”. “Você é”. Olhar é fazer o registro fotográfico de si ou do outro, é o que fica na lembrança, a primeira impressão – apoiesis.

Quando eu olhei, não quis ver nada. Quando vi alguma coisa, quis ver tudo e vi muito mais. E continuem vendo. Só não parei para ver que a gente vê o que quer, ou o que tem medo. Ainda assim, o melhor é entregar o olhar, mergulhar, e quando fecho os olhos a janela de dentro se abre. E o coração, e os ouvidos, e a boca. Tudo é silêncio para o que se espera (vi)ver.

 

Escrito por Melquiades Junior às 17h00
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12/10/2009


Por onde nunca andei

Perto da varanda do meu quarto no primeiro dia em Lima, um pombo na tarde cinzenta de domingo

 

Em pleno dia das crianças, soube que as minhas sobrinhas estavam maravilhadas nas programações infantis no Parque do Cocó, em Fortaleza. Maravilhoso é descobrir, conhecer e se reconhecer maravilhado, atraído, encantado. Pode ser o simples, mas contando que nos seja a, lgo novo. Desde que cheguei a Lima, no Peru, os sentidos aguçaram. Um cheiro de incenso, um lugar cinzento, de costumeiramente nublado. Frio, mas nem tanto se comparado a Cusco, a cidade onde surgiu a civilização Inca. Aquí, 12 graus, lá, cinco graus.

Ao chegar na tarde de sábado, passar por todos os trâmites no aeroporto local, segui para um Hostal, que nem muda muito dos hotéis que cà encontramos.

Não me sinto perdido. Ando sozinho entre os bairros de Lima, uma das maiores cidades da América Latina, pegando coletivos, táxi e mototáxi (um carrinho em que cabem duas pessoas).

 Essa é a primeira postagem no blog, depois de vários meses desatualizados. As primeiras fotos não devem mostrar muito de quem quer ver o Peru dos livros (nem me ver), mas mostram minhas primeiras impressões, e a energia que se pode captar nos enquadramentos em Lima. Um pássaro na varanda do meu quarto, um casal que passeia na tarde de domingo, um motorista que lava seu carro e crianças de um bairro pobre que aproveitam a interdição da avenida aos domingos para jogar volei. Meus sentidos nas primeiras imagens dos primeiros dias de viagem. Aqui, Pacha Mamma (Mãe Terra) me chama. Então vamos!

E um motorista, se nao apaixonado por seu carro, levando a mensagem da paixao alheia, lava sua preciosidade

Criancas de um bairro pobre aproveitam o unico momento em que a rua eh interditada para o unico espaco de lazer no bairro de Gamarro

 

Uma cidade de cinza, multicores e amores

Escrito por Melquiades Junior às 19h37
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24/12/2008


Com os índios do Ceará

Desentender, para depois entender, ainda que nada seja de todo compreendido. Na dinâmica rotina, monotonia será só em pensar as mesmas coisas, sobre as mesmas pessoas e coisas - improvável. Quebra-se mitos, preconceitos e, de quebra, o dos outros. Foi mais ou menos o que aconteceu com meu anúncio: passarei uns dias numa aldeia indígena, fotografando, ouvindo os índios, escrevendo sobre suas reivindicações...

 

"E tem índios no Ceará?", ouvi diversas vezes. Só mudavam as vozes. Eu mesmo a proferi, anos atrás, antes das primeiras aulas de antropologia na faculdade - até porque raramente os jornais falavam de nossos índios. O segundo espanto alheio foi lá, quando anunciei aos índios que publicaria uma série de reportagem sobre eles.

 

Viajei para a Aldeia Cajueiro, em Poranga, sertão dos Inhamuns, divisa do Ceará com o Piauí. Não fosse o coletivo parar tanto, teriam sido oito, e não 12 horas de viagem até aquela cidade. Não fosse a estrada tão ruim e a ausência de transporte melhor, teria sido meia hora, e não duas horas e meia, nos últimos 38 quilômetros num pau-de-arara até a aldeia que leva o nome de uma frondosa árvore, em cuja sombra reuniram-se, como 14 anos atrás, centenas de índios de 13 etnias do Ceará, durante uma semana. Era a Assembléia Estadual dos Povos Indígenas.

 

Dormimos todos amontoados em redes ou finos colchões espalhados embaixo de árvores ou de galpões com estrutura suspeita. Terra dos índios tabajara e kalabaça. Nos primeiros dias, não havia água nem para suor, tamanha a sequidão em terra de um sol para cada cabeça. Uma vez no dia chegavam dois galões de água, para tanta gente beber. Quem tinha coragem, tomava banho com água enlameada de um pequeno córrego onde os bois matavam a sede.

 

Até aqui, nenhuma informação nova sobre a realidade da terra de caatinga e o sofrimento do sertanejo para conseguir água de beber - e qualquer dia será a grande agonia de todo brasileiro (ontem assisti ao lançamento "007 - quantum of solace", a primeira ficção arrasa-quarteirão que vi tratar do terrorismo em que água, mais que petróleo, é a carta do baralho vilanesco). É só o começo.

 

Os índios me surpreenderam com relatos de preconceito, luta, ameaças de morte, pelo fato de serem índios, mas também vi suas danças, suas alegrias, rituais e amores. Há séculos vivem em áreas hoje consideradas valiosas para os empresários nacionais e estrangeiros, como os litorais de Itapipoca e Itarema. Um deles quer implantar projeto para construir 14 resorts, 13 hotéis cinco estrelas, três campos de golfe e condomínios residenciais. Se o índio está naquela área, assegurada a eles pela Constituição Federal, única alternativa para expulsá-los é não reconhecê-los enquanto sua identidade indígena. É a luta dos Jenipapo-Kanindé, Anacé, Kariri, Pitaguary, Potiguara, Tabajara, Tapeba, Kalabaça, Tupiba/Tapuia e Tremembé e por aí vai...

 

A luta pela reafirmação da autenticidade étnica, a arte e a educação como formas de resistência, a briga na demarcação de terras e o desafio das novas gerações indígenas foram registrados na série de reportagens de quatro dias seguidos estampando a capa, numa maratona em que colhi documentos históricos, judiciais, ouvi antropólogos, lideranças indígenas, empresários, missionários indigenistas e organizações governamentais e não-governamentais. E algumas horas para fazer ensaio fotográfico para as quatro edições!

 

Só tenho que agradecer enormemente à dona Maria Amélia (Missão Tremembé), aos antropólogos Max, Joceny, Gerson e Sérgio, à amiga Bárbara Diniz, à outra amiga e cientista social Iana Soares, por algumas fotos, muitas informações e pela condescendência em eventuais deslizes; à potiguara Maria Germana, pelo colar de presente de semente de jatobá, que dá uma áurea antiinflamatória que vou considerar no meu tratamento dermatológico já cheio de coisa de farmácia. A maior gratidão aos movimentos indígenas, exemplo de luta e que me fazem sentir útil, nessas andanças de derrubada de mitos, quebra de preconceitos e tornam mais dinâmica minha boa e velha rotina.

 

Orações pedindo luz aos ancestrais (foto: Melquíades Júnior) 

 

 Ganhei um colar de índia Germana (direita) - (Fotos: Melquíades Júnior)

 

 Joao Neto pinta o rosto com tinta da semante do jatobá (Foto: Melquíades Júnior)

 

O toré é a dança sagrada e alegre dos índios (foto: Melquíades Júnior) 

 

 Cacique Pequena, a primeira do Brasil (Foto: Melquíades Júnior)

 

Pajé Barbosa nas homenagens ao Pai Tupã (foto: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 14h37
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23/11/2008


Enquanto é só uma calçada

 

Antes de Arnete a calçada parecia não ter tanta importância. Só uma extensão disfarçada da rua que um dia teve seu momento de glória no sapateado de Gene Kelly, no filme “Cantando na Chuva”. No mais, sempre seria só uma calçada. Com uma pequena rampa de cimento, o homem coloca a moto para dentro de casa, ou o carro na garagem. O garajal com o pé de nim logo em frente dia sim outro não é regado. A calçada fica também toda molhada, “pra ver se esfria o tempo”, enquanto sobe o mormaço que ilude e lembra chuva.

Da calçada segue-se para o calçamento, cheio de catabilhos. Arnete só sai de casa com dificuldade, e com alguém para lhe dar empurrãozinho. Nunca pensou que uma anomalia neurológica fosse lhe tirar o direito de andar. As pernas perderam a força. Foram substituídas pela cadeira de rodas. Mas Arnete roda o mundo.

As calçadas foram barradas, cinco, seis estacas de ferro e cimento, ou de cano PVC. “Pras bicicleta não passar por cima”. E agora? Arnete desce, pula feito pipoca no calçamento cheio de pontas de pedras. Passa carro, passa moto, passa bicicleta, que só precisa aproveitar o fim das barreiras para subir na primeira calçada desimpedida. Arnete, que só tinha o meio da rua, estava decidida a dar um fim.

“Calçada é de pedestre e cadeirante”, esbravejou. Por sua história de vida e testemunho dos desafios de uma pessoa com necessidades especiais, ganhou um programa de rádio, para consolo dos ouvintes necessitados aos domingos de palavras de ânimo. Mas Arnete sabe que existem os dias de vacilo, de fazer exatamente o contrário das mensagens que profere. Mas os dias de tristeza são minoria, só para garantir que não será hipócrita para dizer que o mundo será melhor em uma cadeira de rodas, principalmente com tantas calçadas impedidas. No fundo, ela entende que é mais feliz agora, porque, mais que os não-cadeirantes, conhece o gosto da vitória diária: viver.

A campanha foi parar nas ruas, daí para os jornais, daí para a casa e a consciência de muitos cidadãos saudáveis - até mesmo os que barraram as calçadas. Num gesto singelo, um a um foram tirando as barreiras, obedecendo a Lei da Acessibilidade, só conhecida depois de Arnete, que vê a mudança feliz e com lágrimas nos olhos. “Ela só quer exercer o direito de ir e vir”, esclarece um pedestre.

Enquanto “Seu Vianez”, o eletricista que vira pedreiro voluntário, retira os obstáculos da calçada, Arnete vence o calor de Limoeiro com sorvete de flocos com brigadeiro. Sabe que quando terminar sentirá a delícia que é andar desimpedida de uma ponta a outra da calçada, e outra e uma e mais outra, que é só uma calçada.

Escrito por Melquiades Junior às 15h57
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27/08/2008


Quatro meses

Blog, pra que te quero. Passou nada menos que quatro meses sem uma postagenzinha. Uma linha, uma vírgula, uma foto nova. Sua vida parou por quatro meses. Estava em coma. Eu não. Vivi intensamente nesses quatro meses. Nenhuma novidade de rotina, mas pra que mais que isso do que a própria rotina? Enquanto este recinto estava na pendura - e com o perdão dos leitores cativos que aqui vieram em vão – foram vários outros textos, e ainda muitas outras fotos. Só no jornal.

Viajei (que novidade) pelo Vale do Jaguaribe e encontrei Segredo, Milagre, Já Morreu, conheci Pau-de-Gato, um rapaz de 28 anos desde os 12 é assim chamado por todos os amigos, para ódio da mãe. Inda teve Geriberguearusco (é o nome de certidão mesmo). Falaram-me de Priquito de Ouro, uma cafetina só para os mais abastados; de Piroca, de Psicoxota, o cara que só pensa ‘naquilo’... Ainda me fizeram rir de Carái, Ferro Quente e vários outros apelidados. O nome ganha-se depois de gente nesse mundo.

Intrometido, também li algumas cartas. Nenhuma me tinha como remetente ou destinatário, mas foi a própria dona Joana Bandeira quem me mostrou. Em plena era telefônica e de Internet, até um recado para um amigo da mesma cidade tem que ser em envelope, um papel cheio de desenhos nas pontas e – importante - trabalho manuscrito. “Quando escrevo me sinto mais à vontade, desabafo, falo até as esculhambação”, garantiu. Também conheci o borracheiro que de tanto consertar carro esculhambado criou o Kit do Borracheiro, uma parafernália mini-industrial patenteada e que teve repercussão nacional. Foi premiado por isso, mas ainda não tem dinheiro para a produção em escala.

Enquanto o Blogdomel estava parado, fui a Jaguaribe, a terra do queijo e comi... Queijo! Uma beliscada em cada visita a queijeiras industriais e artesanais. Mas foi lá que mesmo foi comi... Feijão. Estava disfarçado de bolo, torta, pizza, ‘vitaminado’, foi o que fizeram duas adolescentes e a professora de biologia, para participar de uma feira de ciências. Disputaram a nacional em Brasília e a internacional, no Peru. Conquistaram a segunda melhor colocação na América Latina, uma escola pública a frente de todas as particulares que também foram representar o país. As receitas com feijão reduziram o quadro de desnutrição infantil na cidade.

Fui à cidade mais perigosa do interior do Ceará à procura de paz. Encontrei um oásis em pleno sertão, o Pólo Bezerra de Menezes (hoje, retiro espiritual; ontem, onde nasceu o famoso, 10 km do centro de Jaguaruana), onde 400 crianças e adolescentes têm educação diferenciada, convivem com pássaros que não só voam livres como caminham soltos por entre nossas pernas. Naquela caatinga não tem sequidão, mas um pequeno açude que abastece e resfria o lugar. Bezerra de Menezes é aquele considerado o Médico dos Pobres. Os 177 anos de sua morte são lembrados no dia 29 de agosto, data de lançamento de sua biografia no cinema nacional.

Acompanhei a luta da comunidade de Lagoa dos Cavalos, que teme perder a terra em que planta há décadas (agroecologia, diga-se) para dar lugar ao “maior projeto do agronegócio do Ceará”. Bateram o pé e disseram que dali não arredam. A mesma determinação da dona de casa Maria Vandizete, da comunidade de Arraial, que condena a compra de votos e que fique claro: “Esta família não vende voto”.

Quatro meses é muito tempo, e tudo o que vi acima o fiz em apenas seis dias, mas é do que mais me lembro agora de quando o blog esteve parado. Ainda teve o festival de sanfoneiros de Limoeiro, com a alemã Cathrin Pfeifer (para citar os “destacados”), mas principalmente Vinicius de Galiza, de apenas sete anos, pediu com vontade e conseguiu tocar ao lado de Adelson Viana, um dos maiores acordeonistas brasileiros. Emocionado, disse-me que Vinicius é o “futuro” garantido da sanfona. Também são esses registros que povoam minhas reportagens no jornal e que, com outra profundidade, “garantem”o futuro deste blog. Amém.

 

             ***

Dona Joana Bandeira e suas cartas (foto: Melquíades Júnior)

 

Nem tente comprar o voto de dona Vandizete (esquerda) (Foto: Melquíades Júnior)

 

Comunidade de Lagoa dos Cavalos, Russas. (Foto: Melquíades Júnior)

 

"Netinho", de Serra Talhada (PE)  (Foto: Melquíades Júnior)

 

Cathrin Pfeifer no Festival (Foto: Melquíades Júnior)

 

Crianças no Pólo Bezerra de Menezes (Foto: Melquíades Júnior)

 

Adelson Viana e o pequeno Vinícius de Galiza, garantindo o futuro do que Luiz Gonzaga nos presenteou (foto: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 17h12
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06/04/2008


Água em todos os sentidos

 

Açude castanhão com duas comportas abertas no dia 2 de abril

 

O ser humano tem uma relação obviamente intrínseca com a água. E nenhuma abundância é tão próxima quanto a chuva. O inverno – na verdade, verão chuvoso – que permeia o Ceará é o grande protagonista deste ano, enquanto não houver, ou quase isso, sol brilhando. O açude Castanhão está muito cheio. Sangrará? Arrombará? Já pensou o tanto de água invadindo cidades? Quando chove, e o céu esbraveja, é trovão. Outra enchente a la anos 80? Já disseram que quando a terra treme é um enorme dragão no subsolo tentando acordar. Para muitos, o Castanhão é só um monte de água. Para outros – falo dos mais puros sertanejos – é o que de mais vivo a natureza pode criar.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Garoto puxa barco no sítio Ilha, em Limoeiro (texto e foto: Melquíades Júnior)

 

A figura do nordestino sertanejo da zona rural é vista, pelos óculos do preconceito, como aquele sujeito analfabeto, pai ou mãe de muitos filhos, filho ou filha de pai nenhum, castigado pela ‘misère’ e, portanto, desprovido de maiores razões. Ele pode ser tudo isso, até desprovido de algum tipo de razão (a da tal ciência), mas nunca um ignorante. Existe algo maior que fé ou razão. E que pode explicar o universo que constitui a relação do sertanejo com água.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Barragem do Castanhão

 

Caro leitor, cara leitora, nada tão comum quanto a água nas bandas daí, e nas minhas bandas também, já que sempre tive água na torneira – embora minha mãe não possa dizer o mesmo de sua juventude. Mas “água muita”, para quem está acostumado a vê-la tão pouco, é motivo catalisador para o imaginário popular, que, qual nossa imaginação, felicita e amedronta. O sertanejo se permite imaginar o Castanhão, por exemplo, como um ser que de outro mundo passa para este e, em delírios prosopopéicos pode se comparar a um monstro, que, recentemente, acaba de acordar. Todos querem que fique feliz e tranqüilo, nunca com raiva.

 

 

 

Continua...

 

 

 

Barragem das Pedrinhas inundada pelas águas do Jaguaribe

 

Fé e Razão encontram seus limites aquém da imaginação, esta reveladora de transcedentalidade. As verdades dos homens “de fé” e dos homens “de ciência” nem sempre cabem na realidade de quem consegue entender e dar diferentes significados ao que nos rodeia. E a imaginação (nem verdade nem mentira, mas equação do pensamento próprio) é o poder que une o sertanejo com medo de os rios, enfurecidos, descontarem suas mágoas-águas em nossas cabeças, fazendo vilão um todo cuja parte é o melhor que há, a Machado de Assis, capaz de ver “olhos de ressaca” de mar em sua Capitu, ou o cientista que não viu, mas jura em um “big bang”.

 

***

 

Água é a letra do poema, refrão da canção, insumo biológico, grito de guerra, grito de paz, matéria-prima da fé, da razão, ferramenta catalisadora da imaginação. Água é só isso e isso tudo.

 

Água de passagem pela comporta do Castanhão (Texto e fotos: Melquíades Júnior)

Escrito por Melquiades Junior às 10h29
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23/03/2008


A chuva em sete tempos

Estátua de São José é colocada no Bixopá (textos e fotos: Melquíades Júnior)

Por lógica ou ironia, uma das regiões que mais sofrem com a falta d'água no Ceará, a comunidade Bixopá, em Limoeiro, tem em São José o padroeiro da causa mais difícil: água na torneira. No chão não falta - logo atrás do paredão de terra há um pequeno açude, hoje cheio devido a chuva. Do alto, garotos observam a chegada da estátua do "santo dos sertanejos" logo em frente. Eles se colocam entre o presente e o futuro. Lá choveu no dia de São José - 19 de março -, felizmente.

 

O Céu nos prepara

Garotos observam o céu - distrito de Bixopá, Limoeiro (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

Se chove ou não é sempre uma dúvida. Tem vez de nuvem imensa e escura de tão carregada passar por cima das cabeças dos expectadores (de expectativa mesmo) e chover em outras paragens. Ainda no Bixopá conferir o céu “se fechando” é entender a razão da fé. Quem é criança, só tem que aguardar o “toró” d’água, “pra descer de bicicleta e tudo da ribanceira lamacenta”.

 

 

Chuva com sol

 

(Criança toma banho na calçada em frente a casa - Limoeiro - (texto e foto: Melquíades Júnior)

 

Depois de aperrear a mãe para tomar banho de chuva (chora para não ir ao banheiro), Yasmim, a mais nova de minhas sobrinhas, bate os dentes de cima com os de baixo, na frieza da calçada molhada, esquentando mais um momento sublime de ser criança. Bom é brincar na terra fria.

 

 

 

A vaca foge do brejo

(Gado caminha na rodovia CE 377, entre Limoeiro e Quixeré (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

Quando a chuva é pra valer, muito cuidado nas estradas. Que a vaca foge do brejo em busca do asfalto “quente”. Nessa hora, a rodovia é dela, e qualquer motorista é um mero passageiro.

 

 

 

Para não parar

 

Poça d'água se forma no quintal de casa (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

De maduro, o limão cai justo nos últimos momentos de chuva. Talvez para prorrogar o banho e mergulhar - mesmo que com água só na “cintura” - nessa frieza.

 

 

 

Suspiros de vida

Poça de lama no quintal de casa (textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

A folha que cai é morta, mas colorida. A lama parada reflete o aceno das que ficam em cima, plantadas, sombreando, alimentando e aguardando o momento e a vez dos também últimos suspiros de vida. 

Escrito por Melquiades Junior às 18h56
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Porque sempre irá chover

 

Tombada como Patrimônio Histórico Nacional, Rua Coronel Alexanzito (popular "Rua Grande"), em Aracati, refrega a ressaca da maior chuva já registrada no município (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 

E quem vive depois que a chuva passa, passa o tempo esperando que vá embora, que a vida continua. Como nem todo mundo é peixe, é preciso nadar no seco. A chuva traz muita coisa boa, mas, de irresponsável, o homem – os nossos propalados governantes - nem sempre está preparado para ela. Esquece que a natureza ainda é a mãe desse grande fenômeno, que tem a cumplicidade do céu.

Escrito por Melquiades Junior às 17h52
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20/03/2008


Na chuva outra vez

“É agora, José! Tem que ser agora.” Tomei banho de chuva no dia de São José. Desculpe a redundância, mas cheguei em casa completamente molhado. Não queria, ou queria (é que passei a querer), mas fui.  Vaguei sem rumo, sem lenço e, felizmente, sem documento pelas ruas de Limoeiro. Tarde da noite e eu lá, ocupando o meio da calçamentada, de pingo em pingo, saboreando uma neblina de chuva que chegava sem jeito. A cena por si só era poética, mas tinha poesia nenhuma. Eu não pensava. Só pensava em tomar banho de chuva, assim, andando calmamente... Quem viu de longe pensou que “esse aí se rendeu, pra quê correr se, além de molhado, vai chegar cansado?” E naquela compassada caminhada, pra quê pensar se, além de molhado, vou chegar preocupado? Os pingos eram sortidos, mas tão distantes que não pareciam me banhar tão cedo. Talvez foi por isso que decidi enfrentar a neblina de quase meia noite, que parecia ser somente minha.

 

Vinte minutos de caminhada e fez-se a chuva, agora pra valer. Não tinha por onde correr. Literalmente, quem tá na chuva... Vaguei por ruas, avenidas, calçadas – mas fugi das biqueiras. A cachorrada latia e, eu, só no pensamento, cantava e dançava “singing in the rain”, o clássico do cinema hollywoodyano pra sertanejo ver. Para quem viu, parecia um louco, um bêbado. Mas chegou uma hora em que éramos somente eu e a chuva. Ela chiava, meu coração batuvaca. Mão nos bolsos da bermuda, camisa ensopada, andar compassado, eu só ia pra não sei onde, rindo com o maior prazer. De cima de mim tudo era festa, dançando e cantando com a chuva enquanto ela pôde ser...

 

Ps.: A câmera não é à prova d’água, mas assim que cheguei em casa tentei registrar um pedaço desse momento, nem que fosse um pedaço de calçada molhada. Para eternizar o brilho da chuva.

 

 

Escrito por Melquiades Junior às 23h59
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09/03/2008


No Dia Internacional da Mulher

Dona Maria da Conceição e seu Valderi. Mãe e esposa, mulher guerreira e sofredora que conheci no Dia Internacional da Mulher (Textos e fotos: Melquíades Júnior)

 

 Declaro, para os devidos fins, que Maria da Conceição Gomes, 49, mãe de dois filhos, casada, moradora do Sítio Espinho, em Limoeiro do Norte, é uma mulher guerreira e, como todas do seu gênero, de uma força que surpreende o mais forte dos homens. Ela não é muito diferente de muitas mulheres que conheço. A diferença foi conhecer sua história em pleno dia da mulher.

 

Foi abandonada pelo marido quando o filho mais novo, hoje com 20 anos, ainda estava de braço. Sozinha por quase dez anos, arrumou outro homem da sua vida. Com José Valderi Rodrigues, que hoje tem 41 anos, reavivou a esperança de uma companhia que lhe cuide bem até a velhice.

 

“Valderi é um homem tão bom” - ela me testemunha, sobre o homem, natural de Pereiro (também no Ceará), regresso da vida “que não deu muito certo” na São Paulo dos anos 80. Os dois moram numa casinha tão pobre quanto indigna. Hoje os filhos estão casados. O mais velho – tem 25 anos - já lhe deu um neto. Tirando alguns favores que fazem à mãe, só ganham mesmo para tirar o próprio sustento. “Meu mais velho sabe lê e tem carteira de motorista, podia ter um emprego melhor” – carrega sacos pesados.

 

Maria da Conceição recebeu meus dois parabéns: pelo dia internacional da mulher e porque “daqui a dois dias completo 50 anos”. “Mas tô tão cansada”, completa. De fato, meu espanto foi ela dizer que mal tem essa idade, tamanha é a cara de velhice e sofrimento.

 

Agricultora “desde nascença”, foi também essa a profissão de Valderi, não é mais. Há três anos contratado para trabalhar numa empresa produtora de banana na Chapada do Apodi, em Limoeiro, hoje o maior pólo agrícola do Ceará, o “homem bom” não durou um mês na plantação, onde era encarregado de espalhar veneno agrotóxico para evitar problemas às bananeiras e, claro, ao empresário. Nas primeiras duas semanas sem Equipamento de Proteção Individual (EPI), foi de chinela, calção e camiseta que se armou o homem.

 

Bastou poucos dias para o veneno ferir um dedo do pé, depois o pé, daí à canela foram só mais alguns dias para o esposo de Maria da Conceição perder metade da perna direita. O que sobrou do membro é um sofrimento cotidiano. Inflamada e cada vez mais desgastando-se, o resto de perna causa gritos de dor ao homem.

 

Sem poder trabalhar, Valderi é cuidado pela esposa, que precisa limpar diariamente os ferimentos. Dizer que estão no aperreio é pouco: o homem não conseguiu se aposentar, ela não tem emprego. Com exceção de um temporário auxílio doença, sobrevivem do que recebem das pessoas. Mês passado, pagou R$ 50 de aluguel, R$ 70 da luz (para o próprio espanto) e “fiquemos sem comer. Já não vendem mais fiado, porque não confiam que a gente vá pagar, num temos trabalho mesmo”, lamenta Maria, que para hospital consultar ou emissora de rádio pedir esmola coloca o marido na garupa da bicicleta e sai empurrando por mais de dez quilômetros. Ele para ela, e ela para ele, que, embora a tenha por esposa, não encontra melhor palavra para chamá-la do que de “mãe”. 

 

 

 

 

E outras mulheres...

Mulheres da Via Campesina protestaram na entrada da Fazenda Delmonte, em Quixeré, no Dia Internacional da Mulher.

 

 

 

 

Caras, bocas e sonhos...

A mulher estuda, casa, tem filhos, trabalha, protesta. Como ninguém, sabe o que é a injustiça humana. De um jeito ou de outro, toda mulher nasce mãe.

 

 

 

 

Olhares na luta...

Como numa guerra em silêncio, elas olham, sentem, e são capazes de explodir a bomba de todas as mágoas no próprio estômago, para depois proverbiar palavras amenas.

 

 

 

Num sorriso discreto...

No fim, um sorriso discreto e verdadeiro, de quem é mais forte do que o sofrimento e está sempre pronta para a luta, do tamanho que for.

Escrito por Melquiades Junior às 23h03
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04/03/2008


Da arte de afinar sanfona

Zecildo toca o instrumento, afina, reconstrói e toca a vida de acordeom em acordeom (texto e fotos: Melquíades júnior)

Se já não é qualquer um que sabe tocar um acordeom, também é quase ninguém especializado na arte de afiná-lo, deixar com a sonoridade certa para quem quer “puxar o fole”. No Interior do Ceará, são poucos os afinadores de sanfona. Alguns remontam e até fabricam, com peças de sucata, um acordeom inteiro. O trabalho tem poucos seguidores, mas a demanda é grande, principalmente das bandas de forró, que após cada turnê correm atrás dos verdadeiros “luthiers” da sanfona.

Um deles foi agricultor, passou para sanfoneiro e, porque “não deu muito certo”, apurou o ouvido para afinar a sanfona e, quando é necessário, ressuscitá-la. Passa horas sentado no chão da sala ou na frente de casa, que já foi construída com dinheiro da afinação. Como não seria diferente, tem trecos de sanfona para todo lado.

Alguns instrumentos estão com simples ferrugem e com os teclados precisando afinar suas “cordas vocais”, outros nem fole ou teclados têm, mas os donos ainda fazem questão de chamar de acordeom, que só volta à vida depois de chegar às mãos de Zecildo de Oliveira, 35 anos, mecânico da sanfona em Tabuleiro do Norte, na região jaguaribana, que atende a sanfoneiros de vários Estados.

Zecildo começou a atividade “de repente”. Toca sanfona, mas não é lá essas coisas, precisou consertar o próprio instrumento, “e peguei o jeito da coisa”, diz. Em apenas seis anos de afinação, diz que já trabalhou com pelo menos 600 sanfonas. Bandas de forró e acordeonistas da região jaguaribana, Rio Grande do Norte e até do Maranhão socorrem a peça fundamental de um bom forró a qualquer hora do dia, pedindo-lhe o conserto “para ontem”. A casa do afinador já recebeu sanfoneiros como Redondo e “Chiquinho do Acordeom”, atualmente da banda Mastruz com Leite e um dos grandes apoiadores do afinador, ajudando na aquisição de peças e clientes.

Afinação

Uma afinação simples leva cerca de dois dias e custa pelo menos R$ 200,00. “Mas se a sanfona vem toda ‘quengada’”, sem fole nem teclados, pode ir para R$ 700,00. Daí é usar a criatividade, nesse caso leva mais de mês para ficar pronta. O fole é feito com uma espécie de papelão industrializado; os teclados são feitos de canos de PVC fundidos, e “fica igualzin”, atesta o mecânico, que recebeu a reportagem sem parar o trabalho de afinação das notas no cavalete da sanfona. Para deixar na medida, movimentava a licha com um motor de máquina de costura doméstica. “Aqui é tudo na base do aproveitamento”.

Meio século

A juventude de Zecildo contrasta com a idade de outro afinador de sanfona, mas se funde no talento para ser todos ouvidos para o instrumento. Ano passado completou 50 anos que seu Raimundo Zacarias, de 76 anos, “véve” de afinar sanfona. Não dá conta de quantas já deixou “sadia pra tocar”.

Ele não só afina, mas toca. E lamenta que no distrito de Lagoinha, no município de Quixeré, não tem ninguém interessado em seguir a profissão. Nem na família, que já nasceu com um pé na música – todos os dez irmãos e irmãs tocavam instrumentos.

“A minha afinação eu não quero que aperreiem, só entrego com um mês, mas a bem dizer é um negócio bem feito que só vendo”, afirma Zacarias. “Eu cobro barato” – R$ 300,00 para afinar a sanfona. O preço aumenta quanto maior for a ferrugem. A demora é que só pode trabalhar à noite, “à mode a zoada do dia, o povo e os carros passando, que atrapalha o trabalho da gente, aí só quando tem sossego é que trabalho”. Comenta, citando que já afinou as sanfonas de João Bandeira e Paulo Ney. “Mas ele tá que adoece toda vida que pega uma encomenda. É a poeira da sanfona, aí fica respirando aquilo, quando dá fé tá com gripe”, afirma Maria Santa, esposa do afinador. Eles moram com filhos e netos.

Raimundo Zacarias é intitulado mestre pelos admiradores da região jaguaribana. Tem vontade de conhecer Zecildo Oliveira, que tem a metade de sua idade e parece ser o único seguidor, na Região, de sua arte de afinação, que já tem meio século de existência.

Seu Raimundo Zacarias e a timidez de quem completa 50 anos afinando sanfona

Escrito por Melquiades Junior às 22h25
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